Ediléia sempre chupava picolé sentada na calçada do
colégio onde estudava, mesmo quando não tinha aula. Ela sentia um sabor mais
doce sentada ali do que quando era obrigada pela mãe a retornar com o picolé na
mão, e chupá-lo na calçada de casa. Irritava-lhe bastante o fato de precisar
dividi-lo com os irmãos que nem sequer compartilhavam seu gosto pelo sabor
morango. Ela nem sabia que morango era uma fruta. Na verdade, ela sempre pensou
que morango era o pó do Dipilique que ela e Adegivaldo disputavam na hora do
recreio. Adegivaldo tinha a mesma idade de Ediléia. Viviam catando tanajuras
nas épocas de chuva, e disputavam alegremente quem seria o primeiro a encher
uma garrafa de vidro de coca-cola com esses bichinhos indefesos. Às vezes, eles
esqueciam que algumas tanajuras estavam vivas e, ao voltar pela manhã ao local
onde guardaram seus tesouros, a garrafa estava pela metade. A briga entre os
dois recomeçava, pois um desconfiava da seriedade do outro.
O que mais impressionava Adegivaldo era que Ediléia
nunca perdia essas disputas, mesmo se ela tinha muito medo de tanajura. Mesmo se
ela passava a maior parte do seu tempo chupando picolé na calçada. Mesmo se ela
não o acompanhava durante as grandes caçadas aos pequenos insetos. De fato, eu
sei algo que o Adegivaldo jamais imaginaria, mas não tenho permissão pra entrar
assim na vida dos dois mais do eu já entrei. O que eu posso é contar que
Ediléia guardava um segredo embaixo da cama e outro no seu coraçãozinho de
brinquedo. Ela ia todas as manhãs de férias à biblioteca e sentava-se na última
cadeira atrás da última estante de livros. A biblioteca não era grande, mas era
suficiente para encher a cabeça dela de novidades sobre o mundo. O que ela mais
gostava, era de descobrir o corpo por dentro e de saber das histórias de outros
lugares. Ela confundia ligeiramente as coisas e imaginava mesmo que eram apenas
estórias, tal qual àquelas contadas antes de dormir pelo seu avô.
Esqueci de dizer que o Adegivaldo sabia desse último
segredo de Ediléia. Mas ele, menino discreto que era, jamais iria tocar nesse
assunto se a própria amiga não o fizesse. Um dia, com a bicicleta quebrada no
oitão de casa, ele passou pela frente da biblioteca a pé e fazendo o que sempre
gostava de fazer naquela situação, subiu na janela pra jogar uma pedrinha na
mesa da bibliotecária, a Berenice, que, de susto, sempre soltava um grito que
ele adorava ouvir. Era um grito engraçado que ele tinha tentado uma vez
reproduzir sem sucesso. Mas nesse dia, ao subir na janela, ele viu Ediléia andando
apressada com um livro grosso na mão em direção ao fundo da biblioteca. Naquele
instante, ele desistiu de jogar a pedrinha, para não chamar atenção. Desistiu
também de ir jogar bola com os amigos e voltou pra casa pensativo, quase
traído. Algo estava errado: então era pra lá que ela ia quando recusava de
brincar na rua com os outros. Adegivaldo, por mais que tentasse, não conseguia
ir além daquela visão.
Certa vez Ediléia ouvira o pai comentar com a mãe que
a Berenice andava envolvida com homem casado e não queria nenhum filho indo
pros lados da biblioteca. Apesar da mãe nunca ter dito nada a esse respeito,
ela preferia continuar indo à Biblioteca em segredo. Mas Ediléia não falava
sobre os seus dois segredos, não por medo do pensamento das pessoas ao seu
redor, mas porque ela achava que todos deviam possuir seus próprios segredos.
Quando Adegivaldo se recusava a explicar-lhe alguma coisa, ela se enchia de raiva
e logo depois, de uma alegria tamanha, como se aquilo justificasse os seus
próprios segredos. E se ela um dia imaginasse que Adegivaldo sabia de um deles,
ela seria outra pessoa. Ficaria de mal com dele. Não teria como brincar das
mesmas coisas. Adegivaldo sabia disso. Jamais iria se privar da amizade de
Ediléia. Ele, que já beijara sorrateiramente uma ex-amiga de Ediléia, pela qual
sentia um sentimento feliz e difícil de explicar, decidira secretamente que um
dia se casaria com ela, mas que jamais abandonaria Ediléia.
Esse era um dos segredos do Adegivaldo, do qual
Ediléia também sabia intimamente. Não sei ao certo se devo contar a vocês outra
coisa; é que Ediléia guardava o mesmo sentimento por Adegivaldo. E gostaria de
um dia casar-se com ele. Tinha até mesmo deixado de sentar na mesma carteira da
sua rival no dia em que descobriu Adegivaldo segurando docemente sua mão no
recreio.
Certo dia, os pais de Ediléia precisaram mudar para
outra cidade, pros lados de Maceió, e ela foi obrigada a ir junto com eles. Apesar
de ter sido informado sobre a data e hora da partida, Adegivaldo não apareceu
na rodoviária para a despedida. Ediléia, por sua vez, tinha informado
propositalmente ao amigo uma data errada de partida. Cada um, ao seu modo, evitava
a revelação dos seus segredos mais profundos: àqueles que na despedida se
transformam em pura dor.
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