Wednesday, 28 December 2011

Atacama

Desde que pisei a primeira vez aqui no Chile, senti como se esse país pudesse me trazer muitas alegrias. E foi mesmo assim desde então. Já na viagem de retorno para o Brasil estava decidido a voltar aqui. E aqui estou, novamente, e voltando a ter alegrias e surpresas cotidianas. Voltando de um passeio hoje a tarde, onde passamos três horas quase adormecidos em águas termais que descem dos Andes abaixo, a senhora dona do nosso hotel nos convidou para ir à sua roça. Nem hesitamos. É preciso antes dizer que, como o seu próprio país, essa senhora de 67 anos guardava algo no seu modo elegante e distinto de falar que me atraiu desde a nossa chegada, assustados, a esse deserto chamado Atacama. Quando ela me contou que era uma atacamenha nascida e criada aqui, achei que algo estivesse errado porque ela me pareceu uma mulher do mundo, culta e com uma visão que observava em poucas pessoas que conheci até hoje. Ao longo dessa semana aqui, fiquei conhecendo e me encantando cada vez mais com essa senhora. Hoje, com o convite para visitar o seu sitio, ela me dizia que estava pronta para nos receber e a gente a ela. Ficamos encantados com tudo, o modo de vida de um atacamenho típico. E vendo essa senhora cuidar das ovelhas, galinhas, plantas, não pude deixar de pensar na minha mãe, que também fazia isso tudo com muito amor. Ela contou que os seus filhos dizem que ela já não precisa se cansar com essas coisas, que precisa descansar e ficar somente com o hotel, mas ela disse que não pode fazer isso porque aquilo tudo é sua vida mais valiosa. Que fica alegre quando uma flor se abre no sitio e triste quando um pintinho morre afogado no bebedouro, como vimos hoje, por causa do calor extremo. Isso tudo eu ouvi várias vezes de minha mãe, que insistia em cuidar de galinhas, verduras, etc, diariamente e com muita alegria - o que nos fazia achar, erradamente, que isso era cansativo demais para ela. No fundo nunca foi. Ao contrário. Era aquilo tudo que lhe fazia viver.
No caminho de volta ela nos contou sobre os vários países que conheceu, e que adorou a Grécia e a Suíça (a Suíça era o país dos seus sonhos). Os filhos a levaram. Fiquei pensando que nós não tivemos essa alegria de poder levar nossa mãe na Suíça, que também era o país dos seus sonhos. Mas ao mesmo tempo, estar ao lado dela me fez tão feliz, como se ela fosse uma parte arrancada de minha mãe no meio do deserto. A Fernanda, entendendo aquilo tudo, começou a chorar. Eu não pude chorar. Por que estava contente demais por aquele presente divino.
 
 

Thursday, 16 June 2011

Pela internet


E ainda que fosse a completa falta de sonho aquilo que me guiasse, eu não poderia seguir nada senão aqueles sinais que se tornam surpreendentemente evidentes entre pessoas que nunca se viram. Mas a mim foi dada aquela inquietação de alguém que nunca soube da verdade. E por nunca saber da verdade, eu sempre fiz propagandas enganosas de mim mesmo para os outros, distraidamente. Ontem eu tive um encontro. Um encontro falso como o de duas pessoas que se conhecem pela internet e que nunca trocaram mais do que cinco mil caracteres de informação. A falta de caracteres e de resposta que corresponda à pergunta certa configuraria imediatamente uma falta de conexão, como se em algum no momento do download tivéssemos obtido um 0 no lugar do 1. Seria como se no momento final do filme, onde aquele gesto justificaria todas as ações passadas, faltasse energia por três segundos e você ficasse com a notícia reveladora sem a consistência daquilo que é necessário para se acreditar. E a notícia já não significaria mais nada para ninguém...

Thursday, 2 June 2011

Pink e Gil



Um satélite caindo distraído sobre o mundo. O mundo esperando impaciente a queda de um satélite. Ou seria um satélite caindo impaciente sobre o mundo e o mundo, por sua vez, distraído, no meio da queda iminente de um satélite. Bem, o fato é que temos uma cachorra aqui em casa chamada Pink (apesar dela ser preta). E que temos uma prima chamada Gil (apesar dela ser mesmo a nossa irmã). A Pink tem a quase distraída mania de esperar que a gente saia para longe das suas vistas antes de começar a comer sua comida de cachorro. A Gil, por sua vez, tem uma quase impaciência com essa atitude da Pink de esperar que ela saia para só então comer. E, claro que todos aqui em casa já se demoraram mais na frente da Pink esperando que ela comesse a comida, enquanto ela permanecia imóvel nos observando (tanto quanto nós a observávamos). Então, um dia, impacientemente, Gil decidiu puxar uma cadeira e sentar bem em frente a Pink, olho no olho - só sairia da frente dela quando a outra começasse a comer!
- Eu quero ver se a ela vai morrer de fome hoje, porque eu tenho a tarde inteira sem ter o que fazer, dizia distraidamente nossa prima Gil, enquanto nossa Pink olhava impacientemente para ela.

