Saturday, 18 January 2020
Agrião e rúcula?
Já adulto, quando provei limão siciliano pela primeira vez, veio-me à cabeça uma sensação que, na época, eu não entendia direito: o limão do biscoito recheado que a gente comia quando criança em Areia Branca não era o mesmo limão que dava no fundo do quintal de casa. Na verdade, o gosto que sempre fazia a nossa festa de infância era desse dito limão siciliano, que eu nem sabia que existia. Aliás, tem uma cena da minha quinta série que não esqueço jamais; uma cena de quando saí do interior pra estudar em Aracaju no Graccho Cardoso. O Graccho era um colégio elitista, na época. O professor Anderson Sanches (querido professor!) falou na aula de história, e eu não lembro exatamente o contexto, da importância de se comer agrião e rúcula no nosso dia-a-dia. Eu, nascido e criado em Areia Branca, uma cidade sem qualquer importância no meio do menor estado do País, saindo dos anos 80, nunca tinha visto agrião ou rúcula na minha vida real. As únicas folhas que a gente conhecia bem eram couve e alface. Foi, provavelmente, a primeira vez que eu senti de verdade que existia um mundo que escondiam da gente.
Monday, 16 December 2019
Quase sonho...
Num quase sonho, eu estava em Aracaju. Fui ao supermercado. Enquanto procurava coisas numa das prateleiras, um garoto de uns 11 anos chegou junto a mim e pediu alguma coisa, de modo que eu não pude (na verdade, não quis) ouvir direito. Imediatamente após ele parar de falar, eu disse:
- Não tenho, não.
O garoto, então, olhou nos meus olhos e disse, já desistindo, e com uma sinceridade impensável:
- É, moço, ninguém acredita quando a gente fala.
Ainda no sonho, a fala dele me diminuiu ao que poderia ser o menor objeto do universo. Eu, esmagado no meu sonho inventado. Porque me dava conta de que, sequer tinha prestado atenção àquilo que "ninguém acreditava" e que, portanto, não saberia repetir. Do fundo do meu sonho, da minha catástrofe, agora completamente acordado, parado, com os olhos nos olhos do garoto, eu entendia que ele entendia que eu precisava ouvir novamente o pedido:
- Moço, é que a minha mãe não pode mais trabalhar e minha irmã está passando fome. O senhor poderia comprar um litro de leite pra eu levar? (ele usou exatamente essas palavras).
Eu não lembro exatamente como tudo andou a partir daí. Lembro que levei pro caixa um pacote inteiro de caixas de leite e que, no meio da minha emoção desastrada no caminho até o caixa, conversei sobre outras coisas com o garoto. Mas não consigo lembrar o quê. Os psicólogos dizem que, nos sonhos, as partes que a gente esquece são as partes em que a gente não se permite vivenciar. Se isso for verdade, eu sei porque: provavelmente, pela vergonha infinita que me tomou naquele momento. Uma caixa de leita era nada. O que quer que eu dissesse, era nada.
- Não tenho, não.
O garoto, então, olhou nos meus olhos e disse, já desistindo, e com uma sinceridade impensável:
- É, moço, ninguém acredita quando a gente fala.
Ainda no sonho, a fala dele me diminuiu ao que poderia ser o menor objeto do universo. Eu, esmagado no meu sonho inventado. Porque me dava conta de que, sequer tinha prestado atenção àquilo que "ninguém acreditava" e que, portanto, não saberia repetir. Do fundo do meu sonho, da minha catástrofe, agora completamente acordado, parado, com os olhos nos olhos do garoto, eu entendia que ele entendia que eu precisava ouvir novamente o pedido:
- Moço, é que a minha mãe não pode mais trabalhar e minha irmã está passando fome. O senhor poderia comprar um litro de leite pra eu levar? (ele usou exatamente essas palavras).
Eu não lembro exatamente como tudo andou a partir daí. Lembro que levei pro caixa um pacote inteiro de caixas de leite e que, no meio da minha emoção desastrada no caminho até o caixa, conversei sobre outras coisas com o garoto. Mas não consigo lembrar o quê. Os psicólogos dizem que, nos sonhos, as partes que a gente esquece são as partes em que a gente não se permite vivenciar. Se isso for verdade, eu sei porque: provavelmente, pela vergonha infinita que me tomou naquele momento. Uma caixa de leita era nada. O que quer que eu dissesse, era nada.
Friday, 13 September 2019
Pau-fava
Sabe aquelas conversas que você tem sozinho, com você mesmo, andando pela casa, pela rua? Pois é... a minha teoria é que quando a gente se percebe tendo essas conversas sozinho numa língua estrangeira, isso significa que começamos, de fato, a perder as amarras. Digo isso, pois na França, depois de uns 4 meses comecei a me pegar tendo esses pensamentos, e sempre achava engraçado, dizia: Euler, não é melhor falar sozinho em português, fio?! Largue de ser besta! Somente hoje, depois de três meses aqui, eu me peguei resolvendo problemas em inglês andando pela Universidade. Num ingrês ainda tão sofrido, mas ingrês! Pensei igual: Euler, não é melhor falar sozinho em português? Mas também percebi que minha tecla SAP não funciona mais pro francês. Fui tentar conversar com um francês no restaurante da Universidade outro dia e a coisa embolou toda, jesussss. Eu queria tanto ser Suíço. Nunca me esqueço de uma vez, entrando de carro na Suíça com uns amigos. O policial da fronteira falou com cada um de nós dentro do carro na sua língua de origem: alemão, francês, espanhol e (sim!!!) português. E não foi apenas olá, bom dia, como vai... não! Fiquei besta. Amarelo de inveja. Mas depois pensei: bote esse cabra numa Van indo de Itabaiana pra Aracaju e veja se ele consegue descer no Pau-fava, em Areia Branca. Consegue não, fio.
Thursday, 15 August 2019
Thoughts about Thoughts - Minha santa Guadalupe
Hoje eu fui cortar cabelo de novo. Achei um lugar bom e barato no Student Center East, dentro da própria Universidade. (Student Center é uma espécie de shopping dentro na Universidade e East, pois a Universidade de Illinois em Chicago é dividida em duas partes, uma mais no leste e outra no oeste - eu nunca usei tanto meus conhecimentos de pontos cardeais igual uso aqui! até os laboratórios são divididos em leste e oeste e, detalhe, dentro do mesmo prédio!). Bem, tudo isso pra dizer que minha querida cabeleireira mexicana Guadalupe não está mais aqui. Foi deportada pelo Trump. Aliás, pela conversa da amiga que a substituiu, não ficou claro pra mim se ela realmente já está no México ou se ainda está numa prisão de imigrantes por aqui. Que mundo injusto, meu deus...
