Eu sempre gostei de uma passagem
do livro “A Peste” do Albert Camus; aquela onde o Dr Rieaux começa a se dar
conta do que iria viver dali pra frente, numa série de imagens que chegam à sua
lembrança. Gosto dela porque é um texto cheio de força, daqueles que a gente é
levado a ler em voz alta. Ainda mais pela beleza do próprio idioma que, nesse
texto, parece não ser mais do francês e sim uma oração em latim ou um mantra.
Lembro que quando fui à Marseille pela primeira vez, a capital da Provence, onde
a peste chegou pelos portos e matou quase toda a população, não parava de
pensar nesse texto do Camus. Cada ponte, cada calçada, cada porta maciça nas
ruas, guardava nada menos do que o horror anterior ainda escondido nos bueiros daquela
cidade alegre. E se eu comia uma bouillabaisse tranquilamente na calçada do bar
em frente ao porto, eu sabia que aquela tranqüilidade era toda falsa. Mesmo
assim eu voltaria mil vezes à Marseille, se houvesse chance. Coloco aqui uma
tradução desse trecho do livro do Camus. Mas confesso que assim ele perde muito
da sua graça.
“Atenas empestada e abandonada
pelos pássaros; as cidades chinesas cheias de moribundos silenciosos; os
condenados de Marselha empilhando em covas os corpos que se liquefaziam; a
construção, na Provença, de uma muralha para deter o vento furioso da peste;
Jafa e os seus mendigos horrendos, os catres úmidos e podres colados à terra
batida do hospital de Constantinopla; os doentes suspensos por ganchos, o
carnaval dos médicos mascarados durante a peste negra; os acasalamentos dos
vivos nos cemitérios de Milão; as carretas de mortos na aterrada Londres; as
noites e os dias em toda parte e sempre cheios dos gritos intermináveis dos
homens"
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