A liberdade pode ser tão perigosa quanto a total falta dela. Ontem, por exemplo, colocamos nosso cachorrinho pra dormir fora de casa pela primeira vez. Hoje ele amanheceu com cara de quem tinha ganhado o mundo. Essa semana eu fui quase obrigado a ir numa viagem que não me interessava. Mas acabei voltando dela com essa sensação estranha. É que tinha descoberto um buraco no meio do rio São Francisco, com uma água verde calma e um jeito meio “carira” de ser. Pouco a pouco venho tomando gosto pela minha terra de novo. Mas é um gosto que nunca mais vai ser o mesmo de quando eu tinha a liberdade de não perceber o mundo. Quando eu achava que o mundo era tudo que eu via na televisão, e que não passava daquela caixa de milagres. Eu gostei tanto do contraste de Xingó junto ao seu Museu de Arqueologia todo tímido. De falar com as pessoas na estrada, de comer doce de genipapo. Eu gosto muito de ser brasileiro, mesmo se eu ainda fico triste de ver um povo que é tão pouco exigente. Um povo que parece sorrir daquilo que o mata, da sua própria má sorte. Alguns até justificam assim o orgulho pelo nosso Brasil, e batem forte no peito. Eu... eu gostaria apenas que a gente fosse um pouco mais exigente. Só um pouco.
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