Eu hoje queria te falar tantas coisas. Mas os serviços de telecomunicações estão sabotando esse momento. Então, o único jeito é escrever um e-mail como esse. Cheio de buracos. De espaços onde caberia tantas risadas e as emoções indizíveis. E vou começar dizendo. Dizendo coisas também indizíveis. Vou dizer que tenho medo do que começo a sentir. Sentir foge do meu controle e sempre que meu coração se agita eu perco um pouco a direção, o controle das coisas. E isso me deixa com medo. Mas eu sei que é um medo ilegítimo. Improcedente. Eu estou consciente. E assumo a sentença de que tenho que ter coragem. Estou agora corajoso de novo. E posso até me entregar ao seu charme. Se o telefone tocasse agora eu me renderia completamente. Mas peço que tenha cuidado comigo. Eu pareço forte e frio, mas é tudo uma casca dura que construí ao longo de séculos de existência. Dois milímetros abaixo, escorre sangue quente. Minha fragilidade mora a dois milímetros de mim. E sinto que, quando nos conhecemos, há minutos atrás, imediatamente ultrapassamos esse limite, você e eu. Sinto você dois milímetros abaixo da minha pele, numa intimidade que nunca antes pude ter com alguém. Talvez porque nunca tenha me permitido. Mas o fato é que mesmo sem pedir permissão você entrou dois milímetros em mim. O que faço agora? Também não posso ainda responder ao seu pedido. Até porque eu mesmo não sei até onde vai a sua própria coragem. Apesar de guerrilheiro, sei dos seus medos. Individuais. Igualmente ilegítimos e improcedentes. Mas que esperam o meu respeito. E eu espero. Porque tenho esperança em mim. Por te e por mim. Até que consigamos decidir sob qual pele iremos existir. Parece difícil, eu sei. Mas seria mesmo?