Thursday, 30 April 2009

London


Eu estou de volta ao Hyde Park hoje apenas porque todos ficaram assustados quando eu disse que isso aqui não me empolgou. E eu continuo achando isso, mesmo se agora eu estou sentado aqui, bem próximo ao laguinho onde algumas criancinhas inglesas se divertem (meu deus, como elas são feias!). Aliás, seria obviamente um exagero dizer que os ingleses são feios; eu diria que eles são apenas diferentes daquilo que eu procuro. Se bem que algumas vezes, me descubro tão comovido com alguns deles dentro do metrô...

Bem, nada do que eu escrevo aqui tem sentido, se eu demoro em dizer pra vocês dois que o Vitor me lembrou ontem, descendo as escadas da estação de trem do St Pancras, que eu esqueci o aniversario de vocês. E que, pra piorar ainda mais a situação, esses dois aniversários caem no mesmo dia - três de maio de todo ano! Estou aqui pensado, há uns dez minutos, o que fiz no dia três de maio desse ano, e só agora acabo de lembrar que estava voltando da Floresta Negra na Alemanha. Estória de aproveitar os últimos dias aqui nesse velho mundo, meus amigos, vocês endentem! vocês sabem que depois o negocio vai ficar difícil. De qualquer modo, eu sei que isso não justifica o esquecimento. Talvez eu pudesse reclamar da minha agenda Microsoft... ou da minha total falta de atenção de ultimamente. Mas eu só esqueci mesmo, do mesmo modo que a gente esquece de comer durante o trabalho, e se diz no final do dia: putz, que merda eu estou fazendo comigo?! Foi isso.

O Vitor me contou várias coisas (o Vitor é quase um tablóide inglês!), mas fui eu quem escrevi desesperado pra ele no primeiro dia de London, da feira que fica embaixo da estação London Bridge dizendo: meu filho, aqui o povo fala comigo e eu fico batendo os olhos, sem entender e sem acreditar no que escuto. Não tenho nem força pra dizer “sorry?”. E foi essa a minha impressão primeira em London. Os carros, as pessoas, tudo andando no lugar errado. E eu assustado com a possibilidade de estar fora do mundo, e de morrer atropelado a cada esquina. Aliás, o magro me salvou de morrer atropelado na frente da casa da rainha, o palácio de Buckinham! E ela nem iria notar o alvoroço, provavelmente.

Como tudo pode parecer tão irreal aqui? Os ônibus vermelhos que nos enganam e nunca param onde a gente deseja, os taxis pretos engraçadinhos que nunca respondem quando você acena com a mão depois de uma noite num pub do Camden, os preços das coisas... e esse esquilo desabusado que não sai do meu lado e deve falar inglês como todos os outros...

Falei ao Vitor (em português) que iria ligar pra vocês assim que chegasse ao Hotel. Mas não o fiz porque fiquei com medo da conta do celular. Também porque assim que cheguei, a Anne e a Hélène estavam procurando um pub legal pra ir. E saímos logo em seguida pro “The Dublin Castle”, no Camden. Lembrei muito da Barbara e do Empório, em Ipanema, última paragem no Rio, domingo madrugada. Tinha música ao vivo e o som era legal. Dançamos até as 2h30 da manhã e voltamos pra casa a pé porque os taxis nos ignoravam. Claro – com esse árabe dando com a mão, ao ponto mesmo de explodir aquela cidade inteira! Aliás, como eu sou vigiado aqui em London, meu deus. Imagine! se eu fosse terrorista, poderia explodir uma bomba na hora mesmo em que eu estivesse embaixo do rio Thames, no metrô. Aquilo seria o suficiente pra inundar quase todas as linhas da cidade. Que horror! E foi por isso que eu nem tive tempo de ligar pra vocês dois (desculpa esfarradapa!). Na estação, esperando o trem que levaria o Vitor pra Cambridge, me aproximei dos trilhos e quando me virei, já vi um policial vindo na minha direção, com a cara de mau. Todo vestido com aquele avental amarelo! De novo, fui salvo pelo Vitor! Que, aliás, virou meu super herói em London!

