Wednesday, 30 April 2008

Areia Branca



Onde eu poderia ir aos Correios regularizar meu CPF (que novamente esqueci de cadastrar ano passado) e encontraria um funcionário capaz de preencher quase todo o meu formulário sem me perguntar nada?
Onde eu sentiria sono já as oito da noite?
Onde eu encontraria uma cidade vizinha como Itabaiana, onde as pessoas parecem milaneses, com um ultra-fashion style, sempre ricos, meio feios, inteligentes, espertinhos, e meio bregas?
Onde se conseguiria ouvir alguém dizer pro outro não “levantar alevo” querendo dizer não “invente coisas”?
Onde você tomaria suco de umbu e comeria cuscuz de milho no café da manhã?
Onde eu poderia sair na cidade e sentir um certo incômodo de estar sendo observado, me sentindo um pouco como uma estrela da novela das oito, andando livremente pelas ruas?
Onde eu me sentiria em forma, vendo todos os meus companheiros de infância se tornarem gordos, cheios de filhos e velhos?
Onde eu poderia sentir um calor infernal pelo dia e a noite sentir frio?
Onde você poderia ir na feira encomendar uma escrivaninha e um baú de jaqueira para decorar o quarto?
Onde eu poderia tomar uma cachaça e comer uma pitanga deliciosa logo em seguida? Ou um caju?
Onde se escutaria a mesma musica tocada toda a tarde de domingo em automóveis equipados como trios elétricos?
Onde eu seria obrigado a escutar a missa da tarde da velha Igreja da cidade deitado numa rede em casa?
Onde alguém não faria idéia do que é Needcompany? Nem Jean-Pierre Léaud? Nem Guinzu ? Nem cammembert ? Muito menos Ramón Salazar?
Onde se poderia colher tomates-cereja em arbustos que nascem sem que ninguém plante?
Onde eu poderia andar de manhã cedo num parque nacional e tomar banho num riacho de água vermelha, linda?
Onde eu poderia andar livremente pelas ruas sem pensar em balas perdidas e meninos maus e assaltos?
Onde eu correria de “mutucas” devoradoras de sangue (espécie de mosca gigante), logo após subir a ladeira que leva ao nosso sitio?
Onde você teria que olhar antes de atravessar a rua por causa de uma mistura geral de carros, pessoas, bicicletas, vacas, cavalos, carroças, etc...?
Onde eu poderia ler até três livros por semana?
Onde se poderia encontrar pessoas tão diferentes de mim?
Onde eu encontraria pessoas tão iguais a mim?
Onde se poderia achar areia branca a dois palmos do chão real da cidade?

Sunday, 20 April 2008

Notre-Dame-des-Fleurs


Poderiam ser 4h57 da manhã. E eu poderia estar acordado desde as 3h00. Então, poderia começar a ler um livro que se chamaria “Nossa Senhora das Flores” do Jean Genet. Então, iria começar a chorar já na segunda pagina. Então, deixaria o livro cair distraidamente embaixo da cama. Então, o sono viria. Então, antes de dormir, pensaria que as respostas são sempre muito simples. E que eu nunca gostei de lavar janelas. Então, sentiria fome. Então, faria um sanduíche com queijo, tomate, azeite e manjericão. E lembraria que a meteorologia anunciava chuva pro domingo. Então, sentiria uma vontade grande de rever alguém. Então, no mesmo instante, o telefone tocaria. Eram 5h11 da manhã. E eu, estranhamente, atenderia. Então, segundos depois, ouviria uma voz típica de quem acabou de acordar. E reconheceria. Então, viria a pergunta sonolenta: posso ir até ai? Então, eu diria: agora? E ouviria: sim. Então, responderia: sim. Então, o interfone tocaria. Então, a porta se abriria. Então, o dia amanhecia.

