Wednesday, 28 May 2008

Sexo II


Sexo pra mim nunca foi fácil. Na verdade, sempre tive desde criança muitos medos e expectativas em relação aquilo que sempre se falava nas rodinhas de amigos. Como eu sempre ouvia atento tudo que se me contava até então, fui pego ainda cedo pela pior doença que alguém pode desenvolver dentro de si: os pré-conceitos. Mas isso durou até eu começar a questionar profundamente os meus próprios desejos, os meus próprios sentimentos, os meus próprios prazeres, meus atos, minhas ações, e colocar isso tudo na perspectiva dos outros. Lembro do Caetano no livro "Verdade Tropical" falando sobre a sua descoberta da masturbação. Ele dizia, criança, não acreditar ser verdade que aquele ato era repudiado por Deus, algo sujo, impróprio, se na verdade ele era a sua justificação última de existência. Algo que vinha dele próprio e que podia justificar sua vida. Acho que todos nós, quando criança – ou mesmo já adultos, sentimos a mesma coisa. Só alguns babacas espalhados por ai podem negar esse fato. Ou aqueles que nunca se questionaram sobre seus próprios sentimentos e vivem aprisionados numa vida completamente fora deles próprios.

Essa semana chegou nas minhas mãos, pela minha irmã, um exemplar de "A casa dos budas ditosos" do João Ubaldo Ribeiro. Sempre quis ir ver a peça homônima com a Fernanda Torres, mas era sempre no Canecão, sempre chovia, sempre tinha que comprar ingressos antes, sempre era muito caro, sempre eu tinha algo melhor pra fazer. Bem, o fato é que comecei a ler sobre a vida de luxuria da personagem misteriosa do livro. Sua vida nada convencional, mas nem por isso errada. Na verdade, trata-se de idéias muito simples, mesmo inteligentes. Tem muito tempo que não caio tão feliz numa leitura. E não é porque fala de sexo e liberdade, mas porque aponta uma direção interessante na supressão daqueles preconceitos mais imundos e danosos, sobretudo aqueles com os quais estamos acostumados a vivenciar cotidianamente. Eu queria falar mais sobre isso tudo, mas vou deixar pro "Sexo III". (risos)

Sexo I


Depois que eu descobri a Anaïs Nin, nunca mais deixei de ler tudo que encontrava dela por ai. Um amigo, tempos atrás, me deu de presente "Les petits oiseaux" (Pequenos pássaros), seu livro de contos eróticos, no meio de uma pilha de outros livros. Sempre passava por ele sem nunca me decidir definitivamente por o tirar da pilha e me dedicar a sua leitura. Tampouco sabia que se tratava de um livro erótico! Foi quando, um dia, durante minha aula de inglês com o Mr Jonas – tenho saudades desse cara gente finíssima – surgiu o nome dessa escritora. Logo me veio a idéia de que eu já tinha visto aquele nome em algum lugar. Ao chegar em casa, encontrei feliz o livro dela sob outros exemplares empoeirados.

A história dela é um tanto interessante. Nasceu na França no início do século passado e começou a escrever, aos doze anos de idade, várias pequenas histórias em seu diário; boa parte delas com um apelo erótico imenso. É verdade que ela dava pra todo mundo, mas só deixou que seus diários fossem publicados após a morte do seu primeiro marido. Li não sei onde que foi a sua filha quem descobriu esses diários secretamente guardados sob a cama da mãe. Eu gosto da doçura com que ela trata dessas questões de sexualidade. Acho que foi um bom início pra mim. E recomendo que todos a leiam, sobretudo esse livro. Textos do início do século, mas incrivelmente atuais. Na verdade, o sexo é sempre contemporâneo.

