Não vou te escrever uma
carta de amor. Na verdade, nem vou te escrever. Eu só estava pensando em você.
É que alguns dias atrás, encontrei um amigo seu na rua e ele me falou de você.
Eu nem me lembrava mais dele, nem do seu nome, nem onde nos conhecemos. Foi ele
que me reconheceu. Ele que fez questão de me convidar pra tomar um café. E
começou a me contar de você, do que você fazia, dessa coisa incrível que faz
com que você continue vivendo. Que você continue existindo. E logo depois, ele
começou a falar somente dele. Do que ele fazia, das coisas que ele pensava, do
que ele queria pra sua vida, e da dificuldade que era pra ele encontrar pessoas
legais. Ele devia se lembrar que nós éramos inseparáveis e que estávamos sempre
nos lugares mais inesperados, e mais desertos. Só nós dois, e o mundo. E ele
continuou a me falar apenas das coisas que ele vivia, pra onde ele iria, o que
ele era. Ele me falava do furo no pneu da sua bicicleta, do medicamento que ele
tomava desde a adolescência, me falava do preço do ônibus. Não parava minuto
algum de falar dele próprio. De repente, ele se calou. E começou a me olhar
seriamente. Ele enfim percebeu que eu não dava a mínima atenção pra sua
conversa. Que eu não tinha escutado quase nada do que ele dizia. Que eu estava me
lixando pro progresso dele, pro preço de um pneu, ou pro furo no ônibus. E
assim mesmo, ansioso, eu pedi que ele me falasse mais sobre você. Pedi que ele
me falasse somente de você. (Isso aqui não é uma carta de amor, queria que você
soubesse disso. Eu apenas te falo. E imagino que você me escuta). Eu me lembro
de tudo. Eu encontrei um trabalho bem longe, fiz novos amigos, continuei a
capoeira, abandonei, voltei a comer pão quase três vezes por dia, descobri um lugar que
você iria adorar. Descobri-me no meio de várias novas coisas que me custam não
poder te contar todos os dias, mesmo que fosse pelo telefone imóvel. Encontrei
outras pessoas por quem também me apaixonei. Procurei pessoas menos atraídas
pelo que eu sou, e encontrei. Podia até mesmo as ter amado. Mas não. Nada
daquilo durou. Porque nada dura. Apenas a lembrança do seu olhar meio bobo, no
final de uma tarde qualquer. A doçura do seu jeito de dizer meu nome. E o som
da sua voz que sempre me chama de longe, em sonho. E você jamais me chamou.
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