Sunday, 28 December 2008

Bern – uma cidade sitiada?


Era impossível não pensar em Clarice Lispector estando naquela cidade. Lembrava de cada detalhe dos textos que ela havia escrito sobre suas impressões de Bern, durante o período em que ela morou por lá. Após voltar pro Brasil, e já bem depois de ter separado do seu marido diplomata, ela foi cronista do Jornal do Brasil, com uma coluna semanal. Vez ou outra ela publicava algum texto com essas impressões sobre Bern. Também nas cartas que ela trocou com o Fernando Sabino (e que foram publicadas recentemente). Ela falava das fontes de água gelada a cada canto nas ruas, das ruas vazias, das construções medievais, da impressão que ela tinha de vagar sozinha durante a idade média. Do tédio que ela sentia estando ali, da sua angustia em falar numa mistura de francês e alemão, das suas idas diárias ao cinema... foi também por lá onde ela escreveu um dos seus livros mais odiados: "A cidade sitiada". Bem, devo confessar que me comovi muito desde quando cheguei naquela cidade. E não esperava nada disso. Ao contrário. Talvez porque eu tivesse feito na minha cabeça um retrato tão absurdo de Bern quanto aquele que aprendi da Clarice. Não esperava encontrar naquela cidade nada do que vi.

Ainda no trem, comecei a me apavorar com a quantidade de neve que se acumulava pelo chão e no telhado das casas. Desci do trem e a temperatura era incrivelmente suíça, -4°C. Sete horas da noite e eu tinha apenas um papel na mão onde desenhei o caminho pra chegar no meu hotel. Comprei um mapa na estação e nem me dei conta que as explicações estavam em alemão. Efeitos de Bern. Respirei fundo e sai andando rápido, procurando o caminho do hotel. Talvez essa seja a coisa interessante de uma viagem sem programações: não saber exatamente nada sobre pra onde ir. Uma liberdade que a minha cabeça de virginiano precisa de vez em quando. Chegando na primeira praça da cidade, o mercado de natal estava fechado, ninguém nas ruas pra me informar sobre a direção correta, andei mais um pouco e descobri um vale imenso na escuridão. Na minha cabeça não existia ladeiras em Bern. A cidade era plana. Mas na verdade, ela foi construída na península de um rio, então a cidade fica no alto de uma colina, e todas as ruas vão descendo na direção do rio. Estratégia de guerra. Ruas imensas, retas, paralelas entre si, sem uma única rua que faça um cruzamento entre elas. Apenas pequenas passagens no estilo mais medieval que se pode imaginar, ligam essas ruas paralelas. Apertadas, com o teto baixo e redondo, completamente tortas. Vazias. Tudo vazio. Impossível saber onde encontrar uma passagem dessas apenas olhando no mapa. Elas não estão no mapa. De longe, e de vez em quando, uma voz perdida ecoando longe em suíço-alemão. Outra estranheza daquela cidade. Você é capaz de andar quilômetros pela mesma rua, embaixo de umas galerias, sem nunca precisar ir pro meio da rua, o que nos economiza do frio e do vento terrível do lado de fora. Acho que foram construídas pra isso mesmo.

Na primeira noite, resolvi que deveria ir ao cinema, em homenagem a Clarice. E fui. Um cinema no final da rua que ela morou, a Gerechtigkeitsgasse. Assisti ao filme Gomorra, sobre a crueldade dos mafiosos italianos. E não sei porque escolhi aquele filme: acabei ficando ainda mais assustado naquela cidade. Na frente de cada prédio, quase todos iguais, uma porta meio inclinada no chão te faz imaginar que aquilo é um porão infernal, de onde a qualquer momento algum anti-herói medieval vai sair, te apanhar e te levar lá pra dentro, sem que ninguém nunca mais saiba onde você foi parar. Um medo terrível. No dia seguinte, descobri que a melhor festa de Bern era exatamente num desses buracos no chão. Ah, os suíços! Ao contrário dos franceses, eles são muito mais abertos ao que é novo. A pessoas diferentes deles. Sempre super educados e atenciosos, eles até se arriscam a sorrir pra quem eles não conhecem. As mulheres suíças são super elegantes, e estão sempre fugindo pra não sei onde. Os homens são lindos, com cara de que acabaram de sair de anúncios de perfumes caros. Os suíços são todos elegantes, mesmo quando não se esforçam pra isso. E acho que raramente eles o fazem. Já antes de pegar o trem pra seguir minha viagem, encontrei um homem bêbado na rua, e até ele era super chique. A pobreza é uma coisa que não existe naquele país, e eu fiquei me perguntando se aquele não era um dos poucos mendigos suíços, todo bem vestido, com um relógio (suíço?) cintilando no pulso, etc. Aproveitei pra perguntar a direção da estação de trem, apesar de já saber de có, mas também como forma de testar uma coisa que sempre me intrigou na suíça: até os mendigos falam inglês! Impressionante. E muito melhor do que eu. Mesmo quando ainda não bebi.

