Monday, 16 July 2012

Filosofia II



Tenho um amigo que me disse que quando era pequeno, parava na mesa durante o almoço, olhava pra todos sentados e dizia enfático: podem falar a verdade, isso tudo aqui não existe, né? Isso tudo aqui é de mentira, né?. Essa historia do meu amigo nunca me saiu da cabeça por que eu também já me parei varias vezes antes de dormir tentando refazer a historia do meu dia como alguém que não conhecesse o que se chama de verdade. O que é a sua verdade? Com certeza ela não é igual a minha! Talvez pelo fato de desde pequeno eu ter aprendido duramente que sou daltônico me fez sempre pensar em tudo o que todos dizem que é “o certo”. Quando levei aquele caderno de exercícios (Trabalhando com Mapas) pra professora Inara e ela me disse assustada “mas por que você pintou o oceano de roxo?”, eu nunca mais fui o mesmo. Decididamente, a minha verdade não é a sua verdade. E hoje, ouvindo uns amigos falarem de filosofia, e da historia do pensamento humano, me pego cada vez mais abestado. Dizem que a pior herança que a humanidade teve foi o pensamento moderno. O pensamento pós-socrático-platônico. Antes de Platão e Sócrates, a vida era uma mutação constante, um mistério, longe da ciência, onde as coisas nunca eram explicadas de maneira definitiva. Não existia a verdade. As coisas e pessoas se transformam. O corpo em si é muito mais importante que o pensamento que define. Por isso a mitologia grega, cheia de estórias tortuosas pra explicar a vida. O tempo que nunca teve nem fim nem começo. E a gente no meio disso tudo todo dia se modificando, e sem qualquer verdade que possa nos guiar. Platão e Sócrates estabelecem no século V antes de cristo o pensamento moderno, o pensamento de busca da verdade. A base do pensamento começa a se fundamentar em frases construídas com sujeito/verbo/predicado. Ou seja, um sujeito que faz uma ação e causa alguma coisa. E se alguma coisa dá errado, existe hoje sempre um sujeito que praticou essa ação nefasta! É a ideia do pensamento e do homem como centro de tudo. A verdade é sempre presente. E, por mais que isso seja imperceptível, hoje quando dizemos “eu sou um nordestino”, estabelece-se imediatamente a minha verdade que é compartilhada com quem me escuta. Eu sou nordestino. Essa é a verdade. O verbo ser como o imperador da verdade ocidental. O que não existe em várias línguas orientais, como o mandarim. O verbo ser no mandarim não existe. O que existe de mais próximo é o verbo da transformação. Em mandarim não se diz “eu sou bom”, se diz “eu me transformo em bom”. O que é muito mais próximo do pensamento pré-socrático-platônico. E nos que falamos o português, ainda estamos numa vantagem em comparação a varias outras línguas ocidentais. O fato de podermos distinguir entre o ‘ser’ e o ‘estar’ ainda te dá a possibilidade de partilhar dessa estrutura de pensamento original.

Saturday, 7 July 2012

Filosofia I



Ultimamente eu tenho escutado muitos amigos falando de filosofia. Eu sou completamente ignorante em filosofia. Lembro de ir à Biblioteca da UFS tomar emprestado o “Além do bem e do mal” do Nietzsche somente por curiosidade, na época da graduação. No fundo, abandonava a leitura logo depois da primeira frase. No entanto, hoje eu consigo compreender certas coisas somente porque alguns amigos (eruditos!) me explicam tudo. E é engraçado que o mundo seja mesmo essa mudança de valores constante. Ora, eu hoje poderia sentir prazer em ler “Além do bem e do mal”! Estou falando isso tudo porque estava estudando o francês antigo essa semana e descobri que na França antiga existiam duas regiões separadas pela língua. A região da língua d’hoc e a região da língua d’oil. A língua d’hoc era fundamentada no latim, pela influência do império romano na borda do mediterrâneo. No latim antigo não existe a palavra ‘sim’, se perguntamos: você gosta de doce? A resposta é: ‘eu gosto’ ou ‘eu não gosto’. Isso é a base do dialeto que ainda existe hoje no sul da França chamada de occitane, na região de Provence. Então, o ad hoc é um ‘estar de acordo’ com o que foi dito anteriormente. Já no norte da França antiga, o ‘sim’ existia. E se perguntássemos: ele gosta de doce? A resposta seria: do il. Sim, ele gosta. Como o que existe até hoje nas línguas anglo-saxãs, mais precisamente na língua inglesa onde se diz: Yes, I do. No francês do norte, com a pronuncia marcada, o do il se transformou em d’oil (de óleo) que mais tarde acaba se transformando no que hoje, enfim, aprendemos no francês moderno: d’oui. A língua do oui (a língua do ‘sim’).