Thursday, 10 April 2008

In bed



Everything was all rigth when I woke up this morning. She was there, close to me, in bed. I felt her warm body. And right here in this strange hall without life, right now, I can feel her body. There isn’t light in here. My house has changed into a desert. I am going around her portrait and little by little I remember the first phrase that I eveasdropped right after I woke up. “… and transform the troubles into good feelings”. The TV was turned on and probably that phrase came from it. I never watch TV but I was really tired out to turn it off. She left me this morning saying to me: everything is gonna be alright. And I still don’t know what it means. While I was opening the door for her I managed to ask her if she would retourn before diner. I was scared and cold. She said to me: what time is it? And I answered: never mind. All the time in our relatioship I knew that something still remaind unsaid. Until now.

to Mr. Jonas

Thursday, 3 April 2008

Moi qui n'a pas connu les hommes



Mas e o que fica entre as linhas? E o que a poeira esconde? Desmagnetiza. Tudo danificado. Eu já fui capaz de passar quase a semana inteira lendo um livro, sem fazer mais nada, além das necessidades básicas. Esse ultimo fim de semana foi assim. Comi, li, tomei banho, li, comi, li, dormi, li... tinha perdido o gosto disso. Eu vou ser um pai bem carrasco: eu não vou deixar meu filho assistir TV. Sim... deixo ele ver algumas coisas... mentira! Claro que meu filho vai poder fazer tudo que ele achar bom pra ele. Vou explicar as minhas razões pras coisas que creio boas e ruins, mas isso não significa que ele não possa ir por outro lado. Na verdade eu vou chorar de alegria se ele discordar de mim. É por isso que acho que ainda não posso ser pai. Que espécie de pai seria esse? Mas, como diz minha mãe: espere nascer e depois comece a falar besteiras! rsss... ela deve ter razão, teve cinco! Ok, filho meu...
É que sonhei ontem que tinha um filho. Na verdade, que a minha namorada tinha um filho. Que namorada? Talvez porque uma amiga passou a tarde interira em Ipanema falando comigo sobre ter um filho e uma família. Aquilo me assustou tanto: logo ela! Pois é... socorro! Próxima semana eu vou ter uma linda criança chorando do lado. O que? Não! Claro que não. Sim. Sei lá. E se ele lesse tudo isso que escrevi aqui? Claro que meu filho vai ser suficientemente inteligente pra saber quem era o pai dele, só pela leitura. Ah bom, um maluco qualquer que só não foi parar numa comunidade hippie radical porque não nasceu na década de sessenta e, muito menos, tinha coragem suficiente pra abandonar as coisas. Eu nasci mesmo foi em 1978. E cresci na década de oitenta... éca!!! Alguém poderia ter algum sentido crescendo naquela década? Eu não tenho. Outro dia fui numa festa onde eles tocavam musicas daquela época: balão mágico, musicas da Shira (é assim que escreve?)... bem, no meio da festa parei num canto e fiquei observando surpreso. Eu era fruto daquilo. Mas não preciso chorar por isso. Também tiveram algumas vantagens em nascer na década de oitenta. Por exemplo, ter nascido numa cidade do fim do mundo: Areia Branca. Lá, as coisas ainda eram misturadas. Lembro dos bailes de carnaval com serpentina e pó de arroz (existia uma linha incrivelmente reta entre a parte que só soltava serpentina e a parte que soltava pó de arroz e eu, claro, ficava no meio, pulando de um lado pra outro) no prédio que hoje é o Banco do Estado, o Banese. Coisas de Areia Branca. E meu irmão mais velho ganhava dinheiro sendo DJ numa discoteca da moda lá em Areia Branca. Sim, claro que existia discoteca em Areia Branca! E eu tinha um irmão DJ. Nem existia essa palavra! Mas ele era! E eu podia entrar em todas as festas sem que ninguém pedisse minha carteira de identidade: eu devia ter 8 anos. Lindo! Quem disse que Areia Branca é provinciana? Isso é a arqueologia da minha mente, aquela que eu queria registrar pra sempre num papel... desculpem-me, num arquivo “.doc” da Microsoft, mesmo eu que não conheci direito os homens.