Saturday, 27 December 2008

Bern-Spiez-Interlaken-Luzern


Eu sou apaixonado pela Suíça. A minha mãe sempre foi apaixonada pela Suíça. Apesar de nunca ter pisado os pés por lá. Mas na verdade, meu amor por aquele país sempre foi algo meio mal resolvido dentro de mim (aliais, como todos os meus amores mais intensos). Digo isso porque, apesar de ter me apaixonado já na primeira vez que estive por lá, o preço das coisas no Zermat me fez achar que tudo naquele país era movido pelas lindas cédulas de franco-suiças – que, aliais, são mesmo super lindas! Voltando ao assunto, claro que sempre fiquei com o pé atrás com os suíços. Dizem que grande parte da riqueza daquele país foi conseguida por meios não tão dignos, durante a segunda guerra: as fortunas das famílias judias, ouro, peças de valor, etc, arrancadas pelo nazismo eram colocadas naquele país. Aliais, várias famílias judias lutam até hoje pra recuperar vários objetos de família ainda guardados por lá. Outro dia no jornal li sobre a devolução de um quadro de um pintor famoso à uma dessas famílias. O pais da neutralidade. Vocês sabiam que quando Roma foi tomada no século XII, o papado foi transferido para o sul da França, a cidade de Avignon, e o exército suíço era quem tomada conta do clero safadinho. Aliais, vocês precisam ver o uniforme do exército daquela época! Eles deviam matar os adversários de rir. O que já era ótimo pra um país sabidinho como aquele.

Essa semana, resolvi que deveria pegar o trem e sair sem rumo pela Suíça. Bem, a primeira cidade seria Basel, e de lá eu resolveria mais ou menos pra onde iria. E fui. Um casaco grosso, luvas, duas calças, e a mochila com mais e mais casacos, pro caso do frio apertar muito. O roteiro ficou sendo então Basel-Bern-Spiez-Interlaken-Luzern-Basel. E foi maravilhoso! Preciso fazer isso de novo! Urgentemente!

Tuesday, 23 December 2008

Manifesto IV



A todos aqueles que nunca assistiriam a um streap tease, aos que nunca dançariam no banheiro, aos romenos da minha vida, à música dos Bálcãs (que são tão deles), aos que estão na praia nesse momento, aos que ficam vermelhos no frio, ao Mr Gabin, aos que não tem vergonha, aos negros ricos africanos do Senegal, aos que seguram uma câmera na mão, ao quarto sozinho de Isabella, a todas as viagens perdidas via Ryanair, aos punks do Molodoï, àqueles que aterrissam em Beirut nesse instante, aos meus verdadeiros medos, aos seus verdadeiros medos, aos pães de queijo mais insossos, à todos os que disseram não, aos imbecis, aos natais siberianos de Mr Pavel, ao sangue não derramado, à todos aqueles que já me ajudaram a tirar a roupa, aos que nunca tiveram coragem, aos que não precisam nunca tomar banho, aos democratas, tecnocratas, àqueles que detestam o natal.

Pour tous ceux qui n'ont jamais vu un streap tease, qui n'ont jamais dansé dans la salle de bain, aux Roumains de ma vie, à la musique des Balkans (qui l'appartient bêtement), ceux qui sont sur la plage à ce moment-là, ceux qui deviennent tout rouge au froid, à M. Gabin, à qui n'a pas de honte, aux noirs riches du Sénégal, aux qui portent une camera à la main, à la chambre tout seul d'Isabella, aux billets perdus chez Ryanair, aux punks du Molodoï, ceux qui débarquent à Beyrouth maintenant, à mes vrais peurs, à vous vrais peurs, aux pain aux fromages plus fades, à tous ceux qui ont dit non, aux imbéciles, aux Nöel sibériens de M. Pavel, à le sang versé, à tous ceux qui m'ont déjà aidé à enlever mes vêtements, aux qui n'ont jamais eu le courage, aux qui n'ont jamais pris un bain, aux démocrates, aux technocrates, à ceux qui haïssent Nöel.

http://www.youtube.com/watch?v=SWSz_PAfgNc 

Saturday, 6 December 2008

Manifesto III



Vi um rapaz que deveria ser o David Beckingham no metrô. Comecei a olhar pra camisa dele e tinha escrito em letras enormes: Red skins. Infelizmente e instantaneamente, lembrei do trocadilho possível (Skin heards). Depois do período de recuperar o fôlego, comecei a odiar o pobre rapaz. Eu nunca usaria aquela camisa.
E se eu tivesse nascido em Itabaiana, levaria ele preso. Ponto.

