Tuesday, 20 May 2008

Itabaiana



Não poderia deixar de falar aqui sobre as impressões que tenho dessa cidade, que é a cidade mais importante pro povo do agreste de sergipano: Itabaiana.
Bem, o seu nome já é, por si só, um mistério. A estória mais contada é que existia uma baiana chamada Rita, com problemas de dicção, a quem, possivelmente por maldade, chamavam de "Ita, baiana!". Ela devia ser mesmo bem conhecida na região. De qualquer modo, a teoria mais razoável talvez seja a de uma origem tupi, uma vez que a região era conhecida no século XVI como "Itabaiana Assu" (ita = pedra, morro...; taba = aldeia; oane = alguém; assu = grande). E o fato é que as invasões francesas e holandesas daquela época justificam muito a presença de uma quantidade enorme de pessoas de pele e olhos claros na cidade. O que é, de longe, uma das grandes estranhezas dessa cidade no meio do sertão.
            Indo do litoral até a Serra de Itabaiana, a vegetação é predominantemente mata atlântica, uma região úmida. Mas depois da Serra, onde se situa a cidade, tudo se torna seco, e a caatinga impera no cenário da região.
A cidade é conhecida ainda hoje como a cidade do ouro. Outra estranheza dessa cidade. Sim, porque apesar de nunca se ter retirado sequer uma poeirinha de ouro da Serra de Itabaiana ou de qualquer outra região próxima – e apesar dos vários relatórios dos invasores holandeses sobre as grandes jazidas de ouro e prata na Serra de Itabaiana – a fama da cidade se deve, sobretudo, ao comércio de jóias folheadas a ouro. E o comércio de Itabaiana sempre foi um mistério para muita gente. Nunca existiu crise naquela cidade. A cidade sempre flutuou a meio milímetro do chão real de Sergipe. Enquanto o país passava por crises absurdas, os itabaianenses nunca lançaram mão de vender à vista, e de possuir carros maravilhosos, e de construir palácios para morar – ainda hoje, você não deveria se surpreender se, ao retirar o seu cartão pra pagar a conta, recebesse um sorridente: desculpe moço, a gente não trabalha com cartão! Coisa impensada no Brasil de hoje e de alguns anos atrás, principalmente no nordeste.
As bocas pequenas justificam esse espírito desenvolvido falando sobre as trapaças daquela gente boa (gente inteligente e esforçada, sempre se destacando no que quer que façam). Um fato curioso ocorreu naquela cidade na noite anterior às restrições de acesso às Cadernetas de Poupanças pelo então presidente da república, Fernando Collor de Melo. Mesmo antes da notícia ser anunciada em cadeia nacional sobre o confisco do dinheiro, e sabe-se lá como, os itabaianenses, num golpe certeiro, conseguiram retirar todas as suas economias dos Bancos da cidade. Espertos. E continuaram tendo casas maravilhosas, carros moderníssimos... existe até um bairro lá com o apelido de "Morumbi". Além disso, milhões de motos circulam na cidade, muitas... todas de cor vermelha. Outra doçura dessa cidade.
E os itabaianenses são apelidados pelo resto do estado de "ceboleiros". Disso eu não tenho muito a dizer. É verdade que eles plantam muita cebola, o resto deve ser maldade.
Mesmo porque as pessoas são sempre chiques; lojas com roupas modernas, mesmo mais modernas que aquelas que vemos em Aracaju. Na verdade, muitas pessoas vêem de Aracaju pra comprar nas lojas de Itabaiana. Desde que eu era criança, lembro da dona de uma dessas lojas, conhecida como Maria de Vieira. Minha mãe sempre comprava coisas a ela e eu nunca esqueço das tardes gastas por lá. Obviamente não existia nada pra mim naquela loja que, na época, só pensava em brinquedos, mas algo me atraia ali. E era a própria dona daquela loja, uma senhora alta, grande, chique, elegante, pomposa e que deixava a sensação de que algo de precioso se passava ali, e que me fazia gostar de estar ali. Ainda hoje eu e minha irmã, quando vamos à Itabaiana, gostamos de passar pela frente da sua loja e de reviver (secretamente?) aquela nossa sensação de antes, não sem uma ponta de ternura (ela, a dona, ainda é viva!). Afinal, essa é uma outra doçura de Itabaiana.
Desde cedo, as leis brasileiras nunca funcionaram em Itabaiana, e por muito tempo o coronelismo foi marca registrada da sua vida política: adversários que matam adversários, vinganças atrás de vinganças. Talvez o primeiro filho ilustre daquela terra tenha sido Simão Dias, que nasceu do relacionamento de um francês, vindo como conquistador nas invasões francesas, com uma índia. (Conta meu pai que o nosso tataravô, holandês vindo também nas invasões holandesas, teve esses mesmos rompantes por uma índia com quem se casou, após acha-la perdida no mato, pros lados de Pernambuco. Já a minha avó materna era de origem portuguesa e casou com um cafuzo. Ela, extremamente racista e preconceituosa, nunca admitiu que o meu avô paterno era preto, pra deleite de quem gostava de irrita-la, criticando a cor do meu avô. Minha mãe guarda até hoje uns cacos velhos de porcelana portuguesa, herança de minha avó, que por sua vez, foram herança da mãe dela.). Então, segundo relatos históricos, numa das freqüentes batalhas entre os portugueses e os invasores franceses aliados aos índios no contrabando do pau-brasil, na serra da Cajaíba, o pai de Simão Dias e a índia então grávida dele, fugiram para a região que é hoje Itabaiana. A índia morreu de parto e pai e filho foram alimentados por uma única cabra, no local que hoje é a Igreja Matriz da Cidade. Assim, eles fundaram a vila de Santo Antônio das Almas, século XVII.
Desde então, a região é disputada a ferro e fogo. Até hoje minha mãe diz ter medo de andar numa das praças de Itabaiana, pois tem medo de ser atingida por uma bala qualquer vinda das brigas constantes nas ruas. Isso também é um exagero. As praças de Itabaiana são lindas! Árvores gigantes, das quais os próprios moradores parecem não gostar muito, pois "sujam tudo". E hoje em dia pouco se ouve falar em emboscadas por lá.
Como a cidade onde eu moro fica no caminho entre Aracaju e Itabaiana, sempre dividimos o mesmo transporte público. Às vezes, voltando do colégio em Aracaju eu ficava tentando descobrir se o ônibus era mesmo com destino a Itabaiana, somente pela observação de se havia ou não alguma confusão na hora de entrar no veículo. As brigas eram constantes nas filas, que logo deixaram de existir. E, apesar do capacete ser um dispositivo obrigatório em todo o Brasil para os motoqueiros, lá nunca foi. E nem o cinto de segurança. Cidade com leis próprias, aquela.
Ainda ontem alguém aqui em casa pediu pra eu ir até Itabaiana comprar alguma coisa, no que eu respondi que provavelmente não acharíamos aquilo no comércio de lá. Foi quando meu irmão respondeu brincalhão que possivelmente eles iriam me dizer que realmente não tinham o artigo procurado, mas que eu voltasse à loja na parte da tarde porque eles iriam procurar pra vender. E é assim que tudo funciona por lá.

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