Sei que esse é um assunto reincidente, mas preciso ainda
contar outra coisa. É que quando estive pela primeira vez nessa velocidade
sobre o chão, que é o lugar onde todos nos queremos ficar, tive a impressão
louca de que estar ali era a desumanização mais cruel das coisas. Era a
relativização mais primordial que poderia existir. O mudo tinha outra forma.
Por alguns minutos tudo o que existia a minha volta estava nos lugares errados.
Vou explicar: não, eu não estou maluco, e nem tomei nada de especial durante
aquela viagem de TGV, era apenas a constatação última que o mundo pode ser
outra coisa se você esta a 320Km/h. Por exemplo, eu vi uma vaca no pasto que
deixou de ser uma vaca. Não sei explicar o porquê. As coisas que eu reconhecia
para fora da janela pararam de ter os mesmos valores de antes. Mais ainda, pra
mim, a vaca passou a ser a pessoa do meu lado que lia uma revista tipo
"Contigo" sem nem se dar conta da transformação que se dava do outro
lado da janela.
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