Friday, 18 August 2006

Nine out of ten movie stars make me cry



Todo mundo sabe que as coisas começam. E terminam. E tem também o meio de tudo. Mas o começo de tudo é sempre complicado, desorganizado e desconhecido. O começo mais comovente que eu já vi foi num filme do Gregg Araki chamado "Misterious skin". Você se senta na cadeira e a imagem começa a aparecer levemente na tela, mas é impossível se identificar qualquer coisa. Algo meio fora do foco, difícil, angustiante pra quem acaba de entrar no cinema depois de ter reconhecido, na entrada do cinema, os mesmos espectadores de todos os últimos filmes. Depois de muito tempo, talvez alguns vinte segundos, você se dá conta de que algo se move, de cima pra baixo, mas ainda é impossível identificar uma imagem real. Porque ela é filmada de muito perto. Sim, é isso. O inicio de "Exils" é também super excitante. Na verdade o filme inteiro – puro sexo. Em "Billy Elliot", quando o personagem salta (dança?) numa cama elástica ao som de uma vitrola, pra mim é o signo real daquilo que todo mundo chama de liberdade. Infelizmente, ou felizmente, a primeira vez que vi esse filme foi em casa. Se fosse no cinema, com certeza eu seria outra pessoa hoje. Quando vi "Va, vis et deviens" no cinema, a primeira cena foi uma pancada. Uma cena longa sem quase nenhum diálogo, mas que te fala sobre todas as historias de todas as vidas. Duro, seco, forte, corajoso... eu só chorava. Em compensação nunca gosto muito dos fins. O único de que gostei muito depois de um ano de cinema intensivo aqui foi o de "Respiro". Aquela dança de pés flutuando dentro d'água ao som daquela musica incrível, alto mar. Às vezes eu tenho tanta alegria de saber nadar. Mas tem também o meio. Em "C.r.a.z.y", vi uma cena muito reveladora. Uma briga onde todo mundo se bate no meio de um jantar de Natal em família. A cena é dada quadro a quadro ao som de uma musica genial. Não lembro direito, mas acho que era uma opera. No entanto, o filme completo de que mais gostei aqui foi aquele. Ele acaba de saber que a mulher mais bonita do festival, apesar de ter se insinuado pra ele, não esta a fim de uma relação. Ou seja, um fora enorme. Mas, como num filme, durante uma apresentação de rock ao som de "Wonderwall" do Oasis, ele percebe de repente que outra mulher super linda e misteriosa olha pra ele. Ele sorri, ela também, e os dois cantam juntos a mesma musica sem desviar o olhar: there are many things that I would like to say to you, I don't know how... e a própria letra da musica fica sendo o primeiro dialogo entre eles. Durante o filme, ele vai se deitar no tobogã das crianças, meio pensativo, e ao invés de ver o filme, ele se da conta de que as constelações que aparecem no hemisfério norte são completamente diferentes das do hemisfério sul. Coisa inútil. De repente, a mulher misteriosa vai sentar do seu lado e eles começam um dialogo "de trem" como em "Eternal sunshine of the spotless mind". Ela diz mesmo que sabe que vai casar-se com ele. E ele sabe que não é verdade, assim como ela, e por isso mesmo os dois vão dançar uma antiga valsa francesa, sob um céu de estrelas estranhas, sentindo o quase frio do verão francês. O filme termina com os dois caminhando, ainda ao som da valsa, numa direção desconhecida. 

Friday, 4 August 2006

Perdas e ganhos



Quando o Brasil perdeu da França todo mundo veio me perguntar no outro dia se eu não estava triste. Mas a gente precisa perder... até os alemães perderam a vergonha! Perder, às vezes, pode ser melhor que ganhar. Mulhouse ganhou um trem novo, amarelo, lindo. Eu perdi minha cor preto amarelado. Anne ganhou uma bronca do zelador da piscina quando passou pelo jardim. Os italianos ganharam a Copa. O Zidane perdeu a razão. Os franceses perderam o ídolo. Eu perdi o nome "telha", em francês. Anne ganhou um livro da Clarice Lispector em francês. O lago de Kruth ganhou três nadadores. O trem quase nos perdeu. Meu manjericão perdeu varias folhas numa macarronada. Eu acho que vou perder alguém de quem gosto muito. O trevo de quatro folhas ganhou duas flores. Ganhei essa musica de presente. E acho que ganhei mais moedas do que devia no trem. É isso, a gente perde. A gente acha. Acho que.


Wednesday, 2 August 2006

Um traço no sul da França



Foi assim que a viagem foi batizada: un trace dans le sud. Gostei muito dessa viagem. Talvez uma das mais interessantes que fiz aqui. Aprendi um monte de coisas: o que os franceses comem quando acampam, porque os Papas fugiram de Roma pra Avignon na idade media, porque a ponte de Avignon é quebrada ao meio, entrar na água azul e gelada do mediterrâneo, como as cidades medievais eram construídas, o sotaque do sul, o que se come em Marseille, o que é o Lubéron, as auto-estradas que dizem que você esta correndo muito, porque o sal e o vento na Camargue é tão forte, de onde vem a lavanda, onde o marquês de Sade jogava as virgens na idade media, o que é Cat Power, como os paises vigiam ainda suas fronteiras, porque na Alsacea chove e no resto do mundo faz sol, porque um dia eu tenho que voltar na França só pra ir na Córsega...