O John Dalton era “daltônico”, inglês (?), e eles (os ingleses) ainda insistiram em indicar as linhas de metrô daquela cidade com cores. “Eu também sou daltônico!”, tinha vontade de gritar na cova da falecida Diane. Você, que é a rainha dos menos favorecidos! Bravo! Whatever! Mas isso é muito pouco! London tem me feito muito bem! E é exatamente durante as lentas subidas nas escadas do metrô que eu tenho tempo de pensar e procurar nas caras das pessoas do meu lado, aquilo que me falta. London deve ter tudo que falta a um ser humano. E talvez eu fale da solidão. Como os engravatados apressados, enchendo aquelas mochilinhas pretas com as maiores felicidades do mundo e um notebook.

É exatamente esse “ser sozinho” que deve ter me feito adiar absurdamente o aniversario de vocês dois. Eu, que já fui capaz das maiores barbaridades pra dizer a vocês “feliz aniversario”, esqueci completamente desse último. Tivesse eu em Areia Branca, e passaria horas a falar com vocês. Mas estou aqui, ilhando, sozinho, estrangeiro, gelado, decididamente daltônico. Ainda com esse cheiro de não-sei-o-que no ar e essas crianças, que agora correm atrás dos esquilos. O lago esta tão próximo delas que eu tenho vontade de gritar bem algo “be careful, lake on the left!”. No bar ontem a noite, várias pessoas falaram alegres comigo sem me conhecer. Polidamente, mas não sem uma ligação amorosa subjetiva... inglesa? O que pode parecer totalmente idiota. Mas o que eu queria dizer pra vocês, Fabi e Roger, é que vocês são tão mais fortes do que isso tudo que eu vivo e descubro que eu já nem sei mais se devo escrever pra vocês todo ano dizendo “feliz aniversario”. Que sentido isso faria?

Monday, 27 April 2009

Gripe do porco



Eu sempre gostei de uma passagem do livro “A Peste” do Albert Camus; aquela onde o Dr Rieaux começa a se dar conta do que iria viver dali pra frente, numa série de imagens que chegam à sua lembrança. Gosto dela porque é um texto cheio de força, daqueles que a gente é levado a ler em voz alta. Ainda mais pela beleza do próprio idioma que, nesse texto, parece não ser mais do francês e sim uma oração em latim ou um mantra. Lembro que quando fui à Marseille pela primeira vez, a capital da Provence, onde a peste chegou pelos portos e matou quase toda a população, não parava de pensar nesse texto do Camus. Cada ponte, cada calçada, cada porta maciça nas ruas, guardava nada menos do que o horror anterior ainda escondido nos bueiros daquela cidade alegre. E se eu comia uma bouillabaisse tranquilamente na calçada do bar em frente ao porto, eu sabia que aquela tranqüilidade era toda falsa. Mesmo assim eu voltaria mil vezes à Marseille, se houvesse chance. Coloco aqui uma tradução desse trecho do livro do Camus. Mas confesso que assim ele perde muito da sua graça.

“Atenas empestada e abandonada pelos pássaros; as cidades chinesas cheias de moribundos silenciosos; os condenados de Marselha empilhando em covas os corpos que se liquefaziam; a construção, na Provença, de uma muralha para deter o vento furioso da peste; Jafa e os seus mendigos horrendos, os catres úmidos e podres colados à terra batida do hospital de Constantinopla; os doentes suspensos por ganchos, o carnaval dos médicos mascarados durante a peste negra; os acasalamentos dos vivos nos cemitérios de Milão; as carretas de mortos na aterrada Londres; as noites e os dias em toda parte e sempre cheios dos gritos intermináveis dos homens"

