Wednesday, 28 May 2008

Sexo I


Depois que eu descobri a Anaïs Nin, nunca mais deixei de ler tudo que encontrava dela por ai. Um amigo, tempos atrás, me deu de presente "Les petits oiseaux" (Pequenos pássaros), seu livro de contos eróticos, no meio de uma pilha de outros livros. Sempre passava por ele sem nunca me decidir definitivamente por o tirar da pilha e me dedicar a sua leitura. Tampouco sabia que se tratava de um livro erótico! Foi quando, um dia, durante minha aula de inglês com o Mr Jonas – tenho saudades desse cara gente finíssima – surgiu o nome dessa escritora. Logo me veio a idéia de que eu já tinha visto aquele nome em algum lugar. Ao chegar em casa, encontrei feliz o livro dela sob outros exemplares empoeirados.

A história dela é um tanto interessante. Nasceu na França no início do século passado e começou a escrever, aos doze anos de idade, várias pequenas histórias em seu diário; boa parte delas com um apelo erótico imenso. É verdade que ela dava pra todo mundo, mas só deixou que seus diários fossem publicados após a morte do seu primeiro marido. Li não sei onde que foi a sua filha quem descobriu esses diários secretamente guardados sob a cama da mãe. Eu gosto da doçura com que ela trata dessas questões de sexualidade. Acho que foi um bom início pra mim. E recomendo que todos a leiam, sobretudo esse livro. Textos do início do século, mas incrivelmente atuais. Na verdade, o sexo é sempre contemporâneo.

Muito antes de ler a Anaïs Nin, lembro de ter lido a reunião de contos "Onde estiveste de noite" da Clarice Lispector. Ao contrário da Anaïs, a Clarice (como ela mesmo confessou tempos depois) se sentiu obrigada a escrever sobre sexo: tudo se tratou de uma proposta do editor como forma dela ganhar mais dinheiro. Sim, por que se é algo que gera dinheiro no Brasil, é exatamente escancarar o verbo falando sobre sexualidade, e se for da sua própria sexualidade então. Não que a Clarice não saiba falar de sexo – ela sabe muito mais que nós, por exemplo, mas suas frases são sempre cheias ainda de um preconceito escondido e aquela nuvenzinha que ela coloca na frente de cada estória acaba por cansar um pouco. Talvez porque eu esperasse outra coisa dela. Talvez porque eu tenha aprendido pouco a pouco que a gente não precisa estar sempre dentro de tantas nuvens. Talvez porque eu ache que deveríamos mesmo jogar sexo no ventilador. Talvez porque eu tenha percebido logo a enormidade de "lixo católico" que vinha atrás de mim, e que me impedia de pensar. Eu entrei três vezes na Primeira Comunhão, mas não consegui terminar nenhuma delas. Sempre me inquietava bastante ter de decorar aquelas questões idiotas (muitas eu não conseguia entender patavina), e que iam ser usadas pelo padre para dizer que eu poderia comer a hóstia (na minha cabeça, precisávamos da primeira comunhão somente pra comer a hóstia, que eu achava lindo, diga-se de passagem). Mas um dia eu e o Cristiano (amigo do peito de minha infância, morto num acidente de carro ano passado) encontramos restos de hóstias no quintal da paróquia da cidade e resolvemos comer tudo. Depois disso, eu nunca conseguiria dizer pro padre que nunca tinha tocado no corpo de cristo. Aquilo era segredo, só nosso.

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