Sunday, 20 December 2009

Berna II


Vai completar um ano que estive em Berna. Sozinho. Abandonado por mim mesmo. Num daqueles frios suíços mais indescritíveis. E ainda hoje eu tenho saudades daquilo tudo que vivi ali. Tenho que voltar urgentemente a Berna. E descobrir mais dos seus mistérios. Então, pra relembrar, coloco aqui alguns trechos de textos da Clarice Lispector onde ela fala sobre Berna. E sua tristeza de sentir Berna.

“O que me salvou da monotonia de Berna foi viver na Idade Média, foi esperar que a neve parasse e os gerânios vermelhos de novo se refletissem na água, foi ter um filho que lá nasceu, foi ter escrito um de meus livros menos gostado, “A cidade sitiada”, no entanto, relendo-o, pessoas passam a gostar dele; minha gratidão a este livro é enorme: o esforço de escrevê-lo me ocupava, salvava-me daquele silêncio aterrador das ruas de Berna, e quando terminei o último capítulo, fui para o hospital dar à luz o menino.”

“Berna é linda e calma, vida cara e gente feia; com a falta de carne, com o peixe, queijo, leite, gente neutra, termino mesmo dando um grito e comendo o primeiro boi de alma doente que eu encontrar; falta demônio na cidade... Tudo isso é tolice.”

“É uma pena eu não ter paciência de gostar de uma vida tão tranqüila como a de Berna. É uma fazenda. (...) Às vezes se vêem camponesas, de alguma cidadezinha perto, vestidas com os trajes regionais, o rosto vermelho, honesto, com olhos azuis - os olhos são tão honestos que nem parecem observar. (...) E o silêncio que faz em Berna - parece que todas as casas estão vazias, sem contar que as ruas são calmas. Dá vontade de ser uma vaca leiteira e comer durante uma tarde inteira até vir a noite um fiapo de capim. O fato é que não se é a tal vaca, e fica-se olhando para longe como se pudesse vir o navio que salva os náufragos”

“Berna é uma cidade livre, por que então eu me sentia tão presa, tão segregada? Eu ia ao cinema todas as tardes, pouco importava o filme. E lembro-me de que às vezes, à saída do cinema, via que já começara a nevar. Naquela hora do crepúsculo, sozinha na cidade medieval, sob os flocos ainda fracos de neve - nessa hora eu me sentia pior do que uma mendiga porque nem ao menos eu sabia o que pedir.”

Thursday, 10 September 2009

Na estação

Ontem uma amiga me ligou da estação de Estrasburgo e eu pude escutar de novo o anúncio dos trens. Então, só pra registrar, coloco aqui um vídeo que gravei logo que cheguei por lá. Uma saudadezinha de sair sem destino pelo mundo com uma mochila e a bicicleta...

Thursday, 20 August 2009

Como inutilizar uma pessoa em dois passos


Outro dia me dei conta de que as pessoas têm ficado meio malucas ultimamente. É que num desses sites de relacionamento em rede, tipo Orkut, algumas pessoas sempre me convidam para serem suas amigas sem que eu nunca as tenha visto. O último convite que recebi me deixou intrigado porque vinha com uma mensagem - coisa que é rara nesse tipo de convite. Dizia: vai ter uma festa na casa da Lindinha sábado e eu preciso entrar com alguém diferente; você poderia vir comigo? Gostei de você!

Como assim? Eu?

Não aceitei o convite. Nem mesmo o de amizade, porque de fato não sou amigo daquela Tatiana. Aliás, nunca achei que pudesse ser amigo de uma Tatiana (apesar dela ser super bonitinha). Mas é que seria tão inútil responder àquilo...

Outro dia, parado num sinal de trânsito entre as avenidas Rio de Janeiro e Desembargador Maynard, uma mulher exibindo uma bunda meio à la Mulher Melancia, passou toda segura de si pela faixa de pedestres. Quando eu me dei conta, o cara do carro do lado estava me olhando meio debochadamente, querendo que eu compartilhasse com ele seu sorriso meio imbecil. Não entendi direito se era um simples deboche ou uma cumplicidade de machos sexualmente atraídos pelo que é grande, o que ele buscava em mim. De qualquer modo, eu nunca me deixo inutilizar por pessoas desse tipo. Continuei sério e ele ficou visivelmente embaraçado até o sinal abrir de novo. Ao contrário, recebi uma mensagem toda tímida de um aluno que iniciou o e-mail dizendo que eu provavelmente não me lembraria dele (o que era correto), mas que após assistir às minhas duas primeiras aulas na graduação, se arrependia de ter mudado de curso. E me pedia permissão pra continuar assistindo às aulas. Isso sim é algo útil de alguém anônimo.

Saturday, 15 August 2009

Você não vale nada, mas eu gosto de você


A liberdade pode ser tão perigosa quanto a total falta dela. Ontem, por exemplo, colocamos nosso cachorrinho pra dormir fora de casa pela primeira vez. Hoje ele amanheceu com cara de quem tinha ganhado o mundo. Essa semana eu fui quase obrigado a ir numa viagem que não me interessava. Mas acabei voltando dela com essa sensação estranha. É que tinha descoberto um buraco no meio do rio São Francisco, com uma água verde calma e um jeito meio “carira” de ser. Pouco a pouco venho tomando gosto pela minha terra de novo. Mas é um gosto que nunca mais vai ser o mesmo de quando eu tinha a liberdade de não perceber o mundo. Quando eu achava que o mundo era tudo que eu via na televisão, e que não passava daquela caixa de milagres. Eu gostei tanto do contraste de Xingó junto ao seu Museu de Arqueologia todo tímido. De falar com as pessoas na estrada, de comer doce de genipapo. Eu gosto muito de ser brasileiro, mesmo se eu ainda fico triste de ver um povo que é tão pouco exigente. Um povo que parece sorrir daquilo que o mata, da sua própria má sorte. Alguns até justificam assim o orgulho pelo nosso Brasil, e batem forte no peito. Eu... eu gostaria apenas que a gente fosse um pouco mais exigente. Só um pouco.

Wednesday, 1 July 2009

Au-l-as


Eu queria escrever algo surpreendente, algo que deixasse a minha vida mais normal. Tudo que eu tenho vivido ultimamente ou é completamente novo ou é meio absurdo. Sei lá, histórias engraçadas como a de um colega do Graccho de quinta série que encontrei no meio dos meus alunos da universidade. Ou como a outra da pós-graduação que me falou, depois que eu perguntei se eu não a conhecia de algum lugar: mas você foi meu professor de natação em Areia Branca! Ou como aqueles que, no susto, dizem: mas você não é aluno também? No momento, sigo sem tempo de pensar mais sobre isso: tenho aula pra preparar!

Wednesday, 24 June 2009

Como e quando


Como o soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria. Ou como o vendedor gaiato da esquina que grita alto que prefere o de 2 giga, mas ri do estudante com cara de CDF que passa ao lado. Ou como um colega de trabalho brasileiro que critica a aceitação de estrangeiros em cursos de mestrado durante uma reunião, tendo esquecido que ele próprio fez mestrado nos EUA. Ou como quando usamos duas bolsas plásticas pra carregar as compras do supermercado e ficamos horrorizados com as noticias sobre poluição na TV. Ou como quando usamos o cinto de segurança no carro e andamos em pé nos ônibus da cidade.