Não poderia deixar de falar aqui sobre as
impressões que tenho dessa cidade, que é a cidade mais importante pro povo do
agreste de sergipano: Itabaiana.
Bem, o seu nome já é, por si só, um mistério. A
estória mais contada é que existia uma baiana chamada Rita, com problemas de
dicção, a quem, possivelmente por maldade, chamavam de "Ita,
baiana!". Ela devia ser mesmo bem conhecida na região. De qualquer modo, a
teoria mais razoável talvez seja a de uma origem tupi, uma vez que a região era
conhecida no século XVI como "Itabaiana Assu" (ita = pedra, morro...;
taba = aldeia; oane = alguém; assu = grande). E o fato é que as invasões
francesas e holandesas daquela época justificam muito a presença de uma
quantidade enorme de pessoas de pele e olhos claros na cidade. O que é, de
longe, uma das grandes estranhezas dessa cidade no meio do sertão.
Indo
do litoral até a Serra de Itabaiana, a vegetação é predominantemente mata
atlântica, uma região úmida. Mas depois da Serra, onde se situa a cidade, tudo
se torna seco, e a caatinga impera no cenário da região.
A cidade é conhecida ainda hoje como a cidade do
ouro. Outra estranheza dessa cidade. Sim, porque apesar de nunca se ter
retirado sequer uma poeirinha de ouro da Serra de Itabaiana ou de qualquer
outra região próxima – e apesar dos vários relatórios dos invasores holandeses
sobre as grandes jazidas de ouro e prata na Serra de Itabaiana – a fama da
cidade se deve, sobretudo, ao comércio de jóias folheadas a ouro. E o comércio
de Itabaiana sempre foi um mistério para muita gente. Nunca existiu crise
naquela cidade. A cidade sempre flutuou a meio milímetro do chão real de
Sergipe. Enquanto o país passava por crises absurdas, os itabaianenses nunca
lançaram mão de vender à vista, e de possuir carros maravilhosos, e de
construir palácios para morar – ainda hoje, você não deveria se surpreender se,
ao retirar o seu cartão pra pagar a conta, recebesse um sorridente: desculpe
moço, a gente não trabalha com cartão! Coisa impensada no Brasil de hoje e de
alguns anos atrás, principalmente no nordeste.
As bocas pequenas justificam esse espírito
desenvolvido falando sobre as trapaças daquela gente boa (gente inteligente e esforçada,
sempre se destacando no que quer que façam). Um fato curioso ocorreu naquela
cidade na noite anterior às restrições de acesso às Cadernetas de Poupanças
pelo então presidente da república, Fernando Collor de Melo. Mesmo antes da
notícia ser anunciada em cadeia nacional sobre o confisco do dinheiro, e
sabe-se lá como, os itabaianenses, num golpe certeiro, conseguiram retirar
todas as suas economias dos Bancos da cidade. Espertos. E continuaram tendo
casas maravilhosas, carros moderníssimos... existe até um bairro lá com o
apelido de "Morumbi". Além disso, milhões de motos circulam na
cidade, muitas... todas de cor vermelha. Outra doçura dessa cidade.
E os itabaianenses são apelidados pelo resto do
estado de "ceboleiros". Disso eu não tenho muito a dizer. É verdade
que eles plantam muita cebola, o resto deve ser maldade.
Mesmo porque as pessoas são sempre chiques; lojas
com roupas modernas, mesmo mais modernas que aquelas que vemos em Aracaju. Na
verdade, muitas pessoas vêem de Aracaju pra comprar nas lojas de Itabaiana.
Desde que eu era criança, lembro da dona de uma dessas lojas, conhecida como
Maria de Vieira. Minha mãe sempre comprava coisas a ela e eu nunca esqueço das
tardes gastas por lá. Obviamente não existia nada pra mim naquela loja que, na época,
só pensava em brinquedos, mas algo me atraia ali. E era a própria dona daquela
loja, uma senhora alta, grande, chique, elegante, pomposa e que deixava a
sensação de que algo de precioso se passava ali, e que me fazia gostar de estar
ali. Ainda hoje eu e minha irmã, quando vamos à Itabaiana, gostamos de passar
pela frente da sua loja e de reviver (secretamente?) aquela nossa sensação de
antes, não sem uma ponta de ternura (ela, a dona, ainda é viva!). Afinal, essa
é uma outra doçura de Itabaiana.
Desde cedo, as leis brasileiras nunca funcionaram
em Itabaiana, e por muito tempo o coronelismo foi marca registrada da sua vida
política: adversários que matam adversários, vinganças atrás de vinganças.
Talvez o primeiro filho ilustre daquela terra tenha sido Simão Dias, que nasceu
do relacionamento de um francês, vindo como conquistador nas invasões
francesas, com uma índia. (Conta meu pai que o nosso tataravô, holandês vindo
também nas invasões holandesas, teve esses mesmos rompantes por uma índia com
quem se casou, após acha-la perdida no mato, pros lados de Pernambuco. Já a
minha avó materna era de origem portuguesa e casou com um cafuzo. Ela,
extremamente racista e preconceituosa, nunca admitiu que o meu avô paterno era
preto, pra deleite de quem gostava de irrita-la, criticando a cor do meu avô.
Minha mãe guarda até hoje uns cacos velhos de porcelana portuguesa, herança de
minha avó, que por sua vez, foram herança da mãe dela.). Então, segundo relatos
históricos, numa das freqüentes batalhas entre os portugueses e os invasores
franceses aliados aos índios no contrabando do pau-brasil, na serra da Cajaíba,
o pai de Simão Dias e a índia então grávida dele, fugiram para a região que é
hoje Itabaiana. A índia morreu de parto e pai e filho foram alimentados por uma
única cabra, no local que hoje é a Igreja Matriz da Cidade. Assim, eles
fundaram a vila de Santo Antônio das Almas, século XVII.
Desde então, a região é disputada a ferro e fogo.
Até hoje minha mãe diz ter medo de andar numa das praças de Itabaiana, pois tem
medo de ser atingida por uma bala qualquer vinda das brigas constantes nas
ruas. Isso também é um exagero. As praças de Itabaiana são lindas! Árvores
gigantes, das quais os próprios moradores parecem não gostar muito, pois
"sujam tudo". E hoje em dia pouco se ouve falar em emboscadas por lá.
Como a cidade onde eu moro fica no caminho entre
Aracaju e Itabaiana, sempre dividimos o mesmo transporte público. Às vezes,
voltando do colégio em Aracaju eu ficava tentando descobrir se o ônibus era
mesmo com destino a Itabaiana, somente pela observação de se havia ou não
alguma confusão na hora de entrar no veículo. As brigas eram constantes nas
filas, que logo deixaram de existir. E, apesar do capacete ser um dispositivo
obrigatório em todo o Brasil para os motoqueiros, lá nunca foi. E nem o cinto
de segurança. Cidade com leis próprias, aquela.
Ainda ontem alguém aqui em casa pediu pra eu ir
até Itabaiana comprar alguma coisa, no que eu respondi que provavelmente não
acharíamos aquilo no comércio de lá. Foi quando meu irmão respondeu brincalhão
que possivelmente eles iriam me dizer que realmente não tinham o artigo
procurado, mas que eu voltasse à loja na parte da tarde porque eles iriam
procurar pra vender. E é assim que tudo funciona por lá.
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