Monday, 12 August 2019
Thoughts about thoughts - Túneis
Eu tenho a maior alegria quando o metro (que aqui se chama L) passa por baixo do rio Chicago. É claro que não se vê nada, mas a sensação é fascinante: imaginar um Rio todo sobre você! Desde pequeno, esse negócio de passar por baixo de viadutos e túneis me fascinou. Passar por baixo do viaduto da Av. Desembargador Maynard com a Tancredo Neves em Aracaju era uma alegria quando eu era pequeno. Quando fui morar no Rio, em São Cristóvão, compramos uma geladeira de segunda mão em Botafogo, e a gente contratou um carro pra ir buscar a geladeira. O carro passou pelo túnel Rebouças e eu fiquei besta. Aquilo era que era túnel! Acho que por isso a minha decepção tão grande de passar por baixo do Canal da Mancha, de trem, pelo Eurotunel. Quando saí do outro lado, nem sabia ao certo se já tinha passado ou não: não se vê nada do lado de fora! Uma amiga me perguntou, toda séria, quando a gente se encontrou em Londres: você achava que ia ver peixinhos, é Euler? Eu, hein... deixa a gente se divertir gente! e sofrer também...
Wednesday, 31 July 2019
Thoughts about thoughts - Sobre não saber
Sempre me perguntava por que quando apagava o fogo da panela aparecia muito mais vapor de água ("fumaça") do que quando o fogo estava ligado. Nunca me parecia lógico: mais temperatura, mais vapor tem que sair. Só vim responder essa pergunta estudando termodinâmica e cinética pra dar aula. Aliás, como a gente aprende quando é professor! E como a gente estuda! Muito mais do que quando é aluno. Aqui eu tenho estudado muito. Demais! Estudar parece muito com fazer exercício físico: nunca está bom. Mas, de verdade, eu continuo tão burro, só jesuiiiis. Acho que, no fundo, é por isso que eu continuo...
Thursday, 30 May 2019
Carro do ovo
Eu sei que o mundo dito 'desenvolvido' não leva esse nome à toa. Pro bem e pro mal. E não posso deixar de sentir saudade da espontaneidade e dos prazeres que essa espontaneidade, muitas vezes, nos trás, aos ditos "subdesenvolvidos". Tenho, por exemplo, uma saudade danada de encontrar saroio, malcasado, queijo, tapioca, picolé e ovo na rua. Ter que entrar num prédio pra comprar isso ou ter apenas essa possibilidade em dia de feira na rua, é super chato. Ainda mais porque as feiras de rua daqui são tão organizadas que parecem shoppings. A vivacidade de se ouvir um grito bem alto no pé do ouvido de manhã cedo:
- Dona Maria, a senhora esqueceu a sacola! Ei moço, venha cá, é três por cinco reais!!!!
Nada disso você encontra fácil por aqui.
Outro dia, sonhei que o carro do ovo passava aqui na rua. North State Parkway. Eu, na maior alegria. Mas não deu tempo nem de correr pra pegar a vasilha e o dinheiro: o prédio todo começou a ligar pro 190. Acordei com o barulho da sirene da policia e dos bombeiros riscando na porta do prédio. Não deu nem tempo de matar a saudade da musiquinha. Cercaram o pobre do carro do ovo. Não é fácil não, minha gente. Levantei da cama e fui verificar se era sonho mesmo. Era. Voltei pra cama ainda agoniado com o barulho das sirenes na minha cabeça. (As sirenes nos EUA são mais chatas do que em qualquer outro lugar que já ouvi... parece que você está assistindo a sessão da tarde da Globo). Quando peguei no sono, lá veio o sonho de novo. Mas agora já estava transformado num justiceiro. Do ponto onde parei, as sirenes de novo no pé do ouvido, lá ia eu abrir a janela pra gritar lá de cima pra deixarem o pobre do carro do ovo em paz. Sem saber abrir direito a janela, acordei quando o pedaço da janela veio abaixo e a sindica já estava na minha porta perguntando o que foi. Eita vida...
Monday, 27 May 2019
Supernova
Ontem eu li sobre os avanços da física no entendimento dos buracos negros. Você me deixou um enorme buraco negro no peito. Não o ter do meu lado fisicamente é como se faltasse um pedaço grande de mim. Em não há nada que eu ponha no lugar que possa preencher esse lugar, ou continuar. Tenho a impressão, como você disse, que temos uma história muito longa juntos. Coisa de bilhões de anos-luz. De coisas que não se entende ainda. Muitos físicos serão necessários para explicar como um buraco negro pode se instalar no peito de um ser humano. Por muito tempo. Ou, ao menos, por alguns longos dias, meses de nossa vida. A minha alegria distante é que, talvez, tanta luz tragada por esse vazio vá retroceder para gerar novamente... você. A supernova em minha vida. (tenho contado os dias em anos-luz)
Wednesday, 9 January 2019
Sábado à noite
Contra todas as probabilidades, eu precisava mesmo ter aceitado o convite de um amigo pra sair naquele sábado à noite. E precisava mesmo ter gostado da Anne Karol, e ter tomado, depois de anos, um Mojito tão doce que me deixou quase bêbado. Isso tudo pra ter lembrado imediatamente de você quando nos esbarramos no meio da festa e quase involuntariamente te saudei perguntado por um amigo em comum. Eu poderia ter esquecido de você, esquecido que tínhamos um amigo comum. Poderia não ter bebido, o que me impediria de tomar a iniciativa de falar contigo. Poderia ter detestado o ambiente, a música, e ter ido embora mais cedo da festa, antes de te encontrar. Até a chuva que caia poderia ter me feito preferir ficar em casa vendo um filme sozinho. Mas parece que nada disso é suficiente quando algo tem que acontecer. A grande força que move o mundo; essa coisa misteriosa que pode nos impedir de tomar o avião que, logo após a decolagem, cai sem deixar sobreviventes. E que pode igualmente nos deixar frente a frente com uma vaca que começa a dar à luz a um bezerro que cai no chão e tenta imediatamente se levantar desajeitado. A vida que começa. Páginas e mais páginas em branco a serem preenchidas. Pois foi a custa dessa grande força que não tem um nome que tudo isso aconteceu comigo naquele sábado à noite. Eu que gosto tanto do sábado.
Sunday, 27 May 2018
Memórias sobre o velho e o novo (Parte II)
Mulhouse me fez experimentar várias coisas que eu achava jamais serem possíveis dentro do modus operandi de onde eu tinha saído. Isso, e muito mais, eu devo a essa cidade. E alguém pode me dizer que não foi a cidade que me possibilitou isso, mas o próprio fato de ter morado em um país estrangeiro. Não foi. Mulhouse é uma cidade operária, cheia de imigrantes, excluída de várias formas do que é considerado interessante como cidade na França. Essa exclusão me ajudou a não ser tão sozinho. Havia ainda uma conexão com meu mundo mais real, uma conexão que não havia se perdido no momento mesmo em que comecei a olhar para fora do finger no aeroporto Charles de Gaule em Paris, como comentei no texto anterior. Essa conexão se dava exatamente pela ideia do não pertencimento. Eu não fazia parte de tudo aquilo, assim como vários habitantes daquela cidade. Era isso que nos unia. E é claro que esse entendimento não se deu imediatamente. Foi preciso muito tempo.
