No verão em Areia Branca, o cheiro de caxixe vindo do canavial invade a cidade sem pedir licença. Uns acham cheiroso, outros acham fedido demais. Eu fico no meio sentido: acho fedido, mas é um fedido que me dá alegria! Do mesmo jeito que gosto do cheiro dos finais de tarde em que fica no ar aquele cheiro de castanha de caju sendo torrada nos quintais dos vizinhos. São os cheiros do verão da minha terra!
Saturday, 21 December 2013
Friday, 6 December 2013
Papudinhos
Desde que uma amiga minha, a Cris cachaceira, me recomendou o Clube Wine, não paro de receber vinhos bons pelo correio. Cada vez é um vinho novo vindo dos lugares mais bacanas no mundo! A Ninha, que é amiga da Cris, e de quem já falei outras vezes aqui no blog, é quem recebe o vinho. E sempre rola uma aura de mistério em torno desses vinhos. Parece algo caro demais. Chique demais. E que não condiz com a falta de açúcar e a amargura acentuada que a Ninha repara toda vez que prova um gole de um deles. Como alguém pode dizer que isso é bom, divino, se não tem açúcar? Na verdade, ela já me disse que só doutor pode beber esses vinhos em casa. (rsss...)
Outro dia, estávamos indo almoçar quando eu falei que iria abrir um vinho australiano que tinha recebido, e que já tinha conseguido vários prêmios internacionais, etc. Enquanto abria o vinho, a Ninha falou espontaneamente e sem dificuldade:
- Ave maria! Então, esse daí, os papudinhos dali da praça não podem beber não! Se beber , vão tudo cair duro de barriga inchada depois!!
Não precisa nem dizer que todo mundo caiu na gargalhada, né?
PS: papudinhos = cachaceiros
Outro dia, estávamos indo almoçar quando eu falei que iria abrir um vinho australiano que tinha recebido, e que já tinha conseguido vários prêmios internacionais, etc. Enquanto abria o vinho, a Ninha falou espontaneamente e sem dificuldade:
- Ave maria! Então, esse daí, os papudinhos dali da praça não podem beber não! Se beber , vão tudo cair duro de barriga inchada depois!!
Não precisa nem dizer que todo mundo caiu na gargalhada, né?
PS: papudinhos = cachaceiros
Monday, 11 November 2013
Absurdo
Não
Não que eu tenha ficado
Não que eu tenha ficado triste
Com o fato
De fato
Eu sucumbi ao ínfimo domínio
Do mundo
Declínio absurdo
De vida que acaba ao lado
Exilado
Concentrado naquilo que não interessa
E sem pressa
De ser digerido pelo olho absurdo
De um... gato
Destroçado
Diante daquilo que outro diria ser
A aurora
Fugido
Ferido e sem rumo
Absurdo
Wednesday, 9 October 2013
Parênteses...
3 horas, 3 dias, 3 semanas, 3 anos... daqui a pouco serão 30 anos, e ainda assim, essa falta vai continuar do mesmo modo... e não importa aonde se esteja...
San Francisco - Cena 2
E não é que eu fiquei intrigado com os leões-marinhos do Pier 39? E olhe que sempre que via alguém falando deles quando estava no Brasil, pensava: só se não tiver nada melhor pra se ver! Pois então, ai é que tá o negócio: fiquei impressionado com os bichos, rapaz! Aliás, eles estão tão à vontade nos seus lugares que eu me senti o próprio bicho pessoa! Tipo: esses leões estão me olhando com essa cara de desdém porque eu não tenho nada pra oferecer de bom. E olhe que eu paguei um bom dinheiro pra vir até aqui só encher o saco deles! Então, deletando o pensamento evoluído (ainda que pré-socrático) e voltando pro humanizado, e já pra terminar: não é que existe um animal mais desajeitado que uma galinha, minha gente? E o que tem de desajeitando tem também de intrigante! Eles pulam em cima dos outros igual cantor de rock em cima da platéia! E na hora que isso acontece rola um quiprocó generalizado que parece que todos vão se comer vivos! E já entendi o lance todo, o negocio é ir derrubando aos poucos todos os que estão na sua plataforma, até ficar sozinho, urrando pros outros e dizendo: quem se mete agora?
