Wednesday, 28 November 2012

O incomodo de um museu


Eu não gosto de ir a museus. Primeiro porque fico constrangido de exercer a minha impaciência habitual de ver somente aquilo que me interessa e ir embora deixando pra trás várias galerias sem serem visitadas. Segundo porque eu fico puto com o pessoal que pára na frente das obras e fica olhando, ou lendo, sem ter noção de que outras pessoas estão querendo fazer o mesmo. Eu só vou visitar um museu tranquilamente quando eu tiver dinheiro pra fechá-lo exclusivamente para a minha visita, igual esses artistas de Hollywood fazem! Tá pensando que a pessoa aqui é moleza, é? Talvez por isso é que o meu museu preferido até hoje é o Musée d’Orsay. Então, estou falando isso tudo porque aqui em Nova Iorque, esse meu constrangimento chegou ao ponto de me gerar um conflito interno difícil de gerir. A pergunta simples era: como você vai ao Metropolitan Museum e vê somente a ala do Egito antigo, deixando pra trás o império Grego, Romano, a idade média e a exposição do Wahol? Ou, como você vai ao American Museum of Natural History e vê apenas os dinossauros, deixando pra trás todo o resto? Tipo: você sabia que um monte de gente tem fome e você tá jogando o seu resto fora? (aliás, fazendo um parêntese, conheço algumas pessoas que sempre deixam 1/4 da comida que colocam no prato completamente intocada. Eu fico indignado com isso! Além de várias outras coisas mais pesadas, ainda tem aquela atitude de: sim, eu paguei e faço dela o que bem entender!). Então? como justificar pra mim, myself, fazer exatamente igual? Isso ficou tão sério que depois de ver a ala do Egito antigo tive que sair do museu e ir comer um hot dog americano (vulgo salsicha, ketchup e mostarda) com suco de mamão (papaya juice) na rua. Não sei se fiquei mais abestado com o tesouro e a riqueza daquele povo antigo ou se com a ousadia de um pais que toma pra si coisas que não deveriam estar ali. Claro que é lindo ver uma múmia de 4000 anos na sua frente, ou de entrar numa catacumba original do Egito remontada inteira dentro do pavilhão do museu, numa instalação gigantesca. Mas tenho certeza que se estivéssemos com 40°C de temperatura, o vento seco do deserto batendo no rosto e as vozes dos egípcios falando a todo tempo, essa percepção seria toda cheia de sangue, de vida. Aqui, a sensação que dá é que algo está fora do lugar, incomodando o tempo todo. Parece filme americano dublado: você sabe que estão te escondendo alguma coisa. Depois desse descarrego, de pensar sobre isso tudo e do meu hot dog com papaya juice, voltei ao museu e vi a ala dos impérios Grego e Romano. Ali, de novo, o mesmo incomodo: claro que se perder por Roma e Atenas é bem melhor! Bem, juro que tentei ir ver a ala da Idade Média, mas não tive mais forças. Aqueles anjos iluminados no céu, impassíveis diante daqueles horrores da vida na terra, sempre descritos à meia sombra, ou mesmo na escuridão, fizeram com que eu saísse correndo da primeira galeria e fosse procurar o terraço do museu onde todos dizem que a vista pro Central Park é linda. Lá eu poderia ver a luz do céu, e quem sabe até mesmo o meu anjo da guarda me olhando. Mas repare a peste! A menina da recepção me informou que ele só fica aberto até outubro, e por causa do frio eles não abrem até o próximo verão. Foi castigo! Ai não teve jeito; fui embora sem nem ir ver o Wahol. E a minha pergunta seria na mesma direção se eu tivesse ido ver a ala dele, tenho certeza: pra que ver o Wahol no Metropolitan se eu posso ir ao supermercado, por exemplo?

Saturday, 10 November 2012

Tabaréu


Hoje, às 5:30, abrindo o portão da rua aqui de casa em Areia Branca para ir à feira, deparei-me com a seguinte situação: um guri de mais ou menos uns 8 anos de idade, montado num cavalo três vezes mais alto que ele, levando laranja nos caçuás e entoando: êeee mimosa, vaaamos mimosa! êeeee mimosa!!! Claro que eu tive que olhar quem era essa mimosa e acabei procurei na mesma direção do olhar do menino. Pois, ai é que vi o tamanho da mimosa dele!!! Só Jesus!! Uma vaca, daquelas leiteiras, daquelas desenhadas nos potinhos de manteiga do supermercado. Linda, gigante, com os quartos largos, peitos balançando cheios de leite, pontas enormes e uma leveza no andar que parecia atender mesmo ao mimosa do seu nome. Fiquei tão besta com a imagem que voltei os olhos novamente para o menino. Ele, naquela altura, já estava me olhando. Eu, mais besta que qualquer besta, parado e de boca aberta na frente do portão. E, de repente, exatamente como os sertanejos se cumprimentam quando se cruzam nas estradas de terra batida do sertão, ele balançou de leve a cabeça pra mim e disse: opa, bom dia! E eu... eu respondi, mas sem firmeza: bom dia. Sem chegar aos pés da elegância daquele menino. Respondi, como um idiota da cidade grande responderia... daqueles que acham, de fato, que aquelas cenas só se vêm em filmes antigos na televisão. Que pensam que as alfaces brotam das fileiras do supermercado. Ele, do alto da sua elegância, compreendeu logo o desencontro. E eu fui pra feira envergonhado. Completamente triste por me sentir um sertanejo de quinta categoria, um verdadeiro tabaréu.