A primeira coisa que me disseram é que eu não deveria ir à um lugar chamado Les côteaux. Era um bairro popular de imigrantes árabes e africanos do lado da Universidade Haute-Alsace. Disseram que era violento e que eu deveria tomar cuidado. O supermercado mais próximo ficava exatamente nessa direção e eu não tinha como fugir. Na primeira vez, fui cauteloso, quase medroso. No entanto, o que eu vi era algo muito parecido com o que já conhecia bem. Aquilo me fez, imediatamente, desconfiar do que me diziam. Dias depois, no trabalho, uma querida amiga me perguntou se eu não tinha medo de passar por aquele bairro pra ir fazer compras no supermercado. Eu respondi: Sim, por que eu acho que eles ficam com medo de eu tomar o território deles! Ela nunca mais me perguntou isso.
Mas acho que a maior integração se deu quando eu, descendo a ladeira da Universidade numa tarde, fui parado por um grupo de amigos árabes, todos abraçados, que falavam árabe comigo, pensando que eu também era árabe. Isso começou a se repetir. De início eu respondia, em francês, que não estava entendendo o que eles me diziam. Mas sentia que isso era tomado como uma agressão. Igual quando alguém com sotaque nordestino diz que não gosta de cuscuz de milho. Você desconfia logo que é alguém querendo negar suas raízes, etc. Era isso que eles pensavam de mim: que eu era um árabe querendo ser europeu. Diziam mesmo que eu era marroquino. O clima só melhorava quando, depois de alguns momentos de tensão, eu falava que era brasileiro. Ser brasileiro parecia incluir. Tirava-me do espaço de exclusão que eles também viviam. E aquilo me deixava ainda mais no escuro. Eu não conseguia entender porque era separado deles, se já me sentia tão integrado. Justamente por eles! Ficava tão mal com a situação que um dia, jantando no bandejão da Universidade, criei coragem e falei pra um colega meu o que estava ocorrendo. Ele era árabe da Palestina e fazia mestrado na Universidade. Ele me deu a solução: Euler, quando te cumprimentarem com “Salaam Aleikum”, responda, “Alaikum As-Salaam”, e siga em frente, não pare! Foi o que fiz. Eu só queria me sentir como eles. E assim consegui me misturar todas as vezes que nos encontrávamos em vários lugares da cidade. Às vezes, tentavam alongar a conversa e, nesse momento, eu tinha que revelar a minha real identidade. Voltava a ser dissociado deles e precisava responder coisas que até hoje não sei sobre futebol, mulatas, fio dental, etc.
Eu era tão integrado a eles que, no supermercado, os franceses também me tratavam como árabe. Lembro-me que algumas vezes, comprando embutidos, entradas, etc, as pessoas olham pra mim e diziam: Senhor, isso que está pedindo tem carne de porco! Ou seja, acreditavam que eu era árabe e que não comia porco. Tinham o bom senso de avisar. Mas aquilo era polidez. No fundo, sentia como se a pessoa estivesse chateada de ter que me dizer que aquele artigo possuía carne de porco. Só de raiva, eu respondia: Mas é esse mesmo que eu quero! E ajudava a confundir ainda mais o que já era super misturado na minha cabeça, e na deles.
A primeira coisa que me disseram é que eu não deveria ir à um lugar chamado Les côteaux. Era um bairro popular de imigrantes árabes e africanos do lado da Universidade Haute-Alsace. Disseram que era violento e que eu deveria tomar cuidado. O supermercado mais próximo ficava exatamente nessa direção e eu não tinha como fugir. Na primeira vez, fui cauteloso, quase medroso. No entanto, o que eu vi era algo muito parecido com o que já conhecia bem. Aquilo me fez, imediatamente, desconfiar do que me diziam. Dias depois, no trabalho, uma querida amiga me perguntou se eu não tinha medo de passar por aquele bairro pra ir fazer compras no supermercado. Eu respondi: Sim, por que eu acho que eles ficam com medo de eu tomar o território deles! Ela nunca mais me perguntou isso.
Mas acho que a maior integração se deu quando eu, descendo a ladeira da Universidade numa tarde, fui parado por um grupo de amigos árabes, todos abraçados, que falavam árabe comigo, pensando que eu também era árabe. Isso começou a se repetir. De início eu respondia, em francês, que não estava entendendo o que eles me diziam. Mas sentia que isso era tomado como uma agressão. Igual quando alguém com sotaque nordestino diz que não gosta de cuscuz de milho. Você desconfia logo que é alguém querendo negar suas raízes, etc. Era isso que eles pensavam de mim: que eu era um árabe querendo ser europeu. Diziam mesmo que eu era marroquino. O clima só melhorava quando, depois de alguns momentos de tensão, eu falava que era brasileiro. Ser brasileiro parecia incluir. Tirava-me do espaço de exclusão que eles também viviam. E aquilo me deixava ainda mais no escuro. Eu não conseguia entender porque era separado deles, se já me sentia tão integrado. Justamente por eles! Ficava tão mal com a situação que um dia, jantando no bandejão da Universidade, criei coragem e falei pra um colega meu o que estava ocorrendo. Ele era árabe da Palestina e fazia mestrado na Universidade. Ele me deu a solução: Euler, quando te cumprimentarem com “Salaam Aleikum”, responda, “Alaikum As-Salaam”, e siga em frente, não pare! Foi o que fiz. Eu só queria me sentir como eles. E assim consegui me misturar todas as vezes que nos encontrávamos em vários lugares da cidade. Às vezes, tentavam alongar a conversa e, nesse momento, eu tinha que revelar a minha real identidade. Voltava a ser dissociado deles e precisava responder coisas que até hoje não sei sobre futebol, mulatas, fio dental, etc.
Eu era tão integrado a eles que, no supermercado, os franceses também me tratavam como árabe. Lembro-me que algumas vezes, comprando embutidos, entradas, etc, as pessoas olham pra mim e diziam: Senhor, isso que está pedindo tem carne de porco! Ou seja, acreditavam que eu era árabe e que não comia porco. Tinham o bom senso de avisar. Mas aquilo era polidez. No fundo, sentia como se a pessoa estivesse chateada de ter que me dizer que aquele artigo possuía carne de porco. Só de raiva, eu respondia: Mas é esse mesmo que eu quero! E ajudava a confundir ainda mais o que já era super misturado na minha cabeça, e na deles.
Monday, 8 January 2018
Memórias sobre o velho e o novo (Parte I)
Eu praticamente aprendi a ler em casa. A gente precisava aprender o hino nacional para cantar no desfile de 7 de setembro da cidade, e eu não me contentava em saber só uma parte. Queria saber aquela segunda parte também. Aquela que as pessoas não cantavam (e não sabiam). O jeito era aprender a ler. Então, posso dizer que o que me fez aprender a ler foi cantar até mesmo a segunda parte do hino nacional. Bem, mas o fato é que quando aprendi a ler, e já um pouco mais tarde, gastava tardes inteiras lendo revistas e livros antigos na casa da Prata (Prata é o nome do sítio dos meus pais; o nome vem de um riacho que desce da Serra Comprida e tem o mesmo nome). Minha mãe, para se livrar de vários livros e revistas velhas que entulhavam a casa da cidade, resolveu levar tudo para o sítio.