Tuesday, 8 October 2013
San Francisco - Cena 1
Controle de fronteira no aeroporto de Miami:
– Mas, se você não tem parentes em San Francisco, não tem amigos, nunca esteve lá, e não está a trabalho, o que você vai fazer em San Francisco?
Pensei, mas não disse:
– Moço, você me deixou confuso demais agora! Nem eu sei mais o que eu devo fazer em San Francisco... me coloque de volta no avião pro Brasil, meu fio!
Sunday, 1 September 2013
As batidas do meu coração
Eu gosto muito quando alguém começa a cantar de leve, baixinho e, de repente, solta a voz num grito alto, forte, como alguém que, enfim, se liberta daquela prisão em que estava a alguns segundos atrás. Ainda que isso seja passageiro e que, no fundo, aquilo não seja exatamente uma libertação.
Friday, 30 August 2013
Jaciara Macumbeira
Eu acordei hoje pensando num post que a minha irmã me marcou, no perfil da Jaciara Macumbeira. É que ela dizia que eu precisava de um batuque! Pois é, e eu cheguei a conclusão que eu não preciso somente de um batuque: eu preciso é de um despacho todo feito (a meu favor, claro!). Um trabalho daqueles que não deixa opção. E colocado geometricamente numa encruzilhada de verdade. Eu preciso me rezar contra olhado também! Se Seu Messias (que deus o tenha) me rezasse, como rezava o pessoal lá de casa, aquele ramo de pião roxo não ia só murchar, ia secar e talvez pegar fogo na mão dele! O negocio anda brabo demais. Mas assim, não pense que eu sou chegado a esse tipo de coisa não, certo? Eu até tenho medo! Na verdade, quando eu era pequeno, fui pra um batuque no dia de Cosme e Damião na casa de seu Aciole. Eles iam distribuir caruru de graça, e essa era a única coisa que me interessava. Alias, quando eu era pequeno adorava Cosme e Damião: era tanta bala que a ganhava na rua! Mas eu nunca me matava no bolo pra pegar nada. Nunca fui me estapear pra pegar alguma coisa. Usava estratégias: na hora que a primeira mãozada de balas caia no chão da rua e que a reca toda ia se matar pra pegar, eu esperava a segunda mãozada, a dos espertos! E ainda, o mercadinho mais chique da cidade (e o único) tinha o nome de Cosme e Damião! E ai era que não faltava bala mesmo! Então, voltando ao assunto: nunca tinha ido num terreiro de macumba antes, aquela era a primeira vez. O terreiro de seu Aciole. Aliás, todo sábado de noite quando eu ia no banheiro do corredor, no silencio da noite, escutava aquele batuque estranho, misterioso. Até que um dia alguém me disse que era macumba lá no Pau Fava (bairro da cidade). No terreiro de Aciole. Pois não é que achei de acompanhar a minha mãe e uma prima minha, a Gil, nesse terreiro! Começaram a servir o caruru e eu já me decepcionei: não gosto de caruru babado! Cheio daquela gosma viscosa! Tinha um menino do meu lado que comia com a mão, e cada vez que colocava a mão no caruru, a baba vinha subindo até a boca, Jesus. Desisti de comer o caruru. Na verdade, desisti porque comecei a observar mais a dança das mulheres vestidas de baianas e dos homens. O som ficava cada vez mais forte e claro que alguma coisa ia acontecer. Pois e não é que aconteceu mesmo antes de eu ir embora dali? Dona Bai, uma cabocla fortona, caiu no chão e ficou se debatendo e aboiando igual vaqueiro! Sim, e a voz dela era de homem! Sem contar nas contrações involuntárias dos músculos da face e do corpo! Era tava possuída! E eu, cada hora segurava mais firme na cancela onde eu tinha subido. O meu único pensamento durante todo aquele tempo era: e se esse caboclo errar de corpo e entrar no meu? Ai ai ai... tipo, isso não é justo: eu sou ainda uma criança! Mas e se tiver caboclo criança? Meu coração só parou de bater quando eu fui embora daquele lugar. E nem bala teve, e nem caruru! E parece que depois de tanto tempo, o caboclo errou de corpo e parece que ta tentando me possuir. Sai fora, tranca rua! Tranca corpo! Sai fora, exu bagaceira! Tô fora! Pode deixar que Jaciara vai me ajudar!
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