Mulhouse me fez experimentar várias coisas que eu achava jamais serem possíveis dentro do modus operandi de onde eu tinha saído. Isso, e muito mais, eu devo a essa cidade. E alguém pode me dizer que não foi a cidade que me possibilitou isso, mas o próprio fato de ter morado em um país estrangeiro. Não foi. Mulhouse é uma cidade operária, cheia de imigrantes, excluída de várias formas do que é considerado interessante como cidade na França. Essa exclusão me ajudou a não ser tão sozinho. Havia ainda uma conexão com meu mundo mais real, uma conexão que não havia se perdido no momento mesmo em que comecei a olhar para fora do finger no aeroporto Charles de Gaule em Paris, como comentei no texto anterior. Essa conexão se dava exatamente pela ideia do não pertencimento. Eu não fazia parte de tudo aquilo, assim como vários habitantes daquela cidade. Era isso que nos unia. E é claro que esse entendimento não se deu imediatamente. Foi preciso muito tempo.
A primeira coisa que me disseram é que eu não deveria ir à um lugar chamado Les côteaux. Era um bairro popular de imigrantes árabes e africanos do lado da Universidade Haute-Alsace. Disseram que era violento e que eu deveria tomar cuidado. O supermercado mais próximo ficava exatamente nessa direção e eu não tinha como fugir. Na primeira vez, fui cauteloso, quase medroso. No entanto, o que eu vi era algo muito parecido com o que já conhecia bem. Aquilo me fez, imediatamente, desconfiar do que me diziam. Dias depois, no trabalho, uma querida amiga me perguntou se eu não tinha medo de passar por aquele bairro pra ir fazer compras no supermercado. Eu respondi: Sim, por que eu acho que eles ficam com medo de eu tomar o território deles! Ela nunca mais me perguntou isso.
Mas acho que a maior integração se deu quando eu, descendo a ladeira da Universidade numa tarde, fui parado por um grupo de amigos árabes, todos abraçados, que falavam árabe comigo, pensando que eu também era árabe. Isso começou a se repetir. De início eu respondia, em francês, que não estava entendendo o que eles me diziam. Mas sentia que isso era tomado como uma agressão. Igual quando alguém com sotaque nordestino diz que não gosta de cuscuz de milho. Você desconfia logo que é alguém querendo negar suas raízes, etc. Era isso que eles pensavam de mim: que eu era um árabe querendo ser europeu. Diziam mesmo que eu era marroquino. O clima só melhorava quando, depois de alguns momentos de tensão, eu falava que era brasileiro. Ser brasileiro parecia incluir. Tirava-me do espaço de exclusão que eles também viviam. E aquilo me deixava ainda mais no escuro. Eu não conseguia entender porque era separado deles, se já me sentia tão integrado. Justamente por eles! Ficava tão mal com a situação que um dia, jantando no bandejão da Universidade, criei coragem e falei pra um colega meu o que estava ocorrendo. Ele era árabe da Palestina e fazia mestrado na Universidade. Ele me deu a solução: Euler, quando te cumprimentarem com “Salaam Aleikum”, responda, “Alaikum As-Salaam”, e siga em frente, não pare! Foi o que fiz. Eu só queria me sentir como eles. E assim consegui me misturar todas as vezes que nos encontrávamos em vários lugares da cidade. Às vezes, tentavam alongar a conversa e, nesse momento, eu tinha que revelar a minha real identidade. Voltava a ser dissociado deles e precisava responder coisas que até hoje não sei sobre futebol, mulatas, fio dental, etc.
Eu era tão integrado a eles que, no supermercado, os franceses também me tratavam como árabe. Lembro-me que algumas vezes, comprando embutidos, entradas, etc, as pessoas olham pra mim e diziam: Senhor, isso que está pedindo tem carne de porco! Ou seja, acreditavam que eu era árabe e que não comia porco. Tinham o bom senso de avisar. Mas aquilo era polidez. No fundo, sentia como se a pessoa estivesse chateada de ter que me dizer que aquele artigo possuía carne de porco. Só de raiva, eu respondia: Mas é esse mesmo que eu quero! E ajudava a confundir ainda mais o que já era super misturado na minha cabeça, e na deles.