No meio da pilha de coisas, eu achava de tudo. Desde livros de romance, até livros acadêmicos e revistas. Eu, obviamente, gostava só dos que tinham imagens, fotografias. Várias revistas "Manchete". Uma delas toda misteriosa e inacessível, com fotos do casamento de Lady Di com o príncipe Charles num palácio na Inglaterra. Bem, estou falando de início dos anos 1980. Eu sei que estou velho! Aliás, sempre fui. Bem, mas de toda essa pilha de coisas, o que eu mais gostava era de ler dois livros de geografia, os quais já deixava na posição de pegar na próxima ida ao sítio. Um chamava-se "O velho mundo" e o outro "O novo mundo". Passava horas vendo as imagens e lendo (precariamente) as coisas que me chamavam a atenção de criança curiosa. Lembro perfeitamente da sensação de pertencimento (identificação) às cidades do Novo Mundo. Prédios altos, modernos, quadrados, vidraças planas, espelhos, tudo aquilo era o que a gente gostava (e chamada) de progresso, o que se via na televisão. Entendia (precariamente) que Nova Iorque era a civilização que queríamos (ou teríamos que) alcançar um dia. De outro lado, via o velho mundo como algo realmente velho e ultrapassado. Algo que deveríamos e tenderíamos cada vez mais a nos afastar. Entendia o novo mundo como a superação do velho mundo. E acho que o próprio título dos livros me levava a acreditar nisso.
Quando pisei pela primeira vez no solo da Europa, quase 20 anos depois desses acontecimentos no sítio Prata, senti algo muito estranho: eu não pertencia nem ao novo nem ao velho mundo. Sentia-me um completo anônimo na fila de saída do avião, esperando pela hora de ser controlado pelos policiais de alfândega. Eu também enxergava o mesmo anonimato na cara dos brasileiros chiques que desembarcavam comigo e que tentavam demonstrar, de qualquer forma, uma enorme familiaridade com essa dita "civilização". Ainda do finger do avião, eu olhava para fora e não conseguia identificar nada de familiar. A tinta que pintava o chão do aeroporto era diferente. O assoalho era feito de um material que jamais tinha visto. A roupa dos operadores de solo era nova, colorida. As cores eram vívidas, não parecia haver desbotamento na Europa. Tudo parecia saído da embalagem original ou era recém-pintado. Com uma certa tristeza, eu entendia perfeitamente que eu não pertencia a nada daquilo e, mais claramente ainda, que eu tinha sido excluído da construção de tudo aquilo.
Eu já possuía uma visão mais ampla do que se chamava de "civilização", mas não encontrava necessariamente uma ligação entre a minha vivência de criança e adolescente em Areia Branca e aquilo que me poderia inserir, de fato, nessa verdadeira “civilização”. Lembro-me que cheguei ao alojamento da Universidade e não conhecia ninguém. A minha orientadora de lá tinha me passado um telefone de uma aluna que eu poderia contatar, caso precisasse de algo – segundo o que me foi informado por ela. Liguei para a tal menina no primeiro dia que cheguei, pois queria conversar com alguém e entender mais do funcionamento das coisas naquele país novo pra mim. Não achei que haveria problema, pois ela me tinha sido recomendada e, além disso, no Brasil, adorávamos receber estrangeiros e lhes dar apoio. Mas não foi o que aconteceu. Ao telefone, a menina me perguntou friamente o que eu queria, de fato, com ela. Respondi que queria conversar com ela, "jogar conversa fora". Ela foi enfática e respondeu sem rodeios que se eu tivesse algo realmente importante para conversar com ela que ligasse novamente, mas que não sendo assim, ela estaria disponível para me encontrar somente na segunda-feira. O seu tom de voz era muito mais protocolar do que propriamente de irritação ou má educação, como raivosamente eu tentava acreditar. Não somente com raiva, mas com muita tristeza também, desliguei o telefone plenamente consciente de que não eram somente os objetos físicos e materiais que se distanciavam do que eu era: o próprio pensamento das pessoas era diferente.
Peguei minha mochila e desci atordoado na direção do centro da cidade. Levei minha máquina fotográfica e tirei a minha primeira foto naquela cidade. Algum tempo depois, um amigo brasileiro de longa data que viu essa foto na internet me enviou uma mensagem perguntando se estava tudo bem comigo. Ele tinha me estranhado: achava que algo estava errado comigo, que eu guardava uma tristeza grande no rosto. Ele estava certo. Mas nunca disse isso pra ele, pois no fundo eu próprio não sabia o que se passava comigo naquele momento.
Depois de quase um ano morando fora do Brasil, comecei a perceber que o nosso modo de ser brasileiro parece, de alguma forma, nos impedir de alcançar o que se chama de “civilização”. Para alcançar a dita “civilização” eu teria que, pouco a pouco, distanciar-me do que eu era como brasileiro. Parecia não haver combinação possível entre o “ser brasileiro” e o “ser civilizado”. Nossa espontaneidade tão natural e apego às pessoas, nosso jeito de resolver as coisas, de brigar, de olhar para alguém, de sorrir, essa alegria sem precedentes, tudo isso parecia não valer nada nesse mundo “civilizado”. Ou, pelo menos, não possuir qualquer significado. O mundo que eu acabava de descobrir era tão protocolar quanto foi a menina que me atendeu ao telefone. A mensagem era clara: eu teria definitivamente que me "civilizar".
No meio da pilha de coisas, eu achava de tudo. Desde livros de romance, até livros acadêmicos e revistas. Eu, obviamente, gostava só dos que tinham imagens, fotografias. Várias revistas "Manchete". Uma delas toda misteriosa e inacessível, com fotos do casamento de Lady Di com o príncipe Charles num palácio na Inglaterra. Bem, estou falando de início dos anos 1980. Eu sei que estou velho! Aliás, sempre fui. Bem, mas de toda essa pilha de coisas, o que eu mais gostava era de ler dois livros de geografia, os quais já deixava na posição de pegar na próxima ida ao sítio. Um chamava-se "O velho mundo" e o outro "O novo mundo". Passava horas vendo as imagens e lendo (precariamente) as coisas que me chamavam a atenção de criança curiosa. Lembro perfeitamente da sensação de pertencimento (identificação) às cidades do Novo Mundo. Prédios altos, modernos, quadrados, vidraças planas, espelhos, tudo aquilo era o que a gente gostava (e chamada) de progresso, o que se via na televisão. Entendia (precariamente) que Nova Iorque era a civilização que queríamos (ou teríamos que) alcançar um dia. De outro lado, via o velho mundo como algo realmente velho e ultrapassado. Algo que deveríamos e tenderíamos cada vez mais a nos afastar. Entendia o novo mundo como a superação do velho mundo. E acho que o próprio título dos livros me levava a acreditar nisso.