Friday, 20 May 2011

Batatinha, tomate, etc...


Hoje eu vou fazer uma tartiflete aqui em casa. Apesar do nome, isso é uma comidinha básica francesa que leva batata, bacon e queijo. Ou seja, uma bomba que vai servir para esquentar um pouco o dia de hoje nessa terra. E nem adianta rir: essa semana promete ser a semana mais fria do ano em Sergipe, e isso já se anuncia hoje com esses siberianos 17°C! Fazer o quê? Tem neguinho acendendo o fogão a lenha o dia inteiro em Riachão do Dantas, se vestindo com bolsas plásticas, etc, tudo pra ver se espanta o frio que resolveu testar os sergipanos esses dias! Mas ai, voltando ao assunto original, você sabia que a batatinha só chegou à Europa no século XIX? E o tomate também? Fiquei besta quando soube. Porque quando eu imagino a mesa da Europa de hoje sem a batatinha e o tomate, acaba me dando até um certo horror de pensar o que se comia antes! Por isso que nem caramujo escapava, meu filho! O tomate e a batatinha foram levados daqui da América. E mais: sabia que até o Renascimento as pessoas que eram convidadas para festas deveriam levar no bolso seu estojinho com colher, garfo e faca? Sim, cada um tinha o seu. E que bem antes disso, a inexistência de pratos criava uma situação bizarra. Tipo, as pessoas comiam num prato feito de pão super hiper mega plus plus duro. E ao final da refeição, doavam esse pão molhadinho pros vassalos. Idade média. Engraçado... lembro que uma vez eu vi num jornal de Strasbourg um anuncio de um restaurante que oferecia um menu Idade Média. Na época, nem me interessei mais pelo assunto, e acabei perdendo a oportunidade de descobrir gostos bizarros! Mas o fato é que a comida de hoje aqui em casa não tem nada de Idade Média e é, talvez, bem mais americana do que francesa. Ninguém vai precisar trazer seus talheres também, o que já insere a gente no Renascimento. A única coisa Idade Média que existe hoje aqui ainda é o apetite de todo mundo!

Tuesday, 10 May 2011

Leve um celular



Outro dia, entrando no Banco do Brasil da universidade, acabei sendo protagonista de uma cena curiosa. Deixei o meu celular e meu molho de chaves na caixa para poder passar no detector de metais. Tive que esperar um pouco, pois um rapaz da minha idade estava também colocando o seu celular e também o seu molho de chaves. Como estava com o computador na bolsa, logicamente, o aparelho emitiu o mesmo sinal que emitiria se alguém armado, intencionalmente, estivesse tentando entrar no banco. A segurança pediu para ver o interior da minha bolsa e eu atendi ao seu pedido. Depois, achei melhor ir pegar de volta o meu celular e chaves, antes que algum engraçadinho aproveitasse da situação para me roubar, o que seria impossível, mas... O fato é que quando voltei, achei apenas o meu molho de chaves, nada mais dentro da caixa. O rapaz que colocou as suas chaves e seu celular antes de mim estava saindo do local e, naturalmente, eu disse: ei, rapaz, meu celular! Não que eu tivesse certeza que ele era o responsável pelo desaparecimento do meu celular, mas achei que algo nele me dava a liberdade de falar assim. Ele, de forma assustadora e incrível, se virou, retirou o meu celular do bolso dele e recolocou-o dentro da caixinha na porta de entrada do banco. Como a segurança estava do lado eu lhe disse: você não vai fazer nada? E ela me respondeu: fazer o quê? Eu respondi: se você não sabe o que fazer, o que você espera que eu faça? Você acha que eu vou entrar na fila do caixa do lado de uma pessoa que acaba de roubar meu celular? Bem, o fato é que eu entrei no banco e enfrentei a tal fila do lado do cara que acabara de roubar meu celular. Ele fingia que não me reconhecia. Eu, por minha vez, fingia que nunca o tinha visto. E essa é a visão mais real desse nosso país.

Monday, 2 May 2011

Universo


Dar aula de termodinâmica não é tão simples assim para uma alma qualquer. A cada nova lei você se sente mais e mais inanimado. Quase um desenho escrito a lápis no caderno, distraidamente. No meio de um turbilhão de processos. Todos tendendo ao equilíbrio utópico. Na direção do caos energético, que acaba por se refletir nas nossas decisões cotidianas. Aliás, o caos... ele, que parece ser o destino maior de cada ser vivo. E daquilo que chamamos, sem vergonha, de universo.