Friday, 5 December 2008

Manifesto II



Eu nunca soube ouvir música. Ainda pequeno, lembro que adorava ir pro sitio, somente pra ficar dentro do caminhão escutando músicas de boiadeiro - e olhe que eu não falo de Leandro e Leonardo etc... Passava horas sozinho dentro do carro escutando. E logo depois, no início da adolescência, eu adorava escutar o que a minha irmã ouvia no quarto dela. Mas em segredo. Sempre que ela me perguntava sobre, eu dizia: coisa mais besta essa de "...lava roupa todo dia, que agonia..." (esse argumento foi copiado, obviamente, da minha prima Gil, que sempre vivia perguntando a minha irmã como alguém poderia gostar de uma música que fala sobre "lavar roupa todo dia"! Depois, não sei porque razão, apaixonei-me pela Marisa Monte. Um nojo. Como pouca gente gostava dela na época, eu estava em vantagem: era o diferente. Eu sempre gostei de ser diferente. Então, não falava de outra coisa. Não escutava mais nada que não tivesse relação com a dita cuja. Se ela espirrasse, eu achava lindo. Não sei como ainda podia ter amigos naquela época. Depois ela começou a ser a rainha de todo mundo, e eu perdi a paixão. Ainda no fogo da Marisa Monte, veio também o Caetano. A Marisa tinha gravado uma música dele no vídeo do seu segundo disco (Mais), e eu fiquei apaixonado quando a vi cantar daquela forma. A música era "Qualquer coisa". Sabia pouco sobre o Caetano e comecei a procurar coisas dele. Achava que aquele era o cara. Falar sobre um "bezerro gritando mamãe" e aquilo parecia a ponte entre a música dos peões de boiadeiro e a própria figura da Marisa. Talvez. Naquela época eu nem pensava sobre isso. O primeiro disco que comprei dele foi o Circuladô de Fulô. E no mesmo pacote veio o "The imaculate collection" da Madona. O que faz todo sentido, obviamente. Hahahahaha! E como a Madona faz show no Rio esses dias, acho relevante citar. Enquanto isso, na varanda, todas as noites, meu pai dedilhava umas canções tristes no violão (digo tristes porque na época o violão era a coisa mais triste do mundo pra mim. E até hoje eu não fico confortável com ele, mesmo quando tentei aprender alguma coisa). Eu ouvia meu pai impacientemente. Sempre fui uma bosta em música! Pra mim, o que começou a me interessar foi o Caetano, e pronto. Lembro que um dia ouvi na Liberdade FM (a Rádio odiada e amada por mim, sem Sergipe) uma música dele, soube ao final da música pelo locutor que a música se chamava "Vaca profana". A música, era a confusão da minha mente naquela época, entrando na Escola Técnica, alcançando a liberdade de sair do Graccho, de poder falar com pessoas como eu, de me apaixonar pela primeira vez (e a segunda vez!), de aprender a dirigir, de começar a pintar borrões imbecis, de achar que eu era o máximo (idiota completo), de sentir que a gente pode tudo. Na verdade, a gente não pode nada. Mas deixe isso pra lá. A adolescência sempre me pareceu ingênua. E era. Eu sempre quis mais. Comecei a ter muitas perguntas e poucas respostas. E invejava quem tinha essas respostas, ou quem não tinha nem mesmo perguntas.  . apesar disso, eu vivia. Bem, depois de alguns anos, comecei a achar o Caetano ingênuo demais. Era como me dizia uma vez uma amiga: a gente já é tão diferente de todo mundo, pra quê querer ser ainda mais? O Caetano é isso. Ele é demais. E eu ainda me emociono muito quando escuto "Cajuína" (cantada pela Elba Ramalho) ou "Ele me deu um beijo na boca" (cantada por ele próprio) ou "Tigresa" (pela Maria Bethânia, claro).
Eu nunca escrevi um texto como eu queria. Tão simples.