Hoje, enquanto almoçava, muito mais preocupado com a comida do
que com o resto do mundo ao redor, comecei a escutar o piar desesperado do papa-capim
que escolheu o bambuzinho enramado na janela da minha cozinha pra fazer seu
ninho. E já pela terceira vez! Achei que fosse algum bicho querendo pegar os
filhotes e abri a porta devagar pra ver. Foi ai que levei um susto! Os três
filhotinhos estavam ensaiando o seu primeiro voo e um deles acabou entrando
desajeitado na cozinha. A mãe, desesperada, voando raso na minha cabeça, ainda
na porta da cozinha. Prometi a ela que iria trazer o seu bichinho são e salvo.
Fui atrás dele na sala e consegui abarca-lo com a mão, depois de muita corrida, puxa móvel aqui, empurra pra lá: estratégias pra não machuca-lo, claro. Tão frágil... A vida batendo forte entre as suas mãos
é algo tão mágico de se sentir! Por que a gente não se dá conta de que temos várias
coisas dentro das nossas mãos todos os dias esperando para serem salvas? Hoje
eu fui o herói mais desajeitado que já existiu. Resolvi deixar o pequeno no chão
do quintal pra que ele se juntasse aos outros dois e a mãe. E assim fiz. Fechei
a porta e voltei a almoçar, mas de olho nos pequenos e na mãe. Emoção imensa. Agora
estou na frente de casa e os escuto piando na mangueira do vizinho. Já não estão mais
no meu quintal. Isso significa que todos conseguiram se salvar e começam hoje a sua vida
mundo afora. Eu... eu permaneço aqui fazendo de conta que a minha vida continua igual. Mas não.
Saturday, 27 December 2014
Saturday, 6 December 2014
Os segundos passos
Quando eu era criança em Areia Branca, o nosso maior temor era ser pego por um dos doidos que perambulavam pelas ruas da cidadezinha, ainda com muitas ruas de piçarra. Os mais temidos eram Graça, Raul e Zé de Dalina. Zé de Dalina não era muito da minha época. Só lembro de poucas histórias com ele. Acho que minha irmã lembra mais. Já Graça, era uma preta tão malcuidada e magra, com as pernas muito finas e quando andava, dava passos tão largos que era inevitável abaixar o quadril entre cada passo, como quando a gente mede uma distância no chão usando nossos próprios passos. Isso dava a ela um ar muito artificial no andar, mas que, pra mim, era uma certa doçura também. Ela sempre andava com umas sacolas no colo e interagia com o mundo sempre em câmera lenta. Até quando ensaiava uma corrida atrás dos moleques, começava sempre em câmera lenta. Na verdade, acho que nunca tive medo dela. Ela antes me despertava, o que hoje eu traduzo, como ternura. Nunca tive coragem de bulir com ela como a molecada fazia. Mas de todos esses, o que eu mais tinha medo era o Raul. Ele andava pelas ruas com um cabo de vassoura entre as pernas, crente que estava montado num cavalo bravo. Se divertia galopando pelas ruas, com o risco do cabo de vassoura no chão levantando poeira nos dias quentes de verão. E relinchava de vez em quando. Pra ele não importava se era dia ou noite. Vivia sorrindo, mostrando os dentes restantes, com a boca que não podia fechar direito. Ele olhava pra gente pelo canto do olho, como se estivesse esperando a hora certa pra atacar. Se a gente vinha da escola e ele vinha vindo na mesma direção, era uma corrida desesperada da molecada pra se esconder dele, entrando nos sítios, se embrenhando nos gravatas cheios de espinho ou entrando na primeira porta de casa aberta. Mas no meio disso tudo, sempre tinha o grupo dos moleques mais afoitos e, esses, muitas vezes, ficavam gritando o nome dele e bulinando (será que vem de booling?) até sua raiva se detonar numa corrida das brabas atrás deles com o cabo de vassoura levantando. Eu não tinha coragem. Pois se, com Graça eu não fazia por ternura, com ele, o medo era o meu paralisador. Mas um dia, brincando na frente de casa com a turma dos mais afoitos, e sabendo que nenhum adulto estava em minha casa, resolvi participar da brincadeira. Começamos a bulir com Raul que vinha galopando pela rua na nossa direção. Ele nem precisou de muito esforço e, não fosse eu abrir o portão de casa pros meninos entrarem, teríamos virado pó ali na rua mesmo. Só que ele não era tão doido assim e disse gritando na frente lá de casa que ia contar tudo pros meus pais, e disse mesmo os nomes dos meus pais. Ferrou! Eu fui bem menos inteligente que ele, pois agora ele sabia onde eu morava e conhecia os meus pais. Sobrou pra mim. Ele não arredava o pé da porta lá de casa esperando o primeiro que entrasse ou saísse. Não demorou muito meu pai chegou. Logo ele. Levei uma bronca daquelas. Meu pai nunca me bateu, mas as broncas dele eram muito mais pesadas que as de mamãe! E eu mereci de verdade.
Friday, 31 October 2014
E ainda assim
Você não canta
(âncora que se arrasta no fundo escuro, e ainda assim)
Você não castiga
(parte que paralisa, fora e dentro do oco do dentro do dentro de mim)
Você não invade
(ainda que seja a minha metade desocupada, parte abandonada, nesse eu sem fim)
Você não come
(daquilo que me consome vermelho, esse quase anjo, querubim)
Você não ouve
(apenas conjuga, costura e se apropria do que não é sim)
Você não se acanha
(vergonha do beijo roubado, no alto, bem alto, trampolim)
Você não me cobra
(tampouco contorna, retorna, ou oscilas, capim)
Você não tem medo
(assume a postura de herói de uma rua, acuada, longe, bem longe de mim)
Você não percebe
(o que se ergue, pro lado, enorme, disforme, e , ainda assim)
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