Muito antes de ler a Anaïs Nin, lembro de ter lido a reunião de contos "Onde estiveste de noite" da Clarice Lispector. Ao contrário da Anaïs, a Clarice (como ela mesmo confessou tempos depois) se sentiu obrigada a escrever sobre sexo: tudo se tratou de uma proposta do editor como forma dela ganhar mais dinheiro. Sim, por que se é algo que gera dinheiro no Brasil, é exatamente escancarar o verbo falando sobre sexualidade, e se for da sua própria sexualidade então. Não que a Clarice não saiba falar de sexo – ela sabe muito mais que nós, por exemplo, mas suas frases são sempre cheias ainda de um preconceito escondido e aquela nuvenzinha que ela coloca na frente de cada estória acaba por cansar um pouco. Talvez porque eu esperasse outra coisa dela. Talvez porque eu tenha aprendido pouco a pouco que a gente não precisa estar sempre dentro de tantas nuvens. Talvez porque eu ache que deveríamos mesmo jogar sexo no ventilador. Talvez porque eu tenha percebido logo a enormidade de "lixo católico" que vinha atrás de mim, e que me impedia de pensar. Eu entrei três vezes na Primeira Comunhão, mas não consegui terminar nenhuma delas. Sempre me inquietava bastante ter de decorar aquelas questões idiotas (muitas eu não conseguia entender patavina), e que iam ser usadas pelo padre para dizer que eu poderia comer a hóstia (na minha cabeça, precisávamos da primeira comunhão somente pra comer a hóstia, que eu achava lindo, diga-se de passagem). Mas um dia eu e o Cristiano (amigo do peito de minha infância, morto num acidente de carro ano passado) encontramos restos de hóstias no quintal da paróquia da cidade e resolvemos comer tudo. Depois disso, eu nunca conseguiria dizer pro padre que nunca tinha tocado no corpo de cristo. Aquilo era segredo, só nosso.

Friday, 23 May 2008

As crianças


Eu sonho muito pouco e sempre que isso acontece acabo esquecendo logo depois de levantar da cama. Tenho uma amiga que diz que eu tenho muita censura dentro de mim, por isso eu esqueço dos meus sonhos. Ela deve ter razão: eu me permito muito poucas coisas. Mas hoje, incrivelmente, eu lembrei do meu sonho de ontem. Foi com a minha irmã. E foi tão bonitinho... como num desenho animado! Então, como não tenho muito o que fazer ultimamente, fiz esse filminho aqui, que levaria zero em qualquer aula de animação. De qualquer modo, é a minha art naïf. De qualquer modo, fiz foi pra minha irmã, e só pra ela.