Sunday, 27 May 2018
Monday, 8 January 2018
Memórias sobre o velho e o novo (Parte I)
Eu praticamente aprendi a ler em casa. A gente precisava aprender o hino nacional para cantar no desfile de 7 de setembro da cidade, e eu não me contentava em saber só uma parte. Queria saber aquela segunda parte também. Aquela que as pessoas não cantavam (e não sabiam). O jeito era aprender a ler. Então, posso dizer que o que me fez aprender a ler foi cantar até mesmo a segunda parte do hino nacional. Bem, mas o fato é que quando aprendi a ler, e já um pouco mais tarde, gastava tardes inteiras lendo revistas e livros antigos na casa da Prata (Prata é o nome do sítio dos meus pais; o nome vem de um riacho que desce da Serra Comprida e tem o mesmo nome). Minha mãe, para se livrar de vários livros e revistas velhas que entulhavam a casa da cidade, resolveu levar tudo para o sítio.
No meio da pilha de coisas, eu achava de tudo. Desde livros de romance, até livros acadêmicos e revistas. Eu, obviamente, gostava só dos que tinham imagens, fotografias. Várias revistas "Manchete". Uma delas toda misteriosa e inacessível, com fotos do casamento de Lady Di com o príncipe Charles num palácio na Inglaterra. Bem, estou falando de início dos anos 1980. Eu sei que estou velho! Aliás, sempre fui. Bem, mas de toda essa pilha de coisas, o que eu mais gostava era de ler dois livros de geografia, os quais já deixava na posição de pegar na próxima ida ao sítio. Um chamava-se "O velho mundo" e o outro "O novo mundo". Passava horas vendo as imagens e lendo (precariamente) as coisas que me chamavam a atenção de criança curiosa. Lembro perfeitamente da sensação de pertencimento (identificação) às cidades do Novo Mundo. Prédios altos, modernos, quadrados, vidraças planas, espelhos, tudo aquilo era o que a gente gostava (e chamada) de progresso, o que se via na televisão. Entendia (precariamente) que Nova Iorque era a civilização que queríamos (ou teríamos que) alcançar um dia. De outro lado, via o velho mundo como algo realmente velho e ultrapassado. Algo que deveríamos e tenderíamos cada vez mais a nos afastar. Entendia o novo mundo como a superação do velho mundo. E acho que o próprio título dos livros me levava a acreditar nisso.
Quando pisei pela primeira vez no solo da Europa, quase 20 anos depois desses acontecimentos no sítio Prata, senti algo muito estranho: eu não pertencia nem ao novo nem ao velho mundo. Sentia-me um completo anônimo na fila de saída do avião, esperando pela hora de ser controlado pelos policiais de alfândega. Eu também enxergava o mesmo anonimato na cara dos brasileiros chiques que desembarcavam comigo e que tentavam demonstrar, de qualquer forma, uma enorme familiaridade com essa dita "civilização". Ainda do finger do avião, eu olhava para fora e não conseguia identificar nada de familiar. A tinta que pintava o chão do aeroporto era diferente. O assoalho era feito de um material que jamais tinha visto. A roupa dos operadores de solo era nova, colorida. As cores eram vívidas, não parecia haver desbotamento na Europa. Tudo parecia saído da embalagem original ou era recém-pintado. Com uma certa tristeza, eu entendia perfeitamente que eu não pertencia a nada daquilo e, mais claramente ainda, que eu tinha sido excluído da construção de tudo aquilo.
