Tuesday, 18 March 2014

Sentimento cristalizado


O anúncio de um terremoto inesperado na frente de um aeroporto ainda com fome, a insistência acusadora de um guia que fala a nossa língua indecifrável, e outras tantas que lhe chegue aos pulmões ávidos de oxigênio, a emoção de se viver num deserto, num deserto anunciado tantas vezes, e cada vez mais inundado de uma poesia ocre, marrom claro, preta, cinza, todo o espectro eletromagnético sendo decifrado igualmente por nossos olhos, tudo, tudo, tudo, medrosos sob a nuvem ameaçadora de um vulcão ativo, e de um cachorro, vários cachorros, todos ricos, e nós, pobres mortais, vagando na aridez de um pensamento enviesado, no átimo de um salto dentro de um olho salgado, lacrimejante, e preso num milagre de se flutuar sobre as águas, ou no susto de se sentir forte no momento em que todos deveriam se afogar, ou de presenciar o íntimo do mundo numa pedra cristalizada antes mesmo do primeiro orgulho humano, orgulho que não interessa à vastidão do mundo, quando esse não tem fim, sobrando, transbordante de uma esperança quase dinamarquesa, branca, incrustada no que chamamos de horizonte, salgada, como o desejo, suor, ligação essa que parece nos acusar de negligencia aos sentidos, aqueles sentidos.