Monday, 6 April 2009
Estados de greve
Aqui em Sergipe, criou-se um clima de ditadura meio à la Sarkozy, onde o nosso governador, Sr. Marcelo Deda, parece não querer dialogar com absolutamente ninguém que inicia uma greve. Em duas semanas que estou aqui, já presenciei quatro greves de setores diferentes. Primeiro foram os professores. Pouco tempo depois do início da greve, o Desembargador Não-Sei-das-Quantas reconheceu a greve como ilegal (!). Os professores, apesar de professores, não questionaram essa declaração e voltaram ao trabalho. Claro que, em parte, porque o sindicato iria pagar uma multa de alguns milhares de reais por dia caso a greve continuasse, o que deixou todos assustados.
Fiquei imaginando que desde a queda da Bastille em Paris, os franceses aprenderam que podem fazer suas próprias leis, independente do governo. A greve na França é um direito e todos aprendem isso desde criança. Mas Mr Sarkozy também começou a questionar fundo esse direito aos franceses recentemente, e lá a coisa ficou feia. E continua feia, pois é muito difícil que um francês volte ao trabalho quando um burgo diz que sua greve é ilegal. Nunca o foi, nem na época do império. E haja carro pra queimar, e gente nua nas ruas, e barulho em todas as praças...
Voltando a Sergipe, alguns dias depois, começa a greve do sistema de transporte público. Os motoristas e cobradores reivindicam aumento de salário uma vez que a passagem subiu de R$ 1,75 para R$ 1,95 sem que um centavo de aumento tenha sido repassado a eles. E cá pra nós, quem anda nos transportes públicos de Aracaju e não estão dentro do eixo Zona Sul, estão fadados a amargurarem dentro de carroças. (Aliás, essa idéia “Zona Sul” de Aracaju meio que emprestada aos cariocas, e o seu bairro chique “Jardins”, emprestado aos paulistanos, mostra muito do que somos). A greve foi mais firme que a dos professores, houve manifestações, ônibus parados nas ruas, e mesmo após o nosso querido desembargador Não-Sei-das-Quantas declarar a greve como sendo ilegal, os aracajuanos ainda passaram um dia sem ônibus, o que foi ótimo. Não pelos aracajuanos, lógico.
Essa semana foi a vez dos médicos do governo. Um dia depois, o tal desembargador – de quem comecei a criar um certo incômodo, daqueles que chegam quando a gente ouve o nome da comida que nos fez mal – já declarava a greve ilegal, e o Telejornal mais assistido de Sergipe já noticiava aquilo em primeira chamada; e via-se o seu riso cínico atrás das câmeras. É impressionante como os Telejornais de Sergipe são tendenciosos no sentido mais ilegal da palavra. Mas dessa vez o pobre desembargador estava começando a incomodar várias pessoas com sua idéia torta de ilegalidade, mesmo as pessoas que trabalham próximo a ele.
Foi que os Promotores Públicos resolveram entrar em grave e já começaram defendendo os médicos e questionando a ilegalidade da greve na TV, coisa que ninguém ainda tinha feito com fundamentos também legais. Eu, que não sei nada de leis, tenho um idéia de que a greve deveria ser o nosso último trunfo, como direito. Mas saber uma greve ilegal me soa extremo demais. E foi nesse sentido que os Promotores entre outras coisas, tiveram a coragem de ligar o nome desse desembargador ao nome do nosso mais votado Governador Sr Marcelo Deda, nos informando dos seus laços políticos mais quentes. Por que os promotores não socorreram os professores já de inicio? Nem os motoristas e cobradores? E o Sr Marcelo Deda, que corria de esquina em esquina do lado dos professores nas greves anos atrás? O que será que passa na cabeça de pessoas assim? Será que eles ainda dormem melhor do que eu?
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