Estou aqui, sentado na sacada do museu de arte
moderna de Copenhagen, sem chinelas, porque fiquei com medo de que elas caíssem
no mar. Num sábado azul. Num 30 de maio de 2009 que fecha tranquilamente a
semana. O mar daqui é gelado, e isso eu posso sentir do vento que chega aqui.
São 4h17pm. Apesar de a água ser super clara, ainda não consegui ver um único
peixe. Eles devem não sair nunca das suas tocas, esquecendo que é quase verão!
E apesar do frio da água, os turistas parecem não saber que se eles caírem na
água por descuido, terão pouca chance de sobreviver até chegar à margem.
Daqui eu vejo um canal largo, mas que é quase um
oceano. O oceano de fato descubro atrás dos cataventos altíssimos que ficam no
horizonte. Vários deles, nem posso contar. Próximo a mim tem um casal jogando
pedras na água, um caiaque de duas pessoas com uma única pessoa dentro, um
navio de guerra de um cinza assustador. Um submarino também assustador pelo seu
tamanho e pela sua cara de mau.
De vez em quando, ondas enormes chegam até próximo
dos meus pés. Não os retiro do lugar com a esperança de sentir o gelo abissal
do mar de Copenhagen, do mar nórdico.
Apesar de não gostar de cerveja, estou tomando uma
agora. Amarga e preta. Ou preta e amarga. Aliás, o mar, apesar de claro tem uma
cor que tem me deixado inquieto. É um preto colorido, silencioso. O único
barulho aqui vem dos barcos e eu fico imaginando como seria estar aqui na época
vicking. Os piratas com seus gritos secos e firmes. Como Ahab em Moby Dick. Mas
a lenda mais comentada aqui é a da pequena sereia. Dizem que devo ir vê-la
antes de ir embora, sua estatua, eternamente olhando pro mar báltico. Não vou.
Não gosto dessas histórias de sereia.
Longe tem uma ilha artificial que foi construída
ainda na idade média. Dizem que em dias de inverno um fenômeno raro se passa
aqui. A saturação da camada de ar próxima da água refrata a luz e as distâncias
são aumentadas, numa ilusão de óptica. Então, a ilha que agora eu tenho certeza
de estar a menos de 2 km daqui, no inverno, pode chegar a uma distância absurda.
Difícil imaginar isso assim, na hora. De qualquer modo, usavam isso como
estratégia de guerra, como aquela ilha na Sicilia.
A lua já esta no céu e é tão alegre que me faz querer
pular no mar pra festejar. O sol esta forte, e é tão estranha a sensação de ter
o vento gelado no rosto enquanto suas costas queimam no sol...
Um homem acaba de mijar no mar; ele esta num barco. E
nem sabe que alguém o viu. Olha desconfiado pra cá e se senta rápido no banco
do barco. Esta sozinho no barco.
O sol segue queimando tudo. Esse mesmo sol que só vai
embora meia-noite. Isso mesmo. E às três da manhã já esta de volta ao céu. Eu
sei, porque ontem eu saí pra uma festa com um DJ que conheci na rua por acaso
enquanto ele fazia uma apresentação na frente de uma loja da LG. Quando voltei
pro hotel, estava sem sono e fiquei terminando um paper que estou escrevendo.
De repente, assustei-me ao olhar pela janela as 3h00 da manhã e ver o céu
claro.
Tenho que dizer que agora estou vendo duas águas
vivas. Elas se movem tão rápido! Vim sozinho pra Copenhagen porque tinha o
sonho de conhecer. Eu também tenho sangue escandinavo, apesar do meu lado índio/africano
muito mais desenvolvido! Imagine que se o tataravô do meu pai não tivesse saído
daqui na direção do Brasil na época das invasões do nordeste, eu não teria
nascido... esse preto que sou! Como eu me chamaria? Nyhvn? Kobben?
Ontem fiquei falando com o vendedor de
cachorros-quente, perguntando a pronúncia de cada nome de rua. Já esqueci. O
que eu não vou esquecer é desse jeito meio esquerdo que as mulheres daqui têm.
Parece que engoliram uma âncora, como aquela gigantesca que fica exposta na
entrada do canal.
Não vou esquecer também desse jeito meio inglês que
eles falam e que me deixa atordoado. E dessa idéia de construir diques de
madeira ao logo de toda a costa. Será que existia praia antes? Deveria ser
super lindo! Essas casas coloridas... algo deveria ser mesmo colorido aqui. O
inverno deve ser impiedoso.
Olhando longe vejo a ponte que liga a Dinamarca à Suécia.
E é tão estranho que uma parte seja ponte de verdade e a outra parte seja um
túnel por baixo do mar... como se a ponte desistisse de ser ponte no meio do
caminho e decidisse ir por baixo do mar. Isso acontece, às vezes. Eu também já
desisti um dia de ser eu mesmo.
Queria me desculpar: o museu não é somente museu. É
também um teatro, acho. Daqui eu leio: Det kongelige teater
Skuespil Huset.
Não tive saco de entrar no museu/teatro, o sol estava
tão mais lindo que eu preferi tirar a camisa e ficar no sol a tarde inteira,
escrevendo essa carta e vendo os barcos passarem distraídos pra ninguém.
Estou sozinho aqui. Sem ninguém. E também pra
ninguém.
Viajar sozinho é muito chato, mas também é muito
prazeroso. Somos obrigados a aproveitar mais das pessoas ao redor. Ir ao
encontro delas. Eu preciso disso de vez em quando. Porque eu sei que tenho uma
tendência ao isolamento. Temos tempo mesmo de escrever uma carta como essa,
toda besta. Mas que diz mais que um cartão postal.
Carta
que seria enviada pra Cris e pro Roger se eu não tivesse alergia aos
correios...