Não vou te escrever uma
carta de amor. Na verdade, nem vou te escrever. Eu só estava pensando em você.
É que alguns dias atrás, encontrei um amigo seu na rua e ele me falou de você.
Eu nem me lembrava mais dele, nem do seu nome, nem onde nos conhecemos. Foi ele
que me reconheceu. Ele que fez questão de me convidar pra tomar um café. E
começou a me contar de você, do que você fazia, dessa coisa incrível que faz
com que você continue vivendo. Que você continue existindo. E logo depois, ele
começou a falar somente dele. Do que ele fazia, das coisas que ele pensava, do
que ele queria pra sua vida, e da dificuldade que era pra ele encontrar pessoas
legais. Ele devia se lembrar que nós éramos inseparáveis e que estávamos sempre
nos lugares mais inesperados, e mais desertos. Só nós dois, e o mundo. E ele
continuou a me falar apenas das coisas que ele vivia, pra onde ele iria, o que
ele era. Ele me falava do furo no pneu da sua bicicleta, do medicamento que ele
tomava desde a adolescência, me falava do preço do ônibus. Não parava minuto
algum de falar dele próprio. De repente, ele se calou. E começou a me olhar
seriamente. Ele enfim percebeu que eu não dava a mínima atenção pra sua
conversa. Que eu não tinha escutado quase nada do que ele dizia. Que eu estava me
lixando pro progresso dele, pro preço de um pneu, ou pro furo no ônibus. E
assim mesmo, ansioso, eu pedi que ele me falasse mais sobre você. Pedi que ele
me falasse somente de você. (Isso aqui não é uma carta de amor, queria que você
soubesse disso. Eu apenas te falo. E imagino que você me escuta). Eu me lembro
de tudo. Eu encontrei um trabalho bem longe, fiz novos amigos, continuei a
capoeira, abandonei, voltei a comer pão quase três vezes por dia, descobri um lugar que
você iria adorar. Descobri-me no meio de várias novas coisas que me custam não
poder te contar todos os dias, mesmo que fosse pelo telefone imóvel. Encontrei
outras pessoas por quem também me apaixonei. Procurei pessoas menos atraídas
pelo que eu sou, e encontrei. Podia até mesmo as ter amado. Mas não. Nada
daquilo durou. Porque nada dura. Apenas a lembrança do seu olhar meio bobo, no
final de uma tarde qualquer. A doçura do seu jeito de dizer meu nome. E o som
da sua voz que sempre me chama de longe, em sonho. E você jamais me chamou.
Saturday, 29 November 2008
Monday, 10 November 2008
Cracóvia
Hoje, um polonês de Cracóvia me acompanhou por alguns quilômetros, voltando da Universidade, de bicicleta. Já eram 19h30, uns míseros 6°C... e minha bicicleta pesando toneladas, porque tenho tido muita preguiça de encher os pneus. Conversamos sobre Rio de Janeiro, Cracóvia, insetos, luvas, sputtering, etc... já no final de nossa conversa, chegamos na parte do Barack Obama. E a última frase dele me deixou num estado de confusão mental que durou até dois minutos atrás. Ele disse, num francês quase sem sotaque de anos de exílio no País do Amor, salivando ainda o veneno anti-alemão-pós-guerra, e consciente da sua própria fraqueza diante dos homens: le monde commence encore une fois à devenir très dangereux, sourtout pour des gens comme toi et moi. Eu não queria traduzir essa frase. Poque parece que se eu traduzo eu começo a nao fazer nada pelo mundo. Na verdade, eu gostaria mesmo de re-escrever tudo que eu acabo de escrever. Mas hoje eu vou me deixar ser, sem auto-sensuras. Então, a tradução da frase é a seguinte: o mundo começou a ficar outra vez muito perigoso, sobretudo pra pessoas como nós.
