Wednesday, 24 June 2009

Como e quando


Como o soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria. Ou como o vendedor gaiato da esquina que grita alto que prefere o de 2 giga, mas ri do estudante com cara de CDF que passa ao lado. Ou como um colega de trabalho brasileiro que critica a aceitação de estrangeiros em cursos de mestrado durante uma reunião, tendo esquecido que ele próprio fez mestrado nos EUA. Ou como quando usamos duas bolsas plásticas pra carregar as compras do supermercado e ficamos horrorizados com as noticias sobre poluição na TV. Ou como quando usamos o cinto de segurança no carro e andamos em pé nos ônibus da cidade.

Wednesday, 10 June 2009

Como esvaziar um apartamento



Meu apartamento esta quase vazio. Só a desorganização de uma mala e a desolação das coisas sem dono. Quando eu falo, minha voz ecoa milhões de vezes antes de se perder inteiramente. Estou no telefone. Porque é quando eu mais preciso dos outros. Mesmo que seja uma hora da madrugada.
Decididamente, partir é sempre morrer um pouco.

Wednesday, 3 June 2009

Atlântico




Eu sempre tive medo do oceano Pacifico. Esse nome, apesar de sugerir outra coisa, me dava muito medo desde a época do colégio. Uma vez, na quinta série, depois de pintar o meu “Trabalhando com mapas” e levá-lo pra professora Inara corrigir (aliás, tenho que escrever um dia sobre essa professora que me ensinou tudo sobre o mundo dentro de um Geoatlas), ela me falou assustada: mas por que você pintou o oceano de lilás? Eu gaguejei e respondi: porque não tinha o lápis azul! Sempre fui pouco inteligente pra me sair das situações mais confusas... não de todas, claro. Mas acho que ela acreditou. O fato é que o pacifico era o oceano mais extenso, cheio de historias estranhas, nunca visto, meio “hollywoodianizado” de sessão da tarde adolescente, e eu sempre tive medo dele.
Ao contrário, adorava o Atlântico. Com esse nome que envolve tudo ao redor. Eu sempre me banhei nele. Eu lembro da primeira vez que o vi e que ele me viu. Eu era pequeno, estava com minha segunda mãe na infância, Tutu, e não parei de chorar um só instante com o barulho que ele fazia. Eu não esperava isso de um mar. Lembro mesmo da viagem e da preparação toda para aquela viagem... mera ilusão. Preferia tomar banho na maré do Bugiu! Sério, Aracajuanos! Meus pais tinham uma casa de COHAB lá, quando o bairro foi construído. Era chique ir pro Bugiu tomar banho de maré! Eu adorava!
Não lembro bem quanto voltei a gostar do mar. É engraçado! Eu sempre lembro quando não gosto de uma coisa, e sempre tenho dificuldades com as lembranças que me alegram. Alma infeliz, essa! Puta que pariu!
Dia 13 de junho próximo, quando volto pro Brasil, será a oitava vez que eu atravesso o Atlântico num avião. No início, tudo era alegria, novidade. Mas janeiro passado, precisei ir pro Brasil fazer o concurso pra professor na UFS e o Atlântico começou a me meter medo também. Depois de sair de Paris, uma turbulência daquelas que ninguém fala, porque nunca passou, pegou o nosso vôo da TAM (logo ela!) e eu fiquei em estado de choque. Ao contrário do que eu pensava, o silêncio no avião era aterrador. Só as crianças choravam. E eu quis tanto chorar, mas não pude. Quando cheguei no aeroporto de Aracaju, a Joyce me esperava com o Vavau e foi tão bom vê-los assim, daquele jeito. Apesar de eu ter contado aflito dos meus quarenta minutos de angustia, eles nunca saberiam do que eu estava falando.
Hoje eu cheguei em casa, depois de atravessar parte do mar Báltico de avião e vejo essa noticia sobre o avião da Air France sobre o Atlântico. Exatamente na região que eu tenho mais aflição: o meio do oceano, longe de qualquer grito de “terra à vista!”. Como num descobrimento ao contrário, que nunca foi consumado.