Wednesday, 15 April 2009

Facebullshit



Aquilo que nunca foi comprado. Aquilo que sempre esteve na vitrine sem nunca ter sido. Como almas esperando o grande dia. Qual dia? Hummmm... Mesmo assim eu compro. E eles vendem. Mas o que se vende? Quando se compra? Porque, meus amigos, nada se compra, nada se vende. Apenas o vazio nas mãos. E elas (as mãos) tentando em vão agarrar alguma coisa.
Aquilo que nunca esteve à venda.
Aquilo que não vemos na vitrine.
Aquilo que timidamente se esconde atrás dos presentes mais preciosos.
E como é inútil levar pra casa um desses presentes embalados tão criteriosamente. Como se é imbecil de acreditar em presentes. Naquilo que secretamente se esconde dentro. Como se é imbecil em acreditar em almas. Em compras e vendas. Em presentes.
Almas... todas vazias. Que só escondem a terrível idéia. Também compradas em toda esquina.
Pessoas embaladas pra presente. Nos e-bays da vida.
Sem ao menos podermos falar em prazos de entrega.
Em validade.

Sunday, 12 April 2009

Notas de viagens I



Um domingo, dia 12 de abril de 2009. São exatamente 17h00 aqui em Paris – esse horário que nos da uma dimensão diferente do dia, onde tudo parece correr. Estou no Charles de Gaule, terminal 2G, esperando o avião que vai me levar pra Strasbourg. Mas ele só parte as 20h50. Isso quer dizer que eu tenho mais de 3h pra nada fazer. Como hoje fazem 15°C, resolvi esperar aqui fora, no jardim. Estou de camiseta azul, um azul que eu gosto e que tem misteriosamente escrito “180:61”. Varias outras pessoas estão também tomando sol. Mas o sol de Paris é sempre esse quase borrão no céu, quase no horizonte, no meio desse céu cinza-azulado que sempre envolve as minhas visitas a essa cidade. Já estou acostumado. E na verdade, tenho inveja de quem diz que tomou sol em Paris.
Hoje venta um vento frio e cheio de odores impensáveis. É primavera e, apesar das arvores ainda estarem sem muitas folhas, elas crescem verdes e constantes ao ponto de a gente sentir o movimento da estação. Tudo aqui é primavera. Mas as pessoas parecem que ainda não se deram conta disso e vestem os mesmos casacos do inverno passado. Em minha frente, um rapaz de uns 19 anos concentrado nas próprias mãos. Ele lê um livro e de vez em quando olha atento para as próprias mãos como se elas tivessem sofrido um acidente fatal e por muita sorte ele não as tivesse perdido de vez. Esta com uma camisa de manga listrada, de listras alternadas de amarelo-tijolo e verde forte. A entrada do Terminal 2G tem varias plataformas cobertas em diferentes níveis de altura e me fazem ficar tonto de olhar. São cinza. E as pessoas ficam embaixo aguardando, aguardando... deus sabe o que.
Um grupo de jovens de todas as cores e formas parou na minha direita agora. Vieram buscar a mãe de alguns deles. Ou aquela mulher seria a mãe de todos eles? Porque todos vieram ao encontro dela? Calças rasgadas, desbotadas, cabelos azuis, raspados, enormes, cada um com uma forma. Mesma mãe? Talvez. Parecem saídos de desenhos animados. E eu já tenho até uma voz pra cada um deles! Decididamente, a mãe é calma demais pra ser mãe deles...
Outra mãe puxa o filho sentado na mala pelo caminho e aquilo me enche o coração de vitória, como quando acabo uma viagem de avião. Eu sempre sou vitorioso quando saio de um avião. Inútil vitória, eu sei. Por que os ônibus parados na frente do terminal são todos de vidro negro? isso me da uma impressão de ter chegado, não de Aracaju, mas de alguma cidade brasileira no início do século passado, ou de Cuba, de Mumbai pobre.
O sol se esconde ainda mais, e eu resisto sem usar o casaco. Como numa revolta adolescente. Um grito inútil e sem sentido algum. Aliás, acabo de notar um rapaz que usa os mesmos sapatos que eu. Ele também notou os meus sapatos, e foi só por isso que eu o notei em seguida.
Uma senhora desce do ônibus de vidro e corre na direção do terminal, o qual se desdobra vertiginoso em plataformas desniveladas. Provavelmente ela acaba de perder o avião. O mesmo que eu enxergo daqui, decolando alto num céu cinza-azulado. Quantas vezes teríamos escutado o nome daquela mulher em vão no saguão do aeroporto? Eu detesto escutar aqueles last calls. Sempre fico agitado como se fosse eu o atrasado. Mas agora eu estou livre de não ter escutado o nome daquela senhora. Ela acabou de entrar no aeroporto ainda correndo e, de certo, ainda guarda a esperança dentro dela. Eu também já guardei um dia. Sempre temos o próximo avião, senhora X, não se desespere!