Essa foi a frase que não me deixou em paz por quase duas horas. Primeiro pelo fato de que eu não entendi de imediato porque aquele senhor me meia idade, branco feito leite, me igualava a ele – aliais, as únicas palavras que tínhamos trocado nos corredores até então eram "bonjour!" e "à demain!". A segunda coisa que me inquietava naquela frase era o significado da palavra perigo. Por um momento eu achei que era apenas um problema de tradução. Mas não era. O perigo estava ali, e eu não conseguia identificar onde. Bem, eu devo confessar que ultimamente tenho vivido perigosamente e, ao contrário do que deveria, tenho sentido uma alegria meio imbecil todos os dias antes de levantar da cama. Hoje, passando sob a ponte da Estação de Trem, lembrei que outro dia, indo pra Kalsruhe de trem, apesar das várias pessoas que estavam sentadas em torno de nós, os policiais só pediram os nossos passaportes, o que me deu vontade de perguntar porque eles não pediam também às pessoas do lado. Lembrei também de uma conversa que tive com um pesquisador outro dia no restaurante. Ele me dizia que o problema da França vem dos imigrantes que não tomam as devidas precauções para evitar filhos e isso agrava muito o problema social francês. Não consegui distinguir se aquilo se tratava da simples observação de um fato pontual pra ele, ou se escondia algo mais perigoso. Não quis confirmar.
Outro dia, encontrei um português de Lisboa que trabalha na Anistia Internacional, e que me falou de todas as coisas duras que ele viveu aqui na França, na década de 70. Voltando pra casa, vi o carro da polícia francesa parando no sinal. Um dos policiais pediu os documentos de um negro de uns 20 anos que estava parado esperando o sinal abrir. O sinal abriu e o negro saiu andando como se não tivesse escutado o pedido. Um policial branco, olhos azuis, alto, bem alimentado, provavelmente portando documentos legítimos de um francês-alsaciano, saiu atrás do preto, que começou a correr. Eu tive tanta vontade de chorar que não pude me mover, apesar do sinal verde. Como quando a gente é criança e nossa bola cai no quintal da velha do lado que diz com a uma raiva sem direção que vai cortar a bola. E o faz na nossa frente, tão deliberadamente.
O que faria um policial de olhos azuis correr atrás de um preto de nariz chato, uma vez que eles eram desconhecidos? O que ele teria feito de errado? Não ter documentos? Olhei pro lado pra ver se ainda dava tempo de atravessar a rua, e fui salvo pelo olhar daquela velhinha branca, indiscutivelmente germânica, que disse docemente olhando pra mim: quel horreur! (Que horror!). E, ao contrário da frase do pesquisador no restaurante, eu sabia exatamente o sentido daquela frase. Ela também chorava por dentro. Ela era gente como eu, como meu novo amigo de Cracóvia. E eu pude, então, atravessar a rua, de frente pro sol se pondo vermelho. Na direção do atlântico norte. Não sem sentir no coração uma dor transatlântica.
Essa foi a frase que não me deixou em paz por quase duas horas. Primeiro pelo fato de que eu não entendi de imediato porque aquele senhor me meia idade, branco feito leite, me igualava a ele – aliais, as únicas palavras que tínhamos trocado nos corredores até então eram "bonjour!" e "à demain!". A segunda coisa que me inquietava naquela frase era o significado da palavra perigo. Por um momento eu achei que era apenas um problema de tradução. Mas não era. O perigo estava ali, e eu não conseguia identificar onde. Bem, eu devo confessar que ultimamente tenho vivido perigosamente e, ao contrário do que deveria, tenho sentido uma alegria meio imbecil todos os dias antes de levantar da cama. Hoje, passando sob a ponte da Estação de Trem, lembrei que outro dia, indo pra Kalsruhe de trem, apesar das várias pessoas que estavam sentadas em torno de nós, os policiais só pediram os nossos passaportes, o que me deu vontade de perguntar porque eles não pediam também às pessoas do lado. Lembrei também de uma conversa que tive com um pesquisador outro dia no restaurante. Ele me dizia que o problema da França vem dos imigrantes que não tomam as devidas precauções para evitar filhos e isso agrava muito o problema social francês. Não consegui distinguir se aquilo se tratava da simples observação de um fato pontual pra ele, ou se escondia algo mais perigoso. Não quis confirmar.
Outro dia, encontrei um português de Lisboa que trabalha na Anistia Internacional, e que me falou de todas as coisas duras que ele viveu aqui na França, na década de 70. Voltando pra casa, vi o carro da polícia francesa parando no sinal. Um dos policiais pediu os documentos de um negro de uns 20 anos que estava parado esperando o sinal abrir. O sinal abriu e o negro saiu andando como se não tivesse escutado o pedido. Um policial branco, olhos azuis, alto, bem alimentado, provavelmente portando documentos legítimos de um francês-alsaciano, saiu atrás do preto, que começou a correr. Eu tive tanta vontade de chorar que não pude me mover, apesar do sinal verde. Como quando a gente é criança e nossa bola cai no quintal da velha do lado que diz com a uma raiva sem direção que vai cortar a bola. E o faz na nossa frente, tão deliberadamente.
