Sempre fico pensando o que seria de mim se eu tivesse
nascido na Venezuela e tivesse desembarcado aqui na Europa pra viver com os
meus pais, ainda pequeno... e se eu um dia decidisse que iria estudar na
Suécia, fizesse um estágio na Holanda, e começasse o meu primeiro ano de
engenharia na França? Talvez eu gostasse mais de futebol e cerveja branca, e
ainda falasse inglês com alegria. Com a mesma alegria que eu dançaria uma salsa
com um copo de Gato Negro na mão esquerda. Ou seria diferente e eu seria de um
branco atômico que depois de deitar na neve voltando do centro da cidade, eu
ficaria invisível. E se eu tivesse um pé de bambu no meio do meu quarto com
algumas fotografias preto e branco e uma placa de rua onde se pudesse ler
Berlin na parede? Angels over
Berlin! Eu gostaria mesmo de
Anthony and the Jonhsons e ficaria apaixonado por Keren Ann, e ainda usaria
óculos, mesmo se alguém dissesse que eu seria lindo sem eles. Porque eu não
saberia mesmo qual o significado disso tudo. E se eu lesse dois livros por
semana guardando "L'Ombre du Vent" do Carlos Ruiz Zafón pro fim de
semana? Talvez eu nunca conseguisse provar um queijo, nem responder a um SMS
recebido às três horas da manha, nem fazer um jantar sem sujar toda a cozinha,
e nem mesmo falar "vite!" no lugar de "bite!". Mas eu seria
mais atento e saberia sobre as coisas ao redor, saberia a suas cores, os seus
nomes, e com certeza iria a um show do "Nada Surf" justo pra me
apaixonar por Inara George. Mas talvez eu saísse de uma sessão onde eu vi
"20 centímetros" e achasse que as legendas estavam todas erradas,
trocadas. Talvez eu não o assistisse duas vezes. E é lógico que pararia no meio
de uma corrida de bicicleta pra tirar fotografias de uma cegonha cinza que
insistia em comer sapinhos na beira de um canal. Eu não saberia o que significa
Areia Branca, nem Aracaju, e muito menos Sergipe, e toda vez que eu pensasse
numa cidade iria pensar numa Vila franca. E iria mesmo querer um dia aprender
português e passar um ano inteiro fazendo pós-doutorado no Rio de Janeiro,
comendo feijoada todos os dias. E acharia mesmo que o país mais rico da América
Latina era o Chile e que todo mundo se apaixona por brasileiros. Talvez eu
tivesse uma irmã que trabalhasse em Baden-Baden e falasse alemão. Talvez eu
contasse piadas em francês e ainda soubesse produzir cimentos pra rebocar
ossos. Com certeza eu nunca iria num restaurante japonês pra conversar
seriamente e comer sushi. Mas eu ficaria tão vermelho, tão vermelho, a ponto de
um daltônico notar qualquer diferença e, depois de entrar no trem, falaria
sobre a visão dos Pirineus e do mar mediterrâneo. Talvez eu não me chamasse
Euler e tivesse sempre um vale no meio de tudo. Um vale, onde azeitonas do
tamanho de caroço de feijão dão o azeito mais saboroso do mundo. Ao menos eu
leria todos os jornais, e ainda aceitaria os fatos como eles são. Eu poderia
mesmo correr durante uma hora numa floresta sem folhas e ainda assim ninguém
conseguiria me alcançar.