Ontem a noite resolvi rever esse filme de que eu gosto muito, somente por causa do final: “La double vie de Véronique” (A dupla vida de Véronique) do Krzysztof Kieślowski. Algumas pessoas próximas a mim sabem que eu tenho uma preferência anormal pelo início dos filmes ao invés dos finais. Mas nesse filme, o final não é bem um final. Comecei a me segurar na cadeira do cinema quando, após sentir o fim iminente do filme, vi a personagem da Irène Jacob estacionando o carro do lado de uma árvore... (o filme foi re-lançando em 2006). Ela abre lentamente o vidro do carro e toca suavemente o tronco da árvore, como se aquele fosse um ser que guardou todos os seus segredos a vida inteira. Ao mesmo tempo, de um silêncio aterrador daqueles que só no cinema podemos sentir, a cena é cortada brutalmente para mostrar o seu pai serrando um pedaço de madeira na sua oficina. De repente ele desliga a serra e ainda com a cabeça baixa, parece se dar conta de tudo o que se passou. Atônito, como quando a gente descobre algo de que não podemos mais mudar o destino, senão continuar sentindo aquilo que chamamos de impotência, a música de Zbigniew Preisner nos vai tomando tudo, tudo. Porque pra nós, também a verdade do filme nos foi arrancada violentamente. Em 2007 eu fui ver quase todos os filmes do Kieślowski na festival do Rio – houve uma homenagem a ele. E é engraçado que naquela época eu também tenha ficado com a impressão que ele nos rouba muito durante seus filmes. Recentemente, vi uma entrevista do Saverio Stanzo falando sobre o Kieślowski e logo percebi sua inspiração em “In memoria di me”. O mais engraçado disso tudo é que eu tenho vontade de escrever sobre isso aqui nesse blog, apesar de saber que vocês não estão nem um pouco a fim de saberem sobre isso. Mas continuo falando, porque eu possuo, eu também, esse gosto pelas verdades mais escondidas e, de certo modo, inúteis.
Wednesday, 20 January 2010
Tuesday, 5 January 2010
Ensaio: Os segredos de Ediléia e Adegivaldo
Ediléia sempre chupava picolé sentada na calçada do
colégio onde estudava, mesmo quando não tinha aula. Ela sentia um sabor mais
doce sentada ali do que quando era obrigada pela mãe a retornar com o picolé na
mão, e chupá-lo na calçada de casa. Irritava-lhe bastante o fato de precisar
dividi-lo com os irmãos que nem sequer compartilhavam seu gosto pelo sabor
morango. Ela nem sabia que morango era uma fruta. Na verdade, ela sempre pensou
que morango era o pó do Dipilique que ela e Adegivaldo disputavam na hora do
recreio. Adegivaldo tinha a mesma idade de Ediléia. Viviam catando tanajuras
nas épocas de chuva, e disputavam alegremente quem seria o primeiro a encher
uma garrafa de vidro de coca-cola com esses bichinhos indefesos. Às vezes, eles
esqueciam que algumas tanajuras estavam vivas e, ao voltar pela manhã ao local
onde guardaram seus tesouros, a garrafa estava pela metade. A briga entre os
dois recomeçava, pois um desconfiava da seriedade do outro.
O que mais impressionava Adegivaldo era que Ediléia
nunca perdia essas disputas, mesmo se ela tinha muito medo de tanajura. Mesmo se
ela passava a maior parte do seu tempo chupando picolé na calçada. Mesmo se ela
não o acompanhava durante as grandes caçadas aos pequenos insetos. De fato, eu
sei algo que o Adegivaldo jamais imaginaria, mas não tenho permissão pra entrar
assim na vida dos dois mais do eu já entrei. O que eu posso é contar que
Ediléia guardava um segredo embaixo da cama e outro no seu coraçãozinho de
brinquedo. Ela ia todas as manhãs de férias à biblioteca e sentava-se na última
cadeira atrás da última estante de livros. A biblioteca não era grande, mas era
suficiente para encher a cabeça dela de novidades sobre o mundo. O que ela mais
gostava, era de descobrir o corpo por dentro e de saber das histórias de outros
lugares. Ela confundia ligeiramente as coisas e imaginava mesmo que eram apenas
estórias, tal qual àquelas contadas antes de dormir pelo seu avô.
Esqueci de dizer que o Adegivaldo sabia desse último
segredo de Ediléia. Mas ele, menino discreto que era, jamais iria tocar nesse
assunto se a própria amiga não o fizesse. Um dia, com a bicicleta quebrada no
oitão de casa, ele passou pela frente da biblioteca a pé e fazendo o que sempre
gostava de fazer naquela situação, subiu na janela pra jogar uma pedrinha na
mesa da bibliotecária, a Berenice, que, de susto, sempre soltava um grito que
ele adorava ouvir. Era um grito engraçado que ele tinha tentado uma vez
reproduzir sem sucesso. Mas nesse dia, ao subir na janela, ele viu Ediléia andando
apressada com um livro grosso na mão em direção ao fundo da biblioteca. Naquele
instante, ele desistiu de jogar a pedrinha, para não chamar atenção. Desistiu
também de ir jogar bola com os amigos e voltou pra casa pensativo, quase
traído. Algo estava errado: então era pra lá que ela ia quando recusava de
brincar na rua com os outros. Adegivaldo, por mais que tentasse, não conseguia
ir além daquela visão.