Eu já possuía uma visão mais ampla do que se chamava de "civilização", mas não encontrava necessariamente uma ligação entre a minha vivência de criança e adolescente em Areia Branca e aquilo que me poderia inserir, de fato, nessa verdadeira “civilização”. Lembro-me que cheguei ao alojamento da Universidade e não conhecia ninguém. A minha orientadora de lá tinha me passado um telefone de uma aluna que eu poderia contatar, caso precisasse de algo – segundo o que me foi informado por ela. Liguei para a tal menina no primeiro dia que cheguei, pois queria conversar com alguém e entender mais do funcionamento das coisas naquele país novo pra mim. Não achei que haveria problema, pois ela me tinha sido recomendada e, além disso, no Brasil, adorávamos receber estrangeiros e lhes dar apoio. Mas não foi o que aconteceu. Ao telefone, a menina me perguntou friamente o que eu queria, de fato, com ela. Respondi que queria conversar com ela, "jogar conversa fora". Ela foi enfática e respondeu sem rodeios que se eu tivesse algo realmente importante para conversar com ela que ligasse novamente, mas que não sendo assim, ela estaria disponível para me encontrar somente na segunda-feira. O seu tom de voz era muito mais protocolar do que propriamente de irritação ou má educação, como raivosamente eu tentava acreditar. Não somente com raiva, mas com muita tristeza também, desliguei o telefone plenamente consciente de que não eram somente os objetos físicos e materiais que se distanciavam do que eu era: o próprio pensamento das pessoas era diferente.
Peguei minha mochila e desci atordoado na direção do centro da cidade. Levei minha máquina fotográfica e tirei a minha primeira foto naquela cidade. Algum tempo depois, um amigo brasileiro de longa data que viu essa foto na internet me enviou uma mensagem perguntando se estava tudo bem comigo. Ele tinha me estranhado: achava que algo estava errado comigo, que eu guardava uma tristeza grande no rosto. Ele estava certo. Mas nunca disse isso pra ele, pois no fundo eu próprio não sabia o que se passava comigo naquele momento.
Depois de quase um ano morando fora do Brasil, comecei a perceber que o nosso modo de ser brasileiro parece, de alguma forma, nos impedir de alcançar o que se chama de “civilização”. Para alcançar a dita “civilização” eu teria que, pouco a pouco, distanciar-me do que eu era como brasileiro. Parecia não haver combinação possível entre o “ser brasileiro” e o “ser civilizado”. Nossa espontaneidade tão natural e apego às pessoas, nosso jeito de resolver as coisas, de brigar, de olhar para alguém, de sorrir, essa alegria sem precedentes, tudo isso parecia não valer nada nesse mundo “civilizado”. Ou, pelo menos, não possuir qualquer significado. O mundo que eu acabava de descobrir era tão protocolar quanto foi a menina que me atendeu ao telefone. A mensagem era clara: eu teria definitivamente que me "civilizar".
No meio da pilha de coisas, eu achava de tudo. Desde livros de romance, até livros acadêmicos e revistas. Eu, obviamente, gostava só dos que tinham imagens, fotografias. Várias revistas "Manchete". Uma delas toda misteriosa e inacessível, com fotos do casamento de Lady Di com o príncipe Charles num palácio na Inglaterra. Bem, estou falando de início dos anos 1980. Eu sei que estou velho! Aliás, sempre fui. Bem, mas de toda essa pilha de coisas, o que eu mais gostava era de ler dois livros de geografia, os quais já deixava na posição de pegar na próxima ida ao sítio. Um chamava-se "O velho mundo" e o outro "O novo mundo". Passava horas vendo as imagens e lendo (precariamente) as coisas que me chamavam a atenção de criança curiosa. Lembro perfeitamente da sensação de pertencimento (identificação) às cidades do Novo Mundo. Prédios altos, modernos, quadrados, vidraças planas, espelhos, tudo aquilo era o que a gente gostava (e chamada) de progresso, o que se via na televisão. Entendia (precariamente) que Nova Iorque era a civilização que queríamos (ou teríamos que) alcançar um dia. De outro lado, via o velho mundo como algo realmente velho e ultrapassado. Algo que deveríamos e tenderíamos cada vez mais a nos afastar. Entendia o novo mundo como a superação do velho mundo. E acho que o próprio título dos livros me levava a acreditar nisso.
