Tuesday, 5 January 2010

Ensaio: Os segredos de Ediléia e Adegivaldo



Ediléia sempre chupava picolé sentada na calçada do colégio onde estudava, mesmo quando não tinha aula. Ela sentia um sabor mais doce sentada ali do que quando era obrigada pela mãe a retornar com o picolé na mão, e chupá-lo na calçada de casa. Irritava-lhe bastante o fato de precisar dividi-lo com os irmãos que nem sequer compartilhavam seu gosto pelo sabor morango. Ela nem sabia que morango era uma fruta. Na verdade, ela sempre pensou que morango era o pó do Dipilique que ela e Adegivaldo disputavam na hora do recreio. Adegivaldo tinha a mesma idade de Ediléia. Viviam catando tanajuras nas épocas de chuva, e disputavam alegremente quem seria o primeiro a encher uma garrafa de vidro de coca-cola com esses bichinhos indefesos. Às vezes, eles esqueciam que algumas tanajuras estavam vivas e, ao voltar pela manhã ao local onde guardaram seus tesouros, a garrafa estava pela metade. A briga entre os dois recomeçava, pois um desconfiava da seriedade do outro.
O que mais impressionava Adegivaldo era que Ediléia nunca perdia essas disputas, mesmo se ela tinha muito medo de tanajura. Mesmo se ela passava a maior parte do seu tempo chupando picolé na calçada. Mesmo se ela não o acompanhava durante as grandes caçadas aos pequenos insetos. De fato, eu sei algo que o Adegivaldo jamais imaginaria, mas não tenho permissão pra entrar assim na vida dos dois mais do eu já entrei. O que eu posso é contar que Ediléia guardava um segredo embaixo da cama e outro no seu coraçãozinho de brinquedo. Ela ia todas as manhãs de férias à biblioteca e sentava-se na última cadeira atrás da última estante de livros. A biblioteca não era grande, mas era suficiente para encher a cabeça dela de novidades sobre o mundo. O que ela mais gostava, era de descobrir o corpo por dentro e de saber das histórias de outros lugares. Ela confundia ligeiramente as coisas e imaginava mesmo que eram apenas estórias, tal qual àquelas contadas antes de dormir pelo seu avô.
Esqueci de dizer que o Adegivaldo sabia desse último segredo de Ediléia. Mas ele, menino discreto que era, jamais iria tocar nesse assunto se a própria amiga não o fizesse. Um dia, com a bicicleta quebrada no oitão de casa, ele passou pela frente da biblioteca a pé e fazendo o que sempre gostava de fazer naquela situação, subiu na janela pra jogar uma pedrinha na mesa da bibliotecária, a Berenice, que, de susto, sempre soltava um grito que ele adorava ouvir. Era um grito engraçado que ele tinha tentado uma vez reproduzir sem sucesso. Mas nesse dia, ao subir na janela, ele viu Ediléia andando apressada com um livro grosso na mão em direção ao fundo da biblioteca. Naquele instante, ele desistiu de jogar a pedrinha, para não chamar atenção. Desistiu também de ir jogar bola com os amigos e voltou pra casa pensativo, quase traído. Algo estava errado: então era pra lá que ela ia quando recusava de brincar na rua com os outros. Adegivaldo, por mais que tentasse, não conseguia ir além daquela visão.
Certa vez Ediléia ouvira o pai comentar com a mãe que a Berenice andava envolvida com homem casado e não queria nenhum filho indo pros lados da biblioteca. Apesar da mãe nunca ter dito nada a esse respeito, ela preferia continuar indo à Biblioteca em segredo. Mas Ediléia não falava sobre os seus dois segredos, não por medo do pensamento das pessoas ao seu redor, mas porque ela achava que todos deviam possuir seus próprios segredos. Quando Adegivaldo se recusava a explicar-lhe alguma coisa, ela se enchia de raiva e logo depois, de uma alegria tamanha, como se aquilo justificasse os seus próprios segredos. E se ela um dia imaginasse que Adegivaldo sabia de um deles, ela seria outra pessoa. Ficaria de mal com dele. Não teria como brincar das mesmas coisas. Adegivaldo sabia disso. Jamais iria se privar da amizade de Ediléia. Ele, que já beijara sorrateiramente uma ex-amiga de Ediléia, pela qual sentia um sentimento feliz e difícil de explicar, decidira secretamente que um dia se casaria com ela, mas que jamais abandonaria Ediléia.
Esse era um dos segredos do Adegivaldo, do qual Ediléia também sabia intimamente. Não sei ao certo se devo contar a vocês outra coisa; é que Ediléia guardava o mesmo sentimento por Adegivaldo. E gostaria de um dia casar-se com ele. Tinha até mesmo deixado de sentar na mesma carteira da sua rival no dia em que descobriu Adegivaldo segurando docemente sua mão no recreio.
Certo dia, os pais de Ediléia precisaram mudar para outra cidade, pros lados de Maceió, e ela foi obrigada a ir junto com eles. Apesar de ter sido informado sobre a data e hora da partida, Adegivaldo não apareceu na rodoviária para a despedida. Ediléia, por sua vez, tinha informado propositalmente ao amigo uma data errada de partida. Cada um, ao seu modo, evitava a revelação dos seus segredos mais profundos: àqueles que na despedida se transformam em pura dor.

to my friend Zé Vitor

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