Sunday, 20 February 2011

No fundo de Amsterdam


Amsterdam para mim foi o começo do fim do mundo. Aquele mundo anunciado tantas vezes. E sem que eu percebesse a altura. Amsterdam foi um dom, o anuncio de algo melhor, um jeito de receber mensagens de outros mundos, talvez já destruídos, ou reconstruídos. Não sei. Amsterdam pra mim foi um susto. O susto que apenas uma cidade abaixo do nível de tudo pode dar em alguém. Alguém que já conhecia sua história, mas que jamais tinha provado do seu néctar. Fruto impuro. Bolo de chocolate com sabor de espaços... vazios.

Wednesday, 2 February 2011

O problema do mundo



Eu tenho um amigo francês que veio ao Brasil nos visitar e sempre que quer apontar os problemas da França, me diz: “quando eu lembro daquele dia na Pedra do Sal no Rio de Janeiro... todo mundo [preto, branco, pobre e rico] naquela felicidade e cantando a mesma música, fico logo consciente que o medo dos europeus não tem fundamento e é muito perigoso”.
Bem, e eu digo que, nem por isso, a gente tem menos problemas... mas também, nem por isso, a França teria mais problemas.
Fomos convidados, na semana que trabalhei na Alsacea, para um jantar que não estávamos tão motivados a ir. Na verdade, o convite tinha sido digno, e partiu de uma pessoa que gosta de mim verdadeiramente, e de que eu gosto demais: foi ela que me ensinou a fazer uma caponatta e outras delicias sicilianas. Ela própria, uma descendente de sicilianos. O único problema é que o convite era para um sábado à noite. E eu, lembrando imediatamente de uma crônica da Clarice Lispector de que gosto muito (e que já inclui como texto nesse blog com o nome de “O milagre dos pães”), pensei – inclusive traduzi para um amigo meu que estava na obrigação de ir comigo de carro: mas pra quê economizar uma quinta-feira para utilizar um sábado a noite?
Depois de idas e vindas e uma boa desculpa, conseguimos transferir o jantar para uma quarta à noite. Não era quinta-feira, mas mesmo assim estava perfeito! Mesmo se no dia seguinte eu precisaria dar um seminário no Instituto. Mesmo se perderíamos o amistoso Brasil-França... tant pis... seria ótimo estar com ela!
O jantar foi feito pra mim. Todas as especialidades sicilianas mais charmosas e gostosas. Inclusive o vinho! Bebemos, comemos, comemos e comemos. Mas, no meio do jantar, o anfitrião fez uma infeliz observação de que os imigrantes é que elevam os custos da França. Ele nem notou que eu era um imigrante naquele momento. Nem notou que a sua esposa, minha amiga querida, sendo siciliana, também era uma imigrante legitima. Meu amigo, convidado de obrigação, e que me levou de carro, e que é quase comunista (se é que isso existe), não pôde ficar calado. Respondeu à altura. Digo à altura porque sei que não são os imigrantes que constroem a ruína da França (nem da Europa branca). Na verdade, são coisas bem mais perigosas. E tudo que é ingênuo costuma ser, muitas vezes, muito mais perigoso. Imagino que o marido da minha amiga não imaginava o efeito que aquela frase tem sobre inúmeras vidas hoje na França, e em muitos países do mundo. Não obstante, ele vai continuar sem imaginar.
Eu não sei... não sou hipócrita ao ponto de vendar os olhos para todo o racismo que temos hoje no Brasil. Mas acho que o racismo aqui já abriu as feridas que deveria abrir e passamos, agora, por um processo (lento) de cicatrização delas. Ao contrário da Europa que parece começar a sofrer esses problemas de forma mais aguda. Eles foram os colonizadores e agora não sabem lidar com a sua própria (re)colonização.
Bem, mas quem sabe um dia, eles não irão dizer que o donner kebab e o cuscus marroquino são as especialidades da Europa central??? Como nós dizemos, aliás, que a feijoada é nosso prato mais saboroso!