Tuesday, 20 May 2008

Itabaiana



Não poderia deixar de falar aqui sobre as impressões que tenho dessa cidade, que é a cidade mais importante pro povo do agreste de sergipano: Itabaiana.
Bem, o seu nome já é, por si só, um mistério. A estória mais contada é que existia uma baiana chamada Rita, com problemas de dicção, a quem, possivelmente por maldade, chamavam de "Ita, baiana!". Ela devia ser mesmo bem conhecida na região. De qualquer modo, a teoria mais razoável talvez seja a de uma origem tupi, uma vez que a região era conhecida no século XVI como "Itabaiana Assu" (ita = pedra, morro...; taba = aldeia; oane = alguém; assu = grande). E o fato é que as invasões francesas e holandesas daquela época justificam muito a presença de uma quantidade enorme de pessoas de pele e olhos claros na cidade. O que é, de longe, uma das grandes estranhezas dessa cidade no meio do sertão.
            Indo do litoral até a Serra de Itabaiana, a vegetação é predominantemente mata atlântica, uma região úmida. Mas depois da Serra, onde se situa a cidade, tudo se torna seco, e a caatinga impera no cenário da região.
A cidade é conhecida ainda hoje como a cidade do ouro. Outra estranheza dessa cidade. Sim, porque apesar de nunca se ter retirado sequer uma poeirinha de ouro da Serra de Itabaiana ou de qualquer outra região próxima – e apesar dos vários relatórios dos invasores holandeses sobre as grandes jazidas de ouro e prata na Serra de Itabaiana – a fama da cidade se deve, sobretudo, ao comércio de jóias folheadas a ouro. E o comércio de Itabaiana sempre foi um mistério para muita gente. Nunca existiu crise naquela cidade. A cidade sempre flutuou a meio milímetro do chão real de Sergipe. Enquanto o país passava por crises absurdas, os itabaianenses nunca lançaram mão de vender à vista, e de possuir carros maravilhosos, e de construir palácios para morar – ainda hoje, você não deveria se surpreender se, ao retirar o seu cartão pra pagar a conta, recebesse um sorridente: desculpe moço, a gente não trabalha com cartão! Coisa impensada no Brasil de hoje e de alguns anos atrás, principalmente no nordeste.
As bocas pequenas justificam esse espírito desenvolvido falando sobre as trapaças daquela gente boa (gente inteligente e esforçada, sempre se destacando no que quer que façam). Um fato curioso ocorreu naquela cidade na noite anterior às restrições de acesso às Cadernetas de Poupanças pelo então presidente da república, Fernando Collor de Melo. Mesmo antes da notícia ser anunciada em cadeia nacional sobre o confisco do dinheiro, e sabe-se lá como, os itabaianenses, num golpe certeiro, conseguiram retirar todas as suas economias dos Bancos da cidade. Espertos. E continuaram tendo casas maravilhosas, carros moderníssimos... existe até um bairro lá com o apelido de "Morumbi". Além disso, milhões de motos circulam na cidade, muitas... todas de cor vermelha. Outra doçura dessa cidade.
E os itabaianenses são apelidados pelo resto do estado de "ceboleiros". Disso eu não tenho muito a dizer. É verdade que eles plantam muita cebola, o resto deve ser maldade.
Mesmo porque as pessoas são sempre chiques; lojas com roupas modernas, mesmo mais modernas que aquelas que vemos em Aracaju. Na verdade, muitas pessoas vêem de Aracaju pra comprar nas lojas de Itabaiana. Desde que eu era criança, lembro da dona de uma dessas lojas, conhecida como Maria de Vieira. Minha mãe sempre comprava coisas a ela e eu nunca esqueço das tardes gastas por lá. Obviamente não existia nada pra mim naquela loja que, na época, só pensava em brinquedos, mas algo me atraia ali. E era a própria dona daquela loja, uma senhora alta, grande, chique, elegante, pomposa e que deixava a sensação de que algo de precioso se passava ali, e que me fazia gostar de estar ali. Ainda hoje eu e minha irmã, quando vamos à Itabaiana, gostamos de passar pela frente da sua loja e de reviver (secretamente?) aquela nossa sensação de antes, não sem uma ponta de ternura (ela, a dona, ainda é viva!). Afinal, essa é uma outra doçura de Itabaiana.
Desde cedo, as leis brasileiras nunca funcionaram em Itabaiana, e por muito tempo o coronelismo foi marca registrada da sua vida política: adversários que matam adversários, vinganças atrás de vinganças. Talvez o primeiro filho ilustre daquela terra tenha sido Simão Dias, que nasceu do relacionamento de um francês, vindo como conquistador nas invasões francesas, com uma índia. (Conta meu pai que o nosso tataravô, holandês vindo também nas invasões holandesas, teve esses mesmos rompantes por uma índia com quem se casou, após acha-la perdida no mato, pros lados de Pernambuco. Já a minha avó materna era de origem portuguesa e casou com um cafuzo. Ela, extremamente racista e preconceituosa, nunca admitiu que o meu avô paterno era preto, pra deleite de quem gostava de irrita-la, criticando a cor do meu avô. Minha mãe guarda até hoje uns cacos velhos de porcelana portuguesa, herança de minha avó, que por sua vez, foram herança da mãe dela.). Então, segundo relatos históricos, numa das freqüentes batalhas entre os portugueses e os invasores franceses aliados aos índios no contrabando do pau-brasil, na serra da Cajaíba, o pai de Simão Dias e a índia então grávida dele, fugiram para a região que é hoje Itabaiana. A índia morreu de parto e pai e filho foram alimentados por uma única cabra, no local que hoje é a Igreja Matriz da Cidade. Assim, eles fundaram a vila de Santo Antônio das Almas, século XVII.
Desde então, a região é disputada a ferro e fogo. Até hoje minha mãe diz ter medo de andar numa das praças de Itabaiana, pois tem medo de ser atingida por uma bala qualquer vinda das brigas constantes nas ruas. Isso também é um exagero. As praças de Itabaiana são lindas! Árvores gigantes, das quais os próprios moradores parecem não gostar muito, pois "sujam tudo". E hoje em dia pouco se ouve falar em emboscadas por lá.
Como a cidade onde eu moro fica no caminho entre Aracaju e Itabaiana, sempre dividimos o mesmo transporte público. Às vezes, voltando do colégio em Aracaju eu ficava tentando descobrir se o ônibus era mesmo com destino a Itabaiana, somente pela observação de se havia ou não alguma confusão na hora de entrar no veículo. As brigas eram constantes nas filas, que logo deixaram de existir. E, apesar do capacete ser um dispositivo obrigatório em todo o Brasil para os motoqueiros, lá nunca foi. E nem o cinto de segurança. Cidade com leis próprias, aquela.
Ainda ontem alguém aqui em casa pediu pra eu ir até Itabaiana comprar alguma coisa, no que eu respondi que provavelmente não acharíamos aquilo no comércio de lá. Foi quando meu irmão respondeu brincalhão que possivelmente eles iriam me dizer que realmente não tinham o artigo procurado, mas que eu voltasse à loja na parte da tarde porque eles iriam procurar pra vender. E é assim que tudo funciona por lá.