Hoje, um polonês de Cracóvia me acompanhou por alguns quilômetros, voltando da Universidade, de bicicleta. Já eram 19h30, uns míseros 6°C... e minha bicicleta pesando toneladas, porque tenho tido muita preguiça de encher os pneus. Conversamos sobre Rio de Janeiro, Cracóvia, insetos, luvas, sputtering, etc... já no final de nossa conversa, chegamos na parte do Barack Obama. E a última frase dele me deixou num estado de confusão mental que durou até dois minutos atrás. Ele disse, num francês quase sem sotaque de anos de exílio no País do Amor, salivando ainda o veneno anti-alemão-pós-guerra, e consciente da sua própria fraqueza diante dos homens: le monde commence encore une fois à devenir très dangereux, sourtout pour des gens comme toi et moi. Eu não queria traduzir essa frase. Poque parece que se eu traduzo eu começo a nao fazer nada pelo mundo. Na verdade, eu gostaria mesmo de re-escrever tudo que eu acabo de escrever. Mas hoje eu vou me deixar ser, sem auto-sensuras. Então, a tradução da frase é a seguinte: o mundo começou a ficar outra vez muito perigoso, sobretudo pra pessoas como nós.
Essa foi a frase que não me deixou em paz por quase duas horas. Primeiro pelo fato de que eu não entendi de imediato porque aquele senhor me meia idade, branco feito leite, me igualava a ele – aliais, as únicas palavras que tínhamos trocado nos corredores até então eram "bonjour!" e "à demain!". A segunda coisa que me inquietava naquela frase era o significado da palavra perigo. Por um momento eu achei que era apenas um problema de tradução. Mas não era. O perigo estava ali, e eu não conseguia identificar onde. Bem, eu devo confessar que ultimamente tenho vivido perigosamente e, ao contrário do que deveria, tenho sentido uma alegria meio imbecil todos os dias antes de levantar da cama. Hoje, passando sob a ponte da Estação de Trem, lembrei que outro dia, indo pra Kalsruhe de trem, apesar das várias pessoas que estavam sentadas em torno de nós, os policiais só pediram os nossos passaportes, o que me deu vontade de perguntar porque eles não pediam também às pessoas do lado. Lembrei também de uma conversa que tive com um pesquisador outro dia no restaurante. Ele me dizia que o problema da França vem dos imigrantes que não tomam as devidas precauções para evitar filhos e isso agrava muito o problema social francês. Não consegui distinguir se aquilo se tratava da simples observação de um fato pontual pra ele, ou se escondia algo mais perigoso. Não quis confirmar.
Outro dia, encontrei um português de Lisboa que trabalha na Anistia Internacional, e que me falou de todas as coisas duras que ele viveu aqui na França, na década de 70. Voltando pra casa, vi o carro da polícia francesa parando no sinal. Um dos policiais pediu os documentos de um negro de uns 20 anos que estava parado esperando o sinal abrir. O sinal abriu e o negro saiu andando como se não tivesse escutado o pedido. Um policial branco, olhos azuis, alto, bem alimentado, provavelmente portando documentos legítimos de um francês-alsaciano, saiu atrás do preto, que começou a correr. Eu tive tanta vontade de chorar que não pude me mover, apesar do sinal verde. Como quando a gente é criança e nossa bola cai no quintal da velha do lado que diz com a uma raiva sem direção que vai cortar a bola. E o faz na nossa frente, tão deliberadamente.
O que faria um policial de olhos azuis correr atrás de um preto de nariz chato, uma vez que eles eram desconhecidos? O que ele teria feito de errado? Não ter documentos? Olhei pro lado pra ver se ainda dava tempo de atravessar a rua, e fui salvo pelo olhar daquela velhinha branca, indiscutivelmente germânica, que disse docemente olhando pra mim: quel horreur! (Que horror!). E, ao contrário da frase do pesquisador no restaurante, eu sabia exatamente o sentido daquela frase. Ela também chorava por dentro. Ela era gente como eu, como meu novo amigo de Cracóvia. E eu pude, então, atravessar a rua, de frente pro sol se pondo vermelho. Na direção do atlântico norte. Não sem sentir no coração uma dor transatlântica.
Essa foi a frase que não me deixou em paz por quase duas horas. Primeiro pelo fato de que eu não entendi de imediato porque aquele senhor me meia idade, branco feito leite, me igualava a ele – aliais, as únicas palavras que tínhamos trocado nos corredores até então eram "bonjour!" e "à demain!". A segunda coisa que me inquietava naquela frase era o significado da palavra perigo. Por um momento eu achei que era apenas um problema de tradução. Mas não era. O perigo estava ali, e eu não conseguia identificar onde. Bem, eu devo confessar que ultimamente tenho vivido perigosamente e, ao contrário do que deveria, tenho sentido uma alegria meio imbecil todos os dias antes de levantar da cama. Hoje, passando sob a ponte da Estação de Trem, lembrei que outro dia, indo pra Kalsruhe de trem, apesar das várias pessoas que estavam sentadas em torno de nós, os policiais só pediram os nossos passaportes, o que me deu vontade de perguntar porque eles não pediam também às pessoas do lado. Lembrei também de uma conversa que tive com um pesquisador outro dia no restaurante. Ele me dizia que o problema da França vem dos imigrantes que não tomam as devidas precauções para evitar filhos e isso agrava muito o problema social francês. Não consegui distinguir se aquilo se tratava da simples observação de um fato pontual pra ele, ou se escondia algo mais perigoso. Não quis confirmar.
Outro dia, encontrei um português de Lisboa que trabalha na Anistia Internacional, e que me falou de todas as coisas duras que ele viveu aqui na França, na década de 70. Voltando pra casa, vi o carro da polícia francesa parando no sinal. Um dos policiais pediu os documentos de um negro de uns 20 anos que estava parado esperando o sinal abrir. O sinal abriu e o negro saiu andando como se não tivesse escutado o pedido. Um policial branco, olhos azuis, alto, bem alimentado, provavelmente portando documentos legítimos de um francês-alsaciano, saiu atrás do preto, que começou a correr. Eu tive tanta vontade de chorar que não pude me mover, apesar do sinal verde. Como quando a gente é criança e nossa bola cai no quintal da velha do lado que diz com a uma raiva sem direção que vai cortar a bola. E o faz na nossa frente, tão deliberadamente.
O que faria um policial de olhos azuis correr atrás de um preto de nariz chato, uma vez que eles eram desconhecidos? O que ele teria feito de errado? Não ter documentos? Olhei pro lado pra ver se ainda dava tempo de atravessar a rua, e fui salvo pelo olhar daquela velhinha branca, indiscutivelmente germânica, que disse docemente olhando pra mim: quel horreur! (Que horror!). E, ao contrário da frase do pesquisador no restaurante, eu sabia exatamente o sentido daquela frase. Ela também chorava por dentro. Ela era gente como eu, como meu novo amigo de Cracóvia. E eu pude, então, atravessar a rua, de frente pro sol se pondo vermelho. Na direção do atlântico norte. Não sem sentir no coração uma dor transatlântica.
No comments:
Post a Comment