Quando pisei pela primeira vez no solo da Europa, quase 20 anos depois desses acontecimentos no sítio Prata, senti algo muito estranho: eu não pertencia nem ao novo nem ao velho mundo. Sentia-me um completo anônimo na fila de saída do avião, esperando pela hora de ser controlado pelos policiais de alfândega. Eu também enxergava o mesmo anonimato na cara dos brasileiros chiques que desembarcavam comigo e que tentavam demonstrar, de qualquer forma, uma enorme familiaridade com essa dita "civilização". Ainda do finger do avião, eu olhava para fora e não conseguia identificar nada de familiar. A tinta que pintava o chão do aeroporto era diferente. O assoalho era feito de um material que jamais tinha visto. A roupa dos operadores de solo era nova, colorida. As cores eram vívidas, não parecia haver desbotamento na Europa. Tudo parecia saído da embalagem original ou era recém-pintado. Com uma certa tristeza, eu entendia perfeitamente que eu não pertencia a nada daquilo e, mais claramente ainda, que eu tinha sido excluído da construção de tudo aquilo.
Eu já possuía uma visão mais ampla do que se chamava de "civilização", mas não encontrava necessariamente uma ligação entre a minha vivência de criança e adolescente em Areia Branca e aquilo que me poderia inserir, de fato, nessa verdadeira “civilização”. Lembro-me que cheguei ao alojamento da Universidade e não conhecia ninguém. A minha orientadora de lá tinha me passado um telefone de uma aluna que eu poderia contatar, caso precisasse de algo – segundo o que me foi informado por ela. Liguei para a tal menina no primeiro dia que cheguei, pois queria conversar com alguém e entender mais do funcionamento das coisas naquele país novo pra mim. Não achei que haveria problema, pois ela me tinha sido recomendada e, além disso, no Brasil, adorávamos receber estrangeiros e lhes dar apoio. Mas não foi o que aconteceu. Ao telefone, a menina me perguntou friamente o que eu queria, de fato, com ela. Respondi que queria conversar com ela, "jogar conversa fora". Ela foi enfática e respondeu sem rodeios que se eu tivesse algo realmente importante para conversar com ela que ligasse novamente, mas que não sendo assim, ela estaria disponível para me encontrar somente na segunda-feira. O seu tom de voz era muito mais protocolar do que propriamente de irritação ou má educação, como raivosamente eu tentava acreditar. Não somente com raiva, mas com muita tristeza também, desliguei o telefone plenamente consciente de que não eram somente os objetos físicos e materiais que se distanciavam do que eu era: o próprio pensamento das pessoas era diferente.
Peguei minha mochila e desci atordoado na direção do centro da cidade. Levei minha máquina fotográfica e tirei a minha primeira foto naquela cidade. Algum tempo depois, um amigo brasileiro de longa data que viu essa foto na internet me enviou uma mensagem perguntando se estava tudo bem comigo. Ele tinha me estranhado: achava que algo estava errado comigo, que eu guardava uma tristeza grande no rosto. Ele estava certo. Mas nunca disse isso pra ele, pois no fundo eu próprio não sabia o que se passava comigo naquele momento.
Depois de quase um ano morando fora do Brasil, comecei a perceber que o nosso modo de ser brasileiro parece, de alguma forma, nos impedir de alcançar o que se chama de “civilização”. Para alcançar a dita “civilização” eu teria que, pouco a pouco, distanciar-me do que eu era como brasileiro. Parecia não haver combinação possível entre o “ser brasileiro” e o “ser civilizado”. Nossa espontaneidade tão natural e apego às pessoas, nosso jeito de resolver as coisas, de brigar, de olhar para alguém, de sorrir, essa alegria sem precedentes, tudo isso parecia não valer nada nesse mundo “civilizado”. Ou, pelo menos, não possuir qualquer significado. O mundo que eu acabava de descobrir era tão protocolar quanto foi a menina que me atendeu ao telefone. A mensagem era clara: eu teria definitivamente que me "civilizar".
Friday, 22 September 2017
Quatro semanas em anos
Faz quatro semanas que tudo o que sinto não tem mais um nome.
Na verdade, faz quatro semanas que tudo tem um nome provisório.
Faz quatro semanas que meu nome soa diferente,
que larguei meu corpo antigo no chão,
que deixei de ser professor.
Faz quatro semanas que perdi o medo de precisar de alguém,
que não me importo de andar de bicicleta na chuva,
que voltei a ser o moleque que brincava na rua.
que abri a porta do meu quarto antigo, escuro.
Faz quatro semanas que o mundo voltou a ser mais real e menos virtual,
que sorrio pra ninguém.
Faz quatro semanas que vejo torres Eiffel espalhadas pelo canavial.
Faz quatro semanas que aprendi a andar de moto.
Faz quatro semanas que o aeroporto ganhou importância como um lugar de chegada.
Faz quatro semanas que eu voltei a ser adolescente,
que o meu jardim ganhou flores,
que venho perdendo o medo do que sempre fui.
Faz quatro semanas que já se passaram anos.
Na verdade, faz quatro semanas que tudo tem um nome provisório.
Faz quatro semanas que meu nome soa diferente,
que larguei meu corpo antigo no chão,
que deixei de ser professor.
Faz quatro semanas que perdi o medo de precisar de alguém,
que não me importo de andar de bicicleta na chuva,
que voltei a ser o moleque que brincava na rua.
que abri a porta do meu quarto antigo, escuro.
Faz quatro semanas que o mundo voltou a ser mais real e menos virtual,
que sorrio pra ninguém.
Faz quatro semanas que vejo torres Eiffel espalhadas pelo canavial.
Faz quatro semanas que aprendi a andar de moto.
Faz quatro semanas que o aeroporto ganhou importância como um lugar de chegada.
Faz quatro semanas que eu voltei a ser adolescente,
que o meu jardim ganhou flores,
que venho perdendo o medo do que sempre fui.
Faz quatro semanas que já se passaram anos.
Wednesday, 14 December 2016
Aleppo e a insuportável dureza de ser...
Acabo de ler uma matéria sobre a crise na Síria onde se dizia que as mães começavam a pedir a líderes religiosos que pudessem matar as suas filhas antes que elas fossem estupradas (e, talvez, mortas) pelas milícias que ameaçavam entrar na cidade de Aleppo. Isso me deixou tão chocado. Tão chocado quanto quando li, pela primeira vez, sobre os horrores dos pogroms na Ucrânia do início do século XX, quando hordas de homens militares invadiam as casas dos judeus e estupravam as filhas, depois as mães, na frente dos pais, para depois matarem a todos. A vida, às vezes, é insuportável...
