Monday, 27 April 2009

Gripe do porco



Eu sempre gostei de uma passagem do livro “A Peste” do Albert Camus; aquela onde o Dr Rieaux começa a se dar conta do que iria viver dali pra frente, numa série de imagens que chegam à sua lembrança. Gosto dela porque é um texto cheio de força, daqueles que a gente é levado a ler em voz alta. Ainda mais pela beleza do próprio idioma que, nesse texto, parece não ser mais do francês e sim uma oração em latim ou um mantra. Lembro que quando fui à Marseille pela primeira vez, a capital da Provence, onde a peste chegou pelos portos e matou quase toda a população, não parava de pensar nesse texto do Camus. Cada ponte, cada calçada, cada porta maciça nas ruas, guardava nada menos do que o horror anterior ainda escondido nos bueiros daquela cidade alegre. E se eu comia uma bouillabaisse tranquilamente na calçada do bar em frente ao porto, eu sabia que aquela tranqüilidade era toda falsa. Mesmo assim eu voltaria mil vezes à Marseille, se houvesse chance. Coloco aqui uma tradução desse trecho do livro do Camus. Mas confesso que assim ele perde muito da sua graça.

“Atenas empestada e abandonada pelos pássaros; as cidades chinesas cheias de moribundos silenciosos; os condenados de Marselha empilhando em covas os corpos que se liquefaziam; a construção, na Provença, de uma muralha para deter o vento furioso da peste; Jafa e os seus mendigos horrendos, os catres úmidos e podres colados à terra batida do hospital de Constantinopla; os doentes suspensos por ganchos, o carnaval dos médicos mascarados durante a peste negra; os acasalamentos dos vivos nos cemitérios de Milão; as carretas de mortos na aterrada Londres; as noites e os dias em toda parte e sempre cheios dos gritos intermináveis dos homens"

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