Monday, 6 April 2009

Estados de greve


Aqui em Sergipe, criou-se um clima de ditadura meio à la Sarkozy, onde o nosso governador, Sr. Marcelo Deda, parece não querer dialogar com absolutamente ninguém que inicia uma greve. Em duas semanas que estou aqui, já presenciei quatro greves de setores diferentes. Primeiro foram os professores. Pouco tempo depois do início da greve, o Desembargador Não-Sei-das-Quantas reconheceu a greve como ilegal (!). Os professores, apesar de professores, não questionaram essa declaração e voltaram ao trabalho. Claro que, em parte, porque o sindicato iria pagar uma multa de alguns milhares de reais por dia caso a greve continuasse, o que deixou todos assustados.

Fiquei imaginando que desde a queda da Bastille em Paris, os franceses aprenderam que podem fazer suas próprias leis, independente do governo. A greve na França é um direito e todos aprendem isso desde criança. Mas Mr Sarkozy também começou a questionar fundo esse direito aos franceses recentemente, e lá a coisa ficou feia. E continua feia, pois é muito difícil que um francês volte ao trabalho quando um burgo diz que sua greve é ilegal. Nunca o foi, nem na época do império. E haja carro pra queimar, e gente nua nas ruas, e barulho em todas as praças...

Voltando a Sergipe, alguns dias depois, começa a greve do sistema de transporte público. Os motoristas e cobradores reivindicam aumento de salário uma vez que a passagem subiu de R$ 1,75 para R$ 1,95 sem que um centavo de aumento tenha sido repassado a eles. E cá pra nós, quem anda nos transportes públicos de Aracaju e não estão dentro do eixo Zona Sul, estão fadados a amargurarem dentro de carroças. (Aliás, essa idéia “Zona Sul” de Aracaju meio que emprestada aos cariocas, e o seu bairro chique “Jardins”, emprestado aos paulistanos, mostra muito do que somos). A greve foi mais firme que a dos professores, houve manifestações, ônibus parados nas ruas, e mesmo após o nosso querido desembargador Não-Sei-das-Quantas declarar a greve como sendo ilegal, os aracajuanos ainda passaram um dia sem ônibus, o que foi ótimo. Não pelos aracajuanos, lógico.

Essa semana foi a vez dos médicos do governo. Um dia depois, o tal desembargador – de quem comecei a criar um certo incômodo, daqueles que chegam quando a gente ouve o nome da comida que nos fez mal – já declarava a greve ilegal, e o Telejornal mais assistido de Sergipe já noticiava aquilo em primeira chamada; e via-se o seu riso cínico atrás das câmeras. É impressionante como os Telejornais de Sergipe são tendenciosos no sentido mais ilegal da palavra. Mas dessa vez o pobre desembargador estava começando a incomodar várias pessoas com sua idéia torta de ilegalidade, mesmo as pessoas que trabalham próximo a ele.

Foi que os Promotores Públicos resolveram entrar em grave e já começaram defendendo os médicos e questionando a ilegalidade da greve na TV, coisa que ninguém ainda tinha feito com fundamentos também legais. Eu, que não sei nada de leis, tenho um idéia de que a greve deveria ser o nosso último trunfo, como direito. Mas saber uma greve ilegal me soa extremo demais. E foi nesse sentido que os Promotores entre outras coisas, tiveram a coragem de ligar o nome desse desembargador ao nome do nosso mais votado Governador Sr Marcelo Deda, nos informando dos seus laços políticos mais quentes. Por que os promotores não socorreram os professores já de inicio? Nem os motoristas e cobradores? E o Sr Marcelo Deda, que corria de esquina em esquina do lado dos professores nas greves anos atrás? O que será que passa na cabeça de pessoas assim? Será que eles ainda dormem melhor do que eu?