Vendo o vídeo de um rapaz que dizia ser suas últimas horas de vida em Aleppo, pois sabia que iriam invadir a cidade e matar a todos a qualquer instante, e que a ONU não significava nada ali, involuntariamente, me peguei já pensando em que quarto da casa iria abrigar todos eles. Lembrei muito da minha mãe nesse mesmo instante, pois sempre detestei o fato da nossa casa ter sempre gente estranha entrando e saindo todos os dias. Inclusive, morando conosco por tempos longuíssimos. Se alguém ficava doente, se alguém paria, se precisava estudar e morava longe, se alguém se separava, se alguém era expulso de casa, todos iam ser recebidos na nossa casa e conviver com a gente como gente da família. Hoje eu comunguei com ela desse sentimento que provavelmente ela já conhecesse muito melhor de que eu e de várias lutas anteriores... eu que nasci em berço de ouro.
Vendo o vídeo de um rapaz que dizia ser suas últimas horas de vida em Aleppo, pois sabia que iriam invadir a cidade e matar a todos a qualquer instante, e que a ONU não significava nada ali, involuntariamente, me peguei já pensando em que quarto da casa iria abrigar todos eles. Lembrei muito da minha mãe nesse mesmo instante, pois sempre detestei o fato da nossa casa ter sempre gente estranha entrando e saindo todos os dias. Inclusive, morando conosco por tempos longuíssimos. Se alguém ficava doente, se alguém paria, se precisava estudar e morava longe, se alguém se separava, se alguém era expulso de casa, todos iam ser recebidos na nossa casa e conviver com a gente como gente da família. Hoje eu comunguei com ela desse sentimento que provavelmente ela já conhecesse muito melhor de que eu e de várias lutas anteriores... eu que nasci em berço de ouro.
Definitivamente, a vida é insuportável...
Saturday, 27 February 2016
Chuva forte
Hoje de manhã eu estava regando as plantas no jardim de casa quando um passarinho se bateu contra a janela e caiu aos meus pés. Peguei-o na mão e comecei a fazer carinho. De repente, a minha mão se encheu de sangue e ele foi perdendo os movimentos devagarzinho, até que morreu. Então, como sempre acontece nesses momentos, o vento parou, a rua se esvaziou, o céu escureceu, silêncio absoluto... interrompido bruscamente pelo barulho de chuva forte a cair nas folhas, e no meu rosto.
Monday, 12 October 2015
Um Deus assim
Deus, pra mim, começa assim: depois de uma noite inteira dançando com amigos, perambulando pelos bares da Lapa, à procura daquilo que não sabemos o que é (e que, com certeza, não é Deus), resolvemos voltar pra casa. Entramos no táxi que voa pelo Aterro do Flamengo. Nesse momento, você olha pro lado direito e se assusta numa quase alucinação: você vê a lua cheia a se pôr às cinco horas da manhã entre os morros. A confusão alcoólica deixa as suas reflexões mais lentas. Mas é essa lentidão que traz a você o tempo necessário de digerir e aceitar o fato. Nesse momento, você percebe que decifrou o grande mistério: não é alucinação! A lua cheia também se põe! Digo afobado ao taxista pra olhar a lua cheia se pondo. Ele, com desdém e sem sequer olhar pro lado, diz apenas “tá bom”. É exatamente nesse momento que Deus surge. Quantas pessoas, além de você, já se deram conta de que a lua cheia se põe? A quantas o foi permitido? Quantas já viram? Quantas já, de fato, entenderam? As ruas vazias, o silêncio, a meia luz de um dia que ainda não começou... Deus arrumou um jeito de que apenas você visse a lua naquele estado! Claro! Você é o primeiro homem a curar a grande doença, o primeiro a levantar a voz e salvar a humanidade, o primeiro a ressuscitar. O anunciador! Peço ao taxista pra parar na praia mesmo, em frente ao Posto 5. Copacabana ainda dorme naquele domingo madrugada. Ao invés de subir a Sá Ferreira e ir ao meu apartamento, retiro os sapatos e atravesso a pista devagar, não há com o que se preocupar. Piso na areia fofa ainda virgem. Vestido, entro no mar gelado do Rio, sozinho. Somente eu e a lua à minha frente, quase a desaparecer. Naquele momento, outra vez, Deus deixa de existir. Eu sou Deus.
Friday, 2 October 2015
Problemas de migração
Conto nos dedos as vezes que entrei num país estrangeiro sem ter a minha bagagem aberta e revistada pelas autoridades de fronteira. Na maior parte das vezes, após passar pelo raio X, o operador dá um sutil sinal ao seu colega para que verifique melhor as minhas tralhas. Certos de que vão encontrar uma bomba ou muita maconha, ficam sempre desiludidos quando não encontram nada.
Certa vez, entrando na Inglaterra, ainda nas operações de migração do Eurotúnel em Bruxelas, na Bélgica, passei quase 15 minutos tentando explicar o que ia fazer em Londres com a minha irmã e uma amiga. Diga-se de passagens, éramos todos pretos e com cara de árabes. Claramente, achou na minha pronúncia macarrônica para “Heathrow” (nome do aeroporto do qual iríamos partir após alguns dias) a motivação para tentar ganhar terreno e, acho eu, humilhar um pouco os bárbaros que éramos, testar seus limites. Lembro que, no final, pedi desculpas por ter pronunciado errado o nome do aeroporto (o que me enoja até hoje!). Mas ele me disse, ao final, algo que me deu compaixão. Após pedir desculpas pela pronúncia, ele respondeu: "não precisa pedir desculpas: eu mal falo inglês!" Bem... no comments...
Certa vez, entrando na Inglaterra, ainda nas operações de migração do Eurotúnel em Bruxelas, na Bélgica, passei quase 15 minutos tentando explicar o que ia fazer em Londres com a minha irmã e uma amiga. Diga-se de passagens, éramos todos pretos e com cara de árabes. Claramente, achou na minha pronúncia macarrônica para “Heathrow” (nome do aeroporto do qual iríamos partir após alguns dias) a motivação para tentar ganhar terreno e, acho eu, humilhar um pouco os bárbaros que éramos, testar seus limites. Lembro que, no final, pedi desculpas por ter pronunciado errado o nome do aeroporto (o que me enoja até hoje!). Mas ele me disse, ao final, algo que me deu compaixão. Após pedir desculpas pela pronúncia, ele respondeu: "não precisa pedir desculpas: eu mal falo inglês!" Bem... no comments...
Indo, certa vez, pra Kalshure na Alemanha, apanhar um avião que nos levaria a Stockholm, saímos da estacão de trem de Strasbourg e os policiais alemães vieram diretamente onde estavam eu e minha amiga Helena. Pediram imediatamente os nossos passaportes. Com o vagão cheio de gente, eles vieram diretamente para mim e Helena. Tivemos vontade de perguntar por que eles não pediam os passaportes dos demais passageiros, mas talvez perdessemos de vez o nosso final de semana na Suécia. Calamos.
Outra vez, ainda quando morava em Strasbourg, esbarrei, sem querer, com uma senhora branca, indiscutivelmente alsaciana-germânica na rua. Automaticamente, coloquei as minhas mãos no seu ombro, como fazemos aqui no Brasil, e pedi desculpas. Ela, imediatamente, reagiu girando o corpo rapidamente e olhando pra mim diretamente: dá pra pedir desculpas sem pôr as suas mãos em mim? Jamais irei esquecer dessa sensação. Como somos todos tristes, nós, humanos!
