Wednesday, 20 January 2010

Podwójne życie Weroniki


Ontem a noite resolvi rever esse filme de que eu gosto muito, somente por causa do final: “La double vie de Véronique” (A dupla vida de Véronique) do Krzysztof Kieślowski. Algumas pessoas próximas a mim sabem que eu tenho uma preferência anormal pelo início dos filmes ao invés dos finais. Mas nesse filme, o final não é bem um final. Comecei a me segurar na cadeira do cinema quando, após sentir o fim iminente do filme, vi a personagem da Irène Jacob estacionando o carro do lado de uma árvore... (o filme foi re-lançando em 2006). Ela abre lentamente o vidro do carro e toca suavemente o tronco da árvore, como se aquele fosse um ser que guardou todos os seus segredos a vida inteira. Ao mesmo tempo, de um silêncio aterrador daqueles que só no cinema podemos sentir, a cena é cortada brutalmente para mostrar o seu pai serrando um pedaço de madeira na sua oficina. De repente ele desliga a serra e ainda com a cabeça baixa, parece se dar conta de tudo o que se passou. Atônito, como quando a gente descobre algo de que não podemos mais mudar o destino, senão continuar sentindo aquilo que chamamos de impotência, a música de Zbigniew Preisner nos vai tomando tudo, tudo. Porque pra nós, também a verdade do filme nos foi arrancada violentamente. Em 2007 eu fui ver quase todos os filmes do Kieślowski na festival do Rio – houve uma homenagem a ele. E é engraçado que naquela época eu também tenha ficado com a impressão que ele nos rouba muito durante seus filmes. Recentemente, vi uma entrevista do Saverio Stanzo falando sobre o Kieślowski e logo percebi sua inspiração em “In memoria di me”. O mais engraçado disso tudo é que eu tenho vontade de escrever sobre isso aqui nesse blog, apesar de saber que vocês não estão nem um pouco a fim de saberem sobre isso. Mas continuo falando, porque eu possuo, eu também, esse gosto pelas verdades mais escondidas e, de certo modo, inúteis.

Tuesday, 5 January 2010

Ensaio: Os segredos de Ediléia e Adegivaldo



Ediléia sempre chupava picolé sentada na calçada do colégio onde estudava, mesmo quando não tinha aula. Ela sentia um sabor mais doce sentada ali do que quando era obrigada pela mãe a retornar com o picolé na mão, e chupá-lo na calçada de casa. Irritava-lhe bastante o fato de precisar dividi-lo com os irmãos que nem sequer compartilhavam seu gosto pelo sabor morango. Ela nem sabia que morango era uma fruta. Na verdade, ela sempre pensou que morango era o pó do Dipilique que ela e Adegivaldo disputavam na hora do recreio. Adegivaldo tinha a mesma idade de Ediléia. Viviam catando tanajuras nas épocas de chuva, e disputavam alegremente quem seria o primeiro a encher uma garrafa de vidro de coca-cola com esses bichinhos indefesos. Às vezes, eles esqueciam que algumas tanajuras estavam vivas e, ao voltar pela manhã ao local onde guardaram seus tesouros, a garrafa estava pela metade. A briga entre os dois recomeçava, pois um desconfiava da seriedade do outro.
O que mais impressionava Adegivaldo era que Ediléia nunca perdia essas disputas, mesmo se ela tinha muito medo de tanajura. Mesmo se ela passava a maior parte do seu tempo chupando picolé na calçada. Mesmo se ela não o acompanhava durante as grandes caçadas aos pequenos insetos. De fato, eu sei algo que o Adegivaldo jamais imaginaria, mas não tenho permissão pra entrar assim na vida dos dois mais do eu já entrei. O que eu posso é contar que Ediléia guardava um segredo embaixo da cama e outro no seu coraçãozinho de brinquedo. Ela ia todas as manhãs de férias à biblioteca e sentava-se na última cadeira atrás da última estante de livros. A biblioteca não era grande, mas era suficiente para encher a cabeça dela de novidades sobre o mundo. O que ela mais gostava, era de descobrir o corpo por dentro e de saber das histórias de outros lugares. Ela confundia ligeiramente as coisas e imaginava mesmo que eram apenas estórias, tal qual àquelas contadas antes de dormir pelo seu avô.
Esqueci de dizer que o Adegivaldo sabia desse último segredo de Ediléia. Mas ele, menino discreto que era, jamais iria tocar nesse assunto se a própria amiga não o fizesse. Um dia, com a bicicleta quebrada no oitão de casa, ele passou pela frente da biblioteca a pé e fazendo o que sempre gostava de fazer naquela situação, subiu na janela pra jogar uma pedrinha na mesa da bibliotecária, a Berenice, que, de susto, sempre soltava um grito que ele adorava ouvir. Era um grito engraçado que ele tinha tentado uma vez reproduzir sem sucesso. Mas nesse dia, ao subir na janela, ele viu Ediléia andando apressada com um livro grosso na mão em direção ao fundo da biblioteca. Naquele instante, ele desistiu de jogar a pedrinha, para não chamar atenção. Desistiu também de ir jogar bola com os amigos e voltou pra casa pensativo, quase traído. Algo estava errado: então era pra lá que ela ia quando recusava de brincar na rua com os outros. Adegivaldo, por mais que tentasse, não conseguia ir além daquela visão.
Certa vez Ediléia ouvira o pai comentar com a mãe que a Berenice andava envolvida com homem casado e não queria nenhum filho indo pros lados da biblioteca. Apesar da mãe nunca ter dito nada a esse respeito, ela preferia continuar indo à Biblioteca em segredo. Mas Ediléia não falava sobre os seus dois segredos, não por medo do pensamento das pessoas ao seu redor, mas porque ela achava que todos deviam possuir seus próprios segredos. Quando Adegivaldo se recusava a explicar-lhe alguma coisa, ela se enchia de raiva e logo depois, de uma alegria tamanha, como se aquilo justificasse os seus próprios segredos. E se ela um dia imaginasse que Adegivaldo sabia de um deles, ela seria outra pessoa. Ficaria de mal com dele. Não teria como brincar das mesmas coisas. Adegivaldo sabia disso. Jamais iria se privar da amizade de Ediléia. Ele, que já beijara sorrateiramente uma ex-amiga de Ediléia, pela qual sentia um sentimento feliz e difícil de explicar, decidira secretamente que um dia se casaria com ela, mas que jamais abandonaria Ediléia.
Esse era um dos segredos do Adegivaldo, do qual Ediléia também sabia intimamente. Não sei ao certo se devo contar a vocês outra coisa; é que Ediléia guardava o mesmo sentimento por Adegivaldo. E gostaria de um dia casar-se com ele. Tinha até mesmo deixado de sentar na mesma carteira da sua rival no dia em que descobriu Adegivaldo segurando docemente sua mão no recreio.
Certo dia, os pais de Ediléia precisaram mudar para outra cidade, pros lados de Maceió, e ela foi obrigada a ir junto com eles. Apesar de ter sido informado sobre a data e hora da partida, Adegivaldo não apareceu na rodoviária para a despedida. Ediléia, por sua vez, tinha informado propositalmente ao amigo uma data errada de partida. Cada um, ao seu modo, evitava a revelação dos seus segredos mais profundos: àqueles que na despedida se transformam em pura dor.