O que faria um policial de olhos azuis correr atrás de um preto de nariz chato, uma vez que eles eram desconhecidos? O que ele teria feito de errado? Não ter documentos? Olhei pro lado pra ver se ainda dava tempo de atravessar a rua, e fui salvo pelo olhar daquela velhinha branca, indiscutivelmente germânica, que disse docemente olhando pra mim: quel horreur! (Que horror!). E, ao contrário da frase do pesquisador no restaurante, eu sabia exatamente o sentido daquela frase. Ela também chorava por dentro. Ela era gente como eu, como meu novo amigo de Cracóvia. E eu pude, então, atravessar a rua, de frente pro sol se pondo vermelho. Na direção do atlântico norte. Não sem sentir no coração uma dor transatlântica.
Saturday, 8 November 2008
320 Km/h
Sei que esse é um assunto reincidente, mas preciso ainda
contar outra coisa. É que quando estive pela primeira vez nessa velocidade
sobre o chão, que é o lugar onde todos nos queremos ficar, tive a impressão
louca de que estar ali era a desumanização mais cruel das coisas. Era a
relativização mais primordial que poderia existir. O mudo tinha outra forma.
Por alguns minutos tudo o que existia a minha volta estava nos lugares errados.
Vou explicar: não, eu não estou maluco, e nem tomei nada de especial durante
aquela viagem de TGV, era apenas a constatação última que o mundo pode ser
outra coisa se você esta a 320Km/h. Por exemplo, eu vi uma vaca no pasto que
deixou de ser uma vaca. Não sei explicar o porquê. As coisas que eu reconhecia
para fora da janela pararam de ter os mesmos valores de antes. Mais ainda, pra
mim, a vaca passou a ser a pessoa do meu lado que lia uma revista tipo
"Contigo" sem nem se dar conta da transformação que se dava do outro
lado da janela.
Saturday, 1 November 2008
Tack tack
Uma vez eu ouvi de um amigo algo super engraçado. Ele criticava os meus sapatos; dizia que eu não tinha gosto pra comprar sapatos (e não tenho mesmo). O pé de alguém é a última coisa que eu costumo olhar, e isso talvez justifique porque eu estou sempre fora da moda dos pés. Pois esse amigo ainda me deu uma dica: comprar apenas os sapatos que eu mais detestasse nas lojas. Boa idéia essa. Pois vocês acreditam que ontem eu ouvi algo semelhante de outro amigo daqui. Eu estava mostrando minhas preferências no rock "moderno". (Tenho que dizer que ele ama o movimento pós-punk! Nem sei direito o que isso significa... bem, mas o cara é entendido!) Voltando ao assunto, ele me disse todo sério: Euler, você tem é que escutar aquilo que você jamais escutaria voluntariamente no rock. Pode? Isso sem contar que outra amiga me disse que se escutasse as músicas que eu escuto, cortaria os pulsos logo em seguida. Comecei a ficar desconfiado que eu sou meio torto. Ou que as pessoas me vêem torto. Isso também é verdade, outra amiga descobriu, há alguns anos atrás, que meu nariz é torto. É mole?
Então, pra entortar tudo de vez, ai vai uma viagem torta à Stockholm, num final de semana torto. Dentro de um vídeo também todo torto. Embrulhado numa música que tenho escutado muito tortamente esses dias. E com vocês, a Bitelona também torta e o Eduardo que deve ser mais torto que todos nós juntos. Um grito anti-pasto-rock-pós-punk. Um anti-acidente Ryanair. Um casaco pro nosso frio sueco de todo dia. Um antibiótico que só funcionaria com o som em volume máximo.
E a previsão é de neve em Strasbourg na quinta-feira. Mundo torto, esse...
Então, viva todos os tortos do mundo!
Então, pra entortar tudo de vez, ai vai uma viagem torta à Stockholm, num final de semana torto. Dentro de um vídeo também todo torto. Embrulhado numa música que tenho escutado muito tortamente esses dias. E com vocês, a Bitelona também torta e o Eduardo que deve ser mais torto que todos nós juntos. Um grito anti-pasto-rock-pós-punk. Um anti-acidente Ryanair. Um casaco pro nosso frio sueco de todo dia. Um antibiótico que só funcionaria com o som em volume máximo.
E a previsão é de neve em Strasbourg na quinta-feira. Mundo torto, esse...
Então, viva todos os tortos do mundo!
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