Quando pisei pela primeira vez no solo da Europa, quase 20 anos depois desses acontecimentos no sítio Prata, senti algo muito estranho: eu não pertencia nem ao novo nem ao velho mundo. Sentia-me um completo anônimo na fila de saída do avião, esperando pela hora de ser controlado pelos policiais de alfândega. Eu também enxergava o mesmo anonimato na cara dos brasileiros chiques que desembarcavam comigo e que tentavam demonstrar, de qualquer forma, uma enorme familiaridade com essa dita "civilização". Ainda do finger do avião, eu olhava para fora e não conseguia identificar nada de familiar. A tinta que pintava o chão do aeroporto era diferente. O assoalho era feito de um material que jamais tinha visto. A roupa dos operadores de solo era nova, colorida. As cores eram vívidas, não parecia haver desbotamento na Europa. Tudo parecia saído da embalagem original ou era recém-pintado. Com uma certa tristeza, eu entendia perfeitamente que eu não pertencia a nada daquilo e, mais claramente ainda, que eu tinha sido excluído da construção de tudo aquilo.
Eu já possuía uma visão mais ampla do que se chamava de "civilização", mas não encontrava necessariamente uma ligação entre a minha vivência de criança e adolescente em Areia Branca e aquilo que me poderia inserir, de fato, nessa verdadeira “civilização”. Lembro-me que cheguei ao alojamento da Universidade e não conhecia ninguém. A minha orientadora de lá tinha me passado um telefone de uma aluna que eu poderia contatar, caso precisasse de algo – segundo o que me foi informado por ela. Liguei para a tal menina no primeiro dia que cheguei, pois queria conversar com alguém e entender mais do funcionamento das coisas naquele país novo pra mim. Não achei que haveria problema, pois ela me tinha sido recomendada e, além disso, no Brasil, adorávamos receber estrangeiros e lhes dar apoio. Mas não foi o que aconteceu. Ao telefone, a menina me perguntou friamente o que eu queria, de fato, com ela. Respondi que queria conversar com ela, "jogar conversa fora". Ela foi enfática e respondeu sem rodeios que se eu tivesse algo realmente importante para conversar com ela que ligasse novamente, mas que não sendo assim, ela estaria disponível para me encontrar somente na segunda-feira. O seu tom de voz era muito mais protocolar do que propriamente de irritação ou má educação, como raivosamente eu tentava acreditar. Não somente com raiva, mas com muita tristeza também, desliguei o telefone plenamente consciente de que não eram somente os objetos físicos e materiais que se distanciavam do que eu era: o próprio pensamento das pessoas era diferente.
Peguei minha mochila e desci atordoado na direção do centro da cidade. Levei minha máquina fotográfica e tirei a minha primeira foto naquela cidade. Algum tempo depois, um amigo brasileiro de longa data que viu essa foto na internet me enviou uma mensagem perguntando se estava tudo bem comigo. Ele tinha me estranhado: achava que algo estava errado comigo, que eu guardava uma tristeza grande no rosto. Ele estava certo. Mas nunca disse isso pra ele, pois no fundo eu próprio não sabia o que se passava comigo naquele momento.
Depois de quase um ano morando fora do Brasil, comecei a perceber que o nosso modo de ser brasileiro parece, de alguma forma, nos impedir de alcançar o que se chama de “civilização”. Para alcançar a dita “civilização” eu teria que, pouco a pouco, distanciar-me do que eu era como brasileiro. Parecia não haver combinação possível entre o “ser brasileiro” e o “ser civilizado”. Nossa espontaneidade tão natural e apego às pessoas, nosso jeito de resolver as coisas, de brigar, de olhar para alguém, de sorrir, essa alegria sem precedentes, tudo isso parecia não valer nada nesse mundo “civilizado”. Ou, pelo menos, não possuir qualquer significado. O mundo que eu acabava de descobrir era tão protocolar quanto foi a menina que me atendeu ao telefone. A mensagem era clara: eu teria definitivamente que me "civilizar".
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