Thursday, 4 January 2007

Sonhos e segredos

Ele disse pra se ter cuidado antes de abrir a porta. Será que ele sabia que eu estava atrás daquela porta? Disse mesmo para eu procurar outra pessoa do nosso sangue. Não fui. Acho que isso é defeito meu, mas não sei procurar alguém à toa. Preciso de algum motivo. E ele sempre teve motivos para sair de casa; os motivos dele. Eu aceitei. Nunca soube direito ouvir o seu violão pausado e cheio de uma alegria sofrida. E toda vez que uma palavra mais forte saia da sua boca, eu era feliz. Mas não era só isso. Um dia eu fiz a viagem mais linda do mundo. Era assim: acordei cedo, arrumei a mochila, e fomos andando em direção a grande montanha. Eu queria saber se era possível subir aquilo que só via de muito longe. Sempre fui fascinado pelo longe... o distante. No meio do caminho teve um amigo. Terminamos a viagem de carro, no topo do mundo. E eu era a pessoa mais feliz do mundo vendo os carros de brinquedo andarem frágeis sob os meus pés. Eu abria os braços e respirava lento. Eu sabia que com um pequeno gesto meu eu esmagaria tudo aquilo que me dava a vida. Ele me olhava apaixonado. Depois resolvemos descer, e foi a primeira vez que eu comi aquela fruta. Um araçá. E eu acho definitivamente que essa fruta pode ser feita de sonhos e segredos. Mas o que eu conto não é segredo. Pois o amor mais puro não pode ser segredo. E nunca vai poder ficar atrás da porta. Ele também soube disso. Eu não o perdi. E talvez não fosse uma coisa qualquer atrás da porta. Nunca. Ele sempre vai estar aqui. E semana passada eu pude lhe beijar de novo, um beijo doce e rápido. O beijo que é a confusão da alma. É quando somos um só. Eu nasci dele. Eu sou ele. Eu sou. Eu... (e já não tinha tempo outra vez: era quinta-feira).

To my father