Certa vez Ediléia ouvira o pai comentar com a mãe que
a Berenice andava envolvida com homem casado e não queria nenhum filho indo
pros lados da biblioteca. Apesar da mãe nunca ter dito nada a esse respeito,
ela preferia continuar indo à Biblioteca em segredo. Mas Ediléia não falava
sobre os seus dois segredos, não por medo do pensamento das pessoas ao seu
redor, mas porque ela achava que todos deviam possuir seus próprios segredos.
Quando Adegivaldo se recusava a explicar-lhe alguma coisa, ela se enchia de raiva
e logo depois, de uma alegria tamanha, como se aquilo justificasse os seus
próprios segredos. E se ela um dia imaginasse que Adegivaldo sabia de um deles,
ela seria outra pessoa. Ficaria de mal com dele. Não teria como brincar das
mesmas coisas. Adegivaldo sabia disso. Jamais iria se privar da amizade de
Ediléia. Ele, que já beijara sorrateiramente uma ex-amiga de Ediléia, pela qual
sentia um sentimento feliz e difícil de explicar, decidira secretamente que um
dia se casaria com ela, mas que jamais abandonaria Ediléia.
Esse era um dos segredos do Adegivaldo, do qual
Ediléia também sabia intimamente. Não sei ao certo se devo contar a vocês outra
coisa; é que Ediléia guardava o mesmo sentimento por Adegivaldo. E gostaria de
um dia casar-se com ele. Tinha até mesmo deixado de sentar na mesma carteira da
sua rival no dia em que descobriu Adegivaldo segurando docemente sua mão no
recreio.
Certo dia, os pais de Ediléia precisaram mudar para
outra cidade, pros lados de Maceió, e ela foi obrigada a ir junto com eles. Apesar
de ter sido informado sobre a data e hora da partida, Adegivaldo não apareceu
na rodoviária para a despedida. Ediléia, por sua vez, tinha informado
propositalmente ao amigo uma data errada de partida. Cada um, ao seu modo, evitava
a revelação dos seus segredos mais profundos: àqueles que na despedida se
transformam em pura dor.
Sunday, 3 January 2010
Padrinho, eu?
Ontem eu fui convidado pra um casamento. Para
ser padrinho de casamento, mais precisamente falando. As pessoas parecem gostar
de me ver sofrer. Eu sei que deveria tomar isso como um presente, e na verdade,
sinto assim, mas o fato é que eu me acho muito desajeitado pra fazer essas
coisas oficiais. Além disso, eu não vou à igreja desde que fui padrinho de uma
amiga que casou aqui na igrejinha de Areia Branca há quase uns 10 anos atrás.
Ou seja, não sei mais nada de igreja, nem as rezas, nada... é verdade que
morando por aqui vou acabar aprendendo de novo por que na frente dessa
igrejinha tão singela tem um alto-falante que transmite a missa em tempo real
para todos os habitantes do centro da cidade. Então hoje de manhã, toca o
telefone e eu, após ver uma chamada internacional, atendi com o coração na mão
porque acabo pagando uma fortuna. O que é um absurdo. Eles pagam de lá e eu
preciso pagar aqui! Onde foi que já se viu? Então, era um amigo meu me
convidado pro seu casamento. Na verdade, pra eu ser seu padrinho. Comprei um
terno e nunca vesti. Nem sei quando vou vesti-lo. Ontem vi uma entrevista na TV
do William Bonner dizendo que nunca quis usar terno na sua vida cotidiana, mas
que ele sempre era apresentado a pessoas importantes e ficava se sentindo
ridículo estando de tênis. É verdade que a gente pode se sentir ridículo por muito
pouco. É o meu caso quando tenho que ir à igreja. Continuando... esse meu amigo
esta se casando com um outro amigo meu. Isso mesmo, dois rapazes machos pra
cacete indo se casar! Não resisti e perguntei quem vai com o véu. Ele sorriu e
disse que já não podem mais usar o véu. Dois impuros, o padre iria pensar! Mas
na verdade eles não vão casar na igreja... a igreja não acredita no amor entre
pessoas do mesmo sexo. Não tenho certeza nem mesmo se ela acredita no amor.
Aliás, a igreja acredita em muito pouca coisa de útil. Quando voltei da França,
os dois estavam começando um relacionamento e agora já vão casar. Por que as
pessoas gostam tanto de casar? Bem, o fato é que deve ser meio triste um
casamento sem uma noiva de branco se enchendo de arroz na saída da igreja. Mas
talvez isso seja só uma questão de ponto de vista. Imagine que pode ser muito
interessante não ter que agüentar o choro da noiva horas antes de sair de casa,
ou ter que ter sempre alguém pra levantar aquele vestido quilométrico. Mas o
que é o melhor de tudo: um casamento sem atraso! Falei pra ele que aceitaria o
convite se o casamento fosse aqui, porque nesses tempos ando enjoado da França.
Provavelmente eles virão aqui me fazer uma visita. Perguntaram se poderiam
andar de mãos dadas na rua aqui, e eu me senti ridículo quando tive que
explicar que aqui provavelmente eles não iriam muito longe de mãos dadas na
rua. É um pouco triste saber que as pessoas podem ser tão ignorantes e tão
graves com coisas simples. Lembro de uma personagem de um livro que sempre
repetia ao longo do texto: o atraso! Hoje eu vi na TV a propaganda do MEC
incentivando as pessoas a serem professores. Como assim gente? Em que mundo a
gente vive? Isso sim é o fim do mundo. Um final tão ridículo que nem tenho
vontade de puxar a cadeira pra ver. Ao contrário desse casamento, que eu
adoraria ver. Ele será exatamente o inverso daquilo que se chama de ridículo.
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