Eu acordei hoje pensando num post que a minha irmã me marcou, no perfil da Jaciara Macumbeira. É que ela dizia que eu precisava de um batuque! Pois é, e eu cheguei a conclusão que eu não preciso somente de um batuque: eu preciso é de um despacho todo feito (a meu favor, claro!). Um trabalho daqueles que não deixa opção. E colocado geometricamente numa encruzilhada de verdade. Eu preciso me rezar contra olhado também! Se Seu Messias (que deus o tenha) me rezasse, como rezava o pessoal lá de casa, aquele ramo de pião roxo não ia só murchar, ia secar e talvez pegar fogo na mão dele! O negocio anda brabo demais. Mas assim, não pense que eu sou chegado a esse tipo de coisa não, certo? Eu até tenho medo! Na verdade, quando eu era pequeno, fui pra um batuque no dia de Cosme e Damião na casa de seu Aciole. Eles iam distribuir caruru de graça, e essa era a única coisa que me interessava. Alias, quando eu era pequeno adorava Cosme e Damião: era tanta bala que a ganhava na rua! Mas eu nunca me matava no bolo pra pegar nada. Nunca fui me estapear pra pegar alguma coisa. Usava estratégias: na hora que a primeira mãozada de balas caia no chão da rua e que a reca toda ia se matar pra pegar, eu esperava a segunda mãozada, a dos espertos! E ainda, o mercadinho mais chique da cidade (e o único) tinha o nome de Cosme e Damião! E ai era que não faltava bala mesmo! Então, voltando ao assunto: nunca tinha ido num terreiro de macumba antes, aquela era a primeira vez. O terreiro de seu Aciole. Aliás, todo sábado de noite quando eu ia no banheiro do corredor, no silencio da noite, escutava aquele batuque estranho, misterioso. Até que um dia alguém me disse que era macumba lá no Pau Fava (bairro da cidade). No terreiro de Aciole. Pois não é que achei de acompanhar a minha mãe e uma prima minha, a Gil, nesse terreiro! Começaram a servir o caruru e eu já me decepcionei: não gosto de caruru babado! Cheio daquela gosma viscosa! Tinha um menino do meu lado que comia com a mão, e cada vez que colocava a mão no caruru, a baba vinha subindo até a boca, Jesus. Desisti de comer o caruru. Na verdade, desisti porque comecei a observar mais a dança das mulheres vestidas de baianas e dos homens. O som ficava cada vez mais forte e claro que alguma coisa ia acontecer. Pois e não é que aconteceu mesmo antes de eu ir embora dali? Dona Bai, uma cabocla fortona, caiu no chão e ficou se debatendo e aboiando igual vaqueiro! Sim, e a voz dela era de homem! Sem contar nas contrações involuntárias dos músculos da face e do corpo! Era tava possuída! E eu, cada hora segurava mais firme na cancela onde eu tinha subido. O meu único pensamento durante todo aquele tempo era: e se esse caboclo errar de corpo e entrar no meu? Ai ai ai... tipo, isso não é justo: eu sou ainda uma criança! Mas e se tiver caboclo criança? Meu coração só parou de bater quando eu fui embora daquele lugar. E nem bala teve, e nem caruru! E parece que depois de tanto tempo, o caboclo errou de corpo e parece que ta tentando me possuir. Sai fora, tranca rua! Tranca corpo! Sai fora, exu bagaceira! Tô fora! Pode deixar que Jaciara vai me ajudar!
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