Ontem a noite resolvi rever esse filme de que eu gosto muito, somente por causa do final: “La double vie de Véronique” (A dupla vida de Véronique) do Krzysztof Kieślowski. Algumas pessoas próximas a mim sabem que eu tenho uma preferência anormal pelo início dos filmes ao invés dos finais. Mas nesse filme, o final não é bem um final. Comecei a me segurar na cadeira do cinema quando, após sentir o fim iminente do filme, vi a personagem da Irène Jacob estacionando o carro do lado de uma árvore... (o filme foi re-lançando em 2006). Ela abre lentamente o vidro do carro e toca suavemente o tronco da árvore, como se aquele fosse um ser que guardou todos os seus segredos a vida inteira. Ao mesmo tempo, de um silêncio aterrador daqueles que só no cinema podemos sentir, a cena é cortada brutalmente para mostrar o seu pai serrando um pedaço de madeira na sua oficina. De repente ele desliga a serra e ainda com a cabeça baixa, parece se dar conta de tudo o que se passou. Atônito, como quando a gente descobre algo de que não podemos mais mudar o destino, senão continuar sentindo aquilo que chamamos de impotência, a música de Zbigniew Preisner nos vai tomando tudo, tudo. Porque pra nós, também a verdade do filme nos foi arrancada violentamente. Em 2007 eu fui ver quase todos os filmes do Kieślowski na festival do Rio – houve uma homenagem a ele. E é engraçado que naquela época eu também tenha ficado com a impressão que ele nos rouba muito durante seus filmes. Recentemente, vi uma entrevista do Saverio Stanzo falando sobre o Kieślowski e logo percebi sua inspiração em “In memoria di me”. O mais engraçado disso tudo é que eu tenho vontade de escrever sobre isso aqui nesse blog, apesar de saber que vocês não estão nem um pouco a fim de saberem sobre isso. Mas continuo falando, porque eu possuo, eu também, esse gosto pelas verdades mais escondidas e, de certo modo, inúteis.
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