Saturday, 30 May 2009

København



Estou aqui, sentado na sacada do museu de arte moderna de Copenhagen, sem chinelas, porque fiquei com medo de que elas caíssem no mar. Num sábado azul. Num 30 de maio de 2009 que fecha tranquilamente a semana. O mar daqui é gelado, e isso eu posso sentir do vento que chega aqui. São 4h17pm. Apesar de a água ser super clara, ainda não consegui ver um único peixe. Eles devem não sair nunca das suas tocas, esquecendo que é quase verão! E apesar do frio da água, os turistas parecem não saber que se eles caírem na água por descuido, terão pouca chance de sobreviver até chegar à margem.
Daqui eu vejo um canal largo, mas que é quase um oceano. O oceano de fato descubro atrás dos cataventos altíssimos que ficam no horizonte. Vários deles, nem posso contar. Próximo a mim tem um casal jogando pedras na água, um caiaque de duas pessoas com uma única pessoa dentro, um navio de guerra de um cinza assustador. Um submarino também assustador pelo seu tamanho e pela sua cara de mau.
De vez em quando, ondas enormes chegam até próximo dos meus pés. Não os retiro do lugar com a esperança de sentir o gelo abissal do mar de Copenhagen, do mar nórdico.
Apesar de não gostar de cerveja, estou tomando uma agora. Amarga e preta. Ou preta e amarga. Aliás, o mar, apesar de claro tem uma cor que tem me deixado inquieto. É um preto colorido, silencioso. O único barulho aqui vem dos barcos e eu fico imaginando como seria estar aqui na época vicking. Os piratas com seus gritos secos e firmes. Como Ahab em Moby Dick. Mas a lenda mais comentada aqui é a da pequena sereia. Dizem que devo ir vê-la antes de ir embora, sua estatua, eternamente olhando pro mar báltico. Não vou. Não gosto dessas histórias de sereia.
Longe tem uma ilha artificial que foi construída ainda na idade média. Dizem que em dias de inverno um fenômeno raro se passa aqui. A saturação da camada de ar próxima da água refrata a luz e as distâncias são aumentadas, numa ilusão de óptica. Então, a ilha que agora eu tenho certeza de estar a menos de 2 km daqui, no inverno, pode chegar a uma distância absurda. Difícil imaginar isso assim, na hora. De qualquer modo, usavam isso como estratégia de guerra, como aquela ilha na Sicilia.
A lua já esta no céu e é tão alegre que me faz querer pular no mar pra festejar. O sol esta forte, e é tão estranha a sensação de ter o vento gelado no rosto enquanto suas costas queimam no sol...
Um homem acaba de mijar no mar; ele esta num barco. E nem sabe que alguém o viu. Olha desconfiado pra cá e se senta rápido no banco do barco. Esta sozinho no barco.
O sol segue queimando tudo. Esse mesmo sol que só vai embora meia-noite. Isso mesmo. E às três da manhã já esta de volta ao céu. Eu sei, porque ontem eu saí pra uma festa com um DJ que conheci na rua por acaso enquanto ele fazia uma apresentação na frente de uma loja da LG. Quando voltei pro hotel, estava sem sono e fiquei terminando um paper que estou escrevendo. De repente, assustei-me ao olhar pela janela as 3h00 da manhã e ver o céu claro.
Tenho que dizer que agora estou vendo duas águas vivas. Elas se movem tão rápido! Vim sozinho pra Copenhagen porque tinha o sonho de conhecer. Eu também tenho sangue escandinavo, apesar do meu lado índio/africano muito mais desenvolvido! Imagine que se o tataravô do meu pai não tivesse saído daqui na direção do Brasil na época das invasões do nordeste, eu não teria nascido... esse preto que sou! Como eu me chamaria? Nyhvn? Kobben?
Ontem fiquei falando com o vendedor de cachorros-quente, perguntando a pronúncia de cada nome de rua. Já esqueci. O que eu não vou esquecer é desse jeito meio esquerdo que as mulheres daqui têm. Parece que engoliram uma âncora, como aquela gigantesca que fica exposta na entrada do canal.
Não vou esquecer também desse jeito meio inglês que eles falam e que me deixa atordoado. E dessa idéia de construir diques de madeira ao logo de toda a costa. Será que existia praia antes? Deveria ser super lindo! Essas casas coloridas... algo deveria ser mesmo colorido aqui. O inverno deve ser impiedoso.
Olhando longe vejo a ponte que liga a Dinamarca à Suécia. E é tão estranho que uma parte seja ponte de verdade e a outra parte seja um túnel por baixo do mar... como se a ponte desistisse de ser ponte no meio do caminho e decidisse ir por baixo do mar. Isso acontece, às vezes. Eu também já desisti um dia de ser eu mesmo.
Queria me desculpar: o museu não é somente museu. É também um teatro, acho. Daqui eu leio: Det kongelige teater
Skuespil Huset.
Não tive saco de entrar no museu/teatro, o sol estava tão mais lindo que eu preferi tirar a camisa e ficar no sol a tarde inteira, escrevendo essa carta e vendo os barcos passarem distraídos pra ninguém.
Estou sozinho aqui. Sem ninguém. E também pra ninguém.
Viajar sozinho é muito chato, mas também é muito prazeroso. Somos obrigados a aproveitar mais das pessoas ao redor. Ir ao encontro delas. Eu preciso disso de vez em quando. Porque eu sei que tenho uma tendência ao isolamento. Temos tempo mesmo de escrever uma carta como essa, toda besta. Mas que diz mais que um cartão postal.

Carta que seria enviada pra Cris e pro Roger se eu não tivesse alergia aos correios...

Wednesday, 27 May 2009

Estado de emergência



Entrei numa loja pra comprar uma calça jeans e uns cinco minutos depois percebi alguns bombeiros dentro da loja. Eles tentavam trabalhar com equipamentos no chão e eu não entendi direito o que estava acontecendo porque todo mundo continuava normalmente com a sua rotina de compras, etc... não pederia ser fogo, nada. Pensei que talvez fosse uma simulação de emergência, como aquela que somos obrigados a seguir no laboratório todo mês. Foi então que a minha alma de brasileiro me fez chegar mais parto pra olhar o que eles faziam. Uma mulher, provavelmente com uma queda de pressão, estava caída no chão. E era a mesma mulher que eu havia visto cinco minutos antes tentando pegar a mesma calça que eu na prateleira. A mesma que sorriu descontraída quando eu disse (abusadamente): c’est ton tour, vas-y! Como tudo pode ser tão silencioso aqui? Tão quieto? Nem ao menos um aglomerado de pessoas na porta pra ver o que se passa? Meu deus, deve faltar alguma coisa nessa cidade! Falta tanto que a gente acaba mesmo por desmaiar em qualquer lugar.