to my friend Zé Vitor

Sunday, 3 January 2010

Padrinho, eu?


Ontem eu fui convidado pra um casamento. Para ser padrinho de casamento, mais precisamente falando. As pessoas parecem gostar de me ver sofrer. Eu sei que deveria tomar isso como um presente, e na verdade, sinto assim, mas o fato é que eu me acho muito desajeitado pra fazer essas coisas oficiais. Além disso, eu não vou à igreja desde que fui padrinho de uma amiga que casou aqui na igrejinha de Areia Branca há quase uns 10 anos atrás. Ou seja, não sei mais nada de igreja, nem as rezas, nada... é verdade que morando por aqui vou acabar aprendendo de novo por que na frente dessa igrejinha tão singela tem um alto-falante que transmite a missa em tempo real para todos os habitantes do centro da cidade. Então hoje de manhã, toca o telefone e eu, após ver uma chamada internacional, atendi com o coração na mão porque acabo pagando uma fortuna. O que é um absurdo. Eles pagam de lá e eu preciso pagar aqui! Onde foi que já se viu? Então, era um amigo meu me convidado pro seu casamento. Na verdade, pra eu ser seu padrinho. Comprei um terno e nunca vesti. Nem sei quando vou vesti-lo. Ontem vi uma entrevista na TV do William Bonner dizendo que nunca quis usar terno na sua vida cotidiana, mas que ele sempre era apresentado a pessoas importantes e ficava se sentindo ridículo estando de tênis. É verdade que a gente pode se sentir ridículo por muito pouco. É o meu caso quando tenho que ir à igreja. Continuando... esse meu amigo esta se casando com um outro amigo meu. Isso mesmo, dois rapazes machos pra cacete indo se casar! Não resisti e perguntei quem vai com o véu. Ele sorriu e disse que já não podem mais usar o véu. Dois impuros, o padre iria pensar! Mas na verdade eles não vão casar na igreja... a igreja não acredita no amor entre pessoas do mesmo sexo. Não tenho certeza nem mesmo se ela acredita no amor. Aliás, a igreja acredita em muito pouca coisa de útil. Quando voltei da França, os dois estavam começando um relacionamento e agora já vão casar. Por que as pessoas gostam tanto de casar? Bem, o fato é que deve ser meio triste um casamento sem uma noiva de branco se enchendo de arroz na saída da igreja. Mas talvez isso seja só uma questão de ponto de vista. Imagine que pode ser muito interessante não ter que agüentar o choro da noiva horas antes de sair de casa, ou ter que ter sempre alguém pra levantar aquele vestido quilométrico. Mas o que é o melhor de tudo: um casamento sem atraso! Falei pra ele que aceitaria o convite se o casamento fosse aqui, porque nesses tempos ando enjoado da França. Provavelmente eles virão aqui me fazer uma visita. Perguntaram se poderiam andar de mãos dadas na rua aqui, e eu me senti ridículo quando tive que explicar que aqui provavelmente eles não iriam muito longe de mãos dadas na rua. É um pouco triste saber que as pessoas podem ser tão ignorantes e tão graves com coisas simples. Lembro de uma personagem de um livro que sempre repetia ao longo do texto: o atraso! Hoje eu vi na TV a propaganda do MEC incentivando as pessoas a serem professores. Como assim gente? Em que mundo a gente vive? Isso sim é o fim do mundo. Um final tão ridículo que nem tenho vontade de puxar a cadeira pra ver. Ao contrário desse casamento, que eu adoraria ver. Ele será exatamente o inverso daquilo que se chama de ridículo.