Mas a pior de todas as situações, vivi na Argentina, país de que gosto muito! Chegando no aeroporto, com minha mochila nas costas, parecendo um bicho grilo moderno, barba grande e cara de terrorista foragido, o policial de fronteira resolveu abrir a minha mala, como de costume. Não satisfeito com a atitude de retirar bolsa por bolsa, ele resolveu cheirar as minhas roupas ali mesmo, no meio de todos, como se fosse um cão de caça e eu, o procurado. Já tinha vivido muito mais coisas complicadas, das quais não preciso nem contar aqui, mas aquilo me deixou muito mal. Talvez porque não imaginasse que nossos hermanos iriam adotar o mesmo comportamento dos “grandes homens”. Talvez porque o policial era preto como eu. Talvez porque eu tivesse retribuído feliz e interessado o seu bom dia, antes dos raios X...
Outra vez, ainda quando morava em Strasbourg, esbarrei, sem querer, com uma senhora branca, indiscutivelmente alsaciana-germânica na rua. Automaticamente, coloquei as minhas mãos no seu ombro, como fazemos aqui no Brasil, e pedi desculpas. Ela, imediatamente, reagiu girando o corpo rapidamente e olhando pra mim diretamente: dá pra pedir desculpas sem pôr as suas mãos em mim? Jamais irei esquecer dessa sensação. Como somos todos tristes, nós, humanos!
Mas a pior de todas as situações, vivi na Argentina, país de que gosto muito! Chegando no aeroporto, com minha mochila nas costas, parecendo um bicho grilo moderno, barba grande e cara de terrorista foragido, o policial de fronteira resolveu abrir a minha mala, como de costume. Não satisfeito com a atitude de retirar bolsa por bolsa, ele resolveu cheirar as minhas roupas ali mesmo, no meio de todos, como se fosse um cão de caça e eu, o procurado. Já tinha vivido muito mais coisas complicadas, das quais não preciso nem contar aqui, mas aquilo me deixou muito mal. Talvez porque não imaginasse que nossos hermanos iriam adotar o mesmo comportamento dos “grandes homens”. Talvez porque o policial era preto como eu. Talvez porque eu tivesse retribuído feliz e interessado o seu bom dia, antes dos raios X...
Sincericídio
A sinceridade, às vezes, nos é necessária como a água de todo dia. Mas, às vezes, ela é desnecessária e absurdamente prepotente. Eu sempre desconfiei das pessoas que dizem que, pra se viver bem, todos deveriam dizer sempre a verdade. Isso não é verdade. Dizer a verdade sempre, sem qualquer pudor ou restrição, é como voltar a ser o que não somos de verdade: animais irracionais. O ser humano não seria humano se não tivesse a opção de avaliar as consequências daquilo que sai da sua boca. E não estou falando de falsidade, de desvios de conduta, de mau-caratismo. Estou falando aquilo que Cazuza já falava: “mentiras sinceras me interessam”.
Numa das cartas que a Clarice Lispector escreveu para as suas irmãs no início dos anos 40 do século passado, ela abordou, certa vez, esse mesmo sentimento do Cazuza. Ela dizia ter chegado de Paris em Berna, ainda com os caixotes todos fechados com a sua mudança do Brasil e, após a euforia dos últimos dias de festa em Paris, recebeu uma carta do Brasil com algumas críticas sobre o seu último livro publicado pouco antes da partida, "Perto do Coração Selvagem". Críticas duras que enterravam (literalmente) o seu livro, o que a fez chorar no meio dos caixotes como um cão sem dono. Em resposta as suas irmãs, ela escreveu algo como: “eu concordo com tudo que ele diz [o crítico], mas também sei que só fala a verdade pra gente aqueles que não gostam da gente, pois aqueles que gostam tentam sempre nos proteger de alguma forma”.
Até hoje, continuo achando isso significativo para aquilo que eu me tornei. A verdade, a qualquer custo, sempre nos torna prepotentes diante da fragilidade dos homens, arrogantes, e sozinhos num canto escuro. Um amigo meu define isso como "sincericídio", ainda ele próprio sendo um adepto dessa prática.
Falar a "verdade" é o certo!, direis... mas a minha questão ainda não respondida é: pra quê? pra quem?
Numa das cartas que a Clarice Lispector escreveu para as suas irmãs no início dos anos 40 do século passado, ela abordou, certa vez, esse mesmo sentimento do Cazuza. Ela dizia ter chegado de Paris em Berna, ainda com os caixotes todos fechados com a sua mudança do Brasil e, após a euforia dos últimos dias de festa em Paris, recebeu uma carta do Brasil com algumas críticas sobre o seu último livro publicado pouco antes da partida, "Perto do Coração Selvagem". Críticas duras que enterravam (literalmente) o seu livro, o que a fez chorar no meio dos caixotes como um cão sem dono. Em resposta as suas irmãs, ela escreveu algo como: “eu concordo com tudo que ele diz [o crítico], mas também sei que só fala a verdade pra gente aqueles que não gostam da gente, pois aqueles que gostam tentam sempre nos proteger de alguma forma”.
Até hoje, continuo achando isso significativo para aquilo que eu me tornei. A verdade, a qualquer custo, sempre nos torna prepotentes diante da fragilidade dos homens, arrogantes, e sozinhos num canto escuro. Um amigo meu define isso como "sincericídio", ainda ele próprio sendo um adepto dessa prática.
Falar a "verdade" é o certo!, direis... mas a minha questão ainda não respondida é: pra quê? pra quem?
Sunday, 26 July 2015
Anos 80 em Sergipe
Andei de elevador, pela primeira vez, ainda criança, no Edifício Jangada aqui em Aracaju por volta de 1984. Além do frio na barriga, lembro bem do carpete no chão e do cheiro de cigarro dentro do elevador. Aliás, todos os prédios chiques naquela época cheiravam a cigarro. Ser chique era cheirar a cigarro.
Tinha acabado de deixar a minha irmã no aeroporto pra uma viagem ao Rio, e era a primeira vez também que eu via um avião. Chorei demais quando aquele bicho ligou aquelas turbinas. Eu era uma criança que tinha medo de barulho, pode? Pois é. Em Areia Branca, avião só passava no céu bem alto ou naquela televisão de girar os botões e que exibia um arco-íris todo dia de manhã bem cedo ou muito tarde da noite. E que um dia, resolvi quebrar a tela pra ver o que tinha dentro no fundo do quintal, quando ela já tinha sido dada como perdida. Uma explosão que fez a gente correr igual maluco pelo fundo do quintal!
Praia? Só de vez em quando! Oxe, quando se marcava um passeio pra ir pra praia, os moleques da cidade não falavam de outra coisa. Se fretava um ônibus pra cidade toda! Eu mesmo, passava a noite sem dormir de tanta ansiedade pra ver o mar. O povo lá de casa perdia o sossego comigo! E quando chegava na praia, não queria mais ir embora. Mas, na primeira vez que vi o mar, chorei muito.
O bom mesmo era atravessar o Rio Sergipe de tototó ou de barca pra ir pra praia de Atalaia Nova. Naquela época, a Atalaia Nova era um reduto de hippies e de gente das artes e a minha irmã (durante o curso de Educação Física na UFS, acho) morava por lá com uns amigos dividindo uma casa. Era muito bom tomar banho na Atalaia Nova! Era chique demais!
Lembro do chão da Rodoviária Nova brilhando de encerado e limpíssimo, e com aqueles anúncios das partidas dos ônibus, com uma voz que a gente só encontra hoje no Galeão!
Programa de final do ano era ir assistir o filme de “Os trapalhões” no Cine Palace no Calçadão da João Pessoa! O carro chique da época era um Chevette, que meu irmão Vavau dirigia igual um rei! A Turma do Balão Mágico se apresentava no Ginásio Constâncio Vieira! Assim como todos os shows de pessoas importantes da MPB. Lembro de ir de Kombi de Areia Branca até Aracaju ainda pequeno ver o show de Alceu Valença no Constâncio. O caminho todo fui cantando “da manga rosa quero o gosto e o sumo...”. Vi Gilberto Gil também. Como permitiam crianças nesses lugares? Aliás, meu irmão Iéié era uma espécie de DJ na cidade, no início dos anos 80, e eu podia entrar nas discotecas nos finais de semana na cidade. Aliás, todas as crianças podiam!
As festas de São João eram feitas no marcado de carne de Areia Branca e o carnaval, a gente dançava onde hoje é o Banco do Estado, o Banese!
Vi Papai Noel descer de um helicóptero no meio do estádio Batistão! Pode?
Eita, anos oitenta insanos!
Outra coisa que lembro bem foi da primeira vez que se teve uma escada rolante em Aracaju! Vixe, era a sensação do momento, e o povo saia de Areia Branca pra andar de escada rolante em Aracaju na loja Pernambucanas do Calçadão da João Pessoa! A questão era se você sabia mesmo andar de escada rolante! Sem cair ou tropeçar!
Tinha acabado de deixar a minha irmã no aeroporto pra uma viagem ao Rio, e era a primeira vez também que eu via um avião. Chorei demais quando aquele bicho ligou aquelas turbinas. Eu era uma criança que tinha medo de barulho, pode? Pois é. Em Areia Branca, avião só passava no céu bem alto ou naquela televisão de girar os botões e que exibia um arco-íris todo dia de manhã bem cedo ou muito tarde da noite. E que um dia, resolvi quebrar a tela pra ver o que tinha dentro no fundo do quintal, quando ela já tinha sido dada como perdida. Uma explosão que fez a gente correr igual maluco pelo fundo do quintal!
Praia? Só de vez em quando! Oxe, quando se marcava um passeio pra ir pra praia, os moleques da cidade não falavam de outra coisa. Se fretava um ônibus pra cidade toda! Eu mesmo, passava a noite sem dormir de tanta ansiedade pra ver o mar. O povo lá de casa perdia o sossego comigo! E quando chegava na praia, não queria mais ir embora. Mas, na primeira vez que vi o mar, chorei muito.
O bom mesmo era atravessar o Rio Sergipe de tototó ou de barca pra ir pra praia de Atalaia Nova. Naquela época, a Atalaia Nova era um reduto de hippies e de gente das artes e a minha irmã (durante o curso de Educação Física na UFS, acho) morava por lá com uns amigos dividindo uma casa. Era muito bom tomar banho na Atalaia Nova! Era chique demais!
Lembro do chão da Rodoviária Nova brilhando de encerado e limpíssimo, e com aqueles anúncios das partidas dos ônibus, com uma voz que a gente só encontra hoje no Galeão!
Programa de final do ano era ir assistir o filme de “Os trapalhões” no Cine Palace no Calçadão da João Pessoa! O carro chique da época era um Chevette, que meu irmão Vavau dirigia igual um rei! A Turma do Balão Mágico se apresentava no Ginásio Constâncio Vieira! Assim como todos os shows de pessoas importantes da MPB. Lembro de ir de Kombi de Areia Branca até Aracaju ainda pequeno ver o show de Alceu Valença no Constâncio. O caminho todo fui cantando “da manga rosa quero o gosto e o sumo...”. Vi Gilberto Gil também. Como permitiam crianças nesses lugares? Aliás, meu irmão Iéié era uma espécie de DJ na cidade, no início dos anos 80, e eu podia entrar nas discotecas nos finais de semana na cidade. Aliás, todas as crianças podiam!
As festas de São João eram feitas no marcado de carne de Areia Branca e o carnaval, a gente dançava onde hoje é o Banco do Estado, o Banese!
Vi Papai Noel descer de um helicóptero no meio do estádio Batistão! Pode?
Eita, anos oitenta insanos!
Outra coisa que lembro bem foi da primeira vez que se teve uma escada rolante em Aracaju! Vixe, era a sensação do momento, e o povo saia de Areia Branca pra andar de escada rolante em Aracaju na loja Pernambucanas do Calçadão da João Pessoa! A questão era se você sabia mesmo andar de escada rolante! Sem cair ou tropeçar!
Como vocês podem perceber, tudo de novo em Aracaju acontecia no Calçadão! O Calçadão era o shopping de hoje!
Thursday, 30 April 2015
Amar
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
Carlos Drummond de Andrade
Saturday, 27 December 2014
Um filhotinho
Hoje, enquanto almoçava, muito mais preocupado com a comida do
que com o resto do mundo ao redor, comecei a escutar o piar desesperado do papa-capim
que escolheu o bambuzinho enramado na janela da minha cozinha pra fazer seu
ninho. E já pela terceira vez! Achei que fosse algum bicho querendo pegar os
filhotes e abri a porta devagar pra ver. Foi ai que levei um susto! Os três
filhotinhos estavam ensaiando o seu primeiro voo e um deles acabou entrando
desajeitado na cozinha. A mãe, desesperada, voando raso na minha cabeça, ainda
na porta da cozinha. Prometi a ela que iria trazer o seu bichinho são e salvo.
Fui atrás dele na sala e consegui abarca-lo com a mão, depois de muita corrida, puxa móvel aqui, empurra pra lá: estratégias pra não machuca-lo, claro. Tão frágil... A vida batendo forte entre as suas mãos
é algo tão mágico de se sentir! Por que a gente não se dá conta de que temos várias
coisas dentro das nossas mãos todos os dias esperando para serem salvas? Hoje
eu fui o herói mais desajeitado que já existiu. Resolvi deixar o pequeno no chão
do quintal pra que ele se juntasse aos outros dois e a mãe. E assim fiz. Fechei
a porta e voltei a almoçar, mas de olho nos pequenos e na mãe. Emoção imensa. Agora
estou na frente de casa e os escuto piando na mangueira do vizinho. Já não estão mais
no meu quintal. Isso significa que todos conseguiram se salvar e começam hoje a sua vida
mundo afora. Eu... eu permaneço aqui fazendo de conta que a minha vida continua igual. Mas não.
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