Saturday, 18 January 2020

Agrião e rúcula?

Já adulto, quando provei limão siciliano pela primeira vez, veio-me à cabeça uma sensação que, na época, eu não entendia direito: o limão do biscoito recheado que a gente comia quando criança em Areia Branca não era o mesmo limão que dava no fundo do quintal de casa. Na verdade, o gosto que sempre fazia a nossa festa de infância era desse dito limão siciliano, que eu nem sabia que existia. Aliás, tem uma cena da minha quinta série que não esqueço jamais; uma cena de quando saí do interior pra estudar em Aracaju no Graccho Cardoso. O Graccho era um colégio elitista, na época. O professor Anderson Sanches (querido professor!) falou na aula de história, e eu não lembro exatamente o contexto, da importância de se comer agrião e rúcula no nosso dia-a-dia. Eu, nascido e criado em Areia Branca, uma cidade sem qualquer importância no meio do menor estado do País, saindo dos anos 80, nunca tinha visto agrião ou rúcula na minha vida real. As únicas folhas que a gente conhecia bem eram couve e alface. Foi, provavelmente, a primeira vez que eu senti de verdade que existia um mundo que escondiam da gente. 

Monday, 16 December 2019

Quase sonho...

Num quase sonho, eu estava em Aracaju. Fui ao supermercado. Enquanto procurava coisas numa das prateleiras, um garoto de uns 11 anos chegou junto a mim e pediu alguma coisa, de modo que eu não pude (na verdade, não quis) ouvir direito. Imediatamente após ele parar de falar, eu disse:
- Não tenho, não.
O garoto, então, olhou nos meus olhos e disse, já desistindo, e com uma sinceridade impensável:
- É, moço, ninguém acredita quando a gente fala.
Ainda no sonho, a fala dele me diminuiu ao que poderia ser o menor objeto do universo. Eu, esmagado no meu sonho inventado. Porque me dava conta de que, sequer tinha prestado atenção àquilo que "ninguém acreditava" e que, portanto, não saberia repetir. Do fundo do meu sonho, da minha catástrofe, agora completamente acordado, parado, com os olhos nos olhos do garoto, eu entendia que ele entendia que eu precisava ouvir novamente o pedido:
- Moço, é que a minha mãe não pode mais trabalhar e minha irmã está passando fome. O senhor poderia comprar um litro de leite pra eu levar? (ele usou exatamente essas palavras).
Eu não lembro exatamente como tudo andou a partir daí. Lembro que levei pro caixa um pacote inteiro de caixas de leite e que, no meio da minha emoção desastrada no caminho até o caixa, conversei sobre outras coisas com o garoto. Mas não consigo lembrar o quê. Os psicólogos dizem que, nos sonhos, as partes que a gente esquece são as partes em que a gente não se permite vivenciar. Se isso for verdade, eu sei porque: provavelmente, pela vergonha infinita que me tomou naquele momento. Uma caixa de leita era nada. O que quer que eu dissesse, era nada.

Friday, 13 September 2019

Pau-fava

Sabe aquelas conversas que você tem sozinho, com você mesmo, andando pela casa, pela rua? Pois é... a minha teoria é que quando a gente se percebe tendo essas conversas sozinho numa língua estrangeira, isso significa que começamos, de fato, a perder as amarras. Digo isso, pois na França, depois de uns 4 meses comecei a me pegar tendo esses pensamentos, e sempre achava engraçado, dizia: Euler, não é melhor falar sozinho em português, fio?! Largue de ser besta! Somente hoje, depois de três meses aqui, eu me peguei resolvendo problemas em inglês andando pela Universidade. Num ingrês ainda tão sofrido, mas ingrês! Pensei igual: Euler, não é melhor falar sozinho em português? Mas também percebi que minha tecla SAP não funciona mais pro francês. Fui tentar conversar com um francês no restaurante da Universidade outro dia e a coisa embolou toda, jesussss. Eu queria tanto ser Suíço. Nunca me esqueço de uma vez, entrando de carro na Suíça com uns amigos. O policial da fronteira falou com cada um de nós dentro do carro na sua língua de origem: alemão, francês, espanhol e (sim!!!) português. E não foi apenas olá, bom dia, como vai... não! Fiquei besta. Amarelo de inveja. Mas depois pensei: bote esse cabra numa Van indo de Itabaiana pra Aracaju e veja se ele consegue descer no Pau-fava, em Areia Branca. Consegue não, fio.

Thursday, 15 August 2019

Thoughts about Thoughts - Minha santa Guadalupe

Hoje eu fui cortar cabelo de novo. Achei um lugar bom e barato no Student Center East, dentro da própria Universidade. (Student Center é uma espécie de shopping dentro na Universidade e East, pois a Universidade de Illinois em Chicago é dividida em duas partes, uma mais no leste e outra no oeste - eu nunca usei tanto meus conhecimentos de pontos cardeais igual uso aqui! até os laboratórios são divididos em leste e oeste e, detalhe, dentro do mesmo prédio!). Bem, tudo isso pra dizer que minha querida cabeleireira mexicana Guadalupe não está mais aqui. Foi deportada pelo Trump. Aliás, pela conversa da amiga que a substituiu, não ficou claro pra mim se ela realmente já está no México ou se ainda está numa prisão de imigrantes por aqui. Que mundo injusto, meu deus...

Monday, 12 August 2019

Thoughts about thoughts - Túneis

Eu tenho a maior alegria quando o metro (que aqui se chama L) passa por baixo do rio Chicago. É claro que não se vê nada, mas a sensação é fascinante: imaginar um Rio todo sobre você! Desde pequeno, esse negócio de passar por baixo de viadutos e túneis me fascinou. Passar por baixo do viaduto da Av. Desembargador Maynard com a Tancredo Neves em Aracaju era uma alegria quando eu era pequeno. Quando fui morar no Rio, em São Cristóvão, compramos uma geladeira de segunda mão em Botafogo, e a gente contratou um carro pra ir buscar a geladeira. O carro passou pelo túnel Rebouças e eu fiquei besta. Aquilo era que era túnel! Acho que por isso a minha decepção tão grande de passar por baixo do Canal da Mancha, de trem, pelo Eurotunel. Quando saí do outro lado, nem sabia ao certo se já tinha passado ou não: não se vê nada do lado de fora! Uma amiga me perguntou, toda séria, quando a gente se encontrou em Londres: você achava que ia ver peixinhos, é Euler? Eu, hein... deixa a gente se divertir gente! e sofrer também...

Wednesday, 31 July 2019

Thoughts about thoughts - Sobre não saber

Sempre me perguntava por que quando apagava o fogo da panela aparecia muito mais vapor de água ("fumaça") do que quando o fogo estava ligado. Nunca me parecia lógico: mais temperatura, mais vapor tem que sair. Só vim responder essa pergunta estudando termodinâmica e cinética pra dar aula. Aliás, como a gente aprende quando é professor! E como a gente estuda! Muito mais do que quando é aluno. Aqui eu tenho estudado muito. Demais! Estudar parece muito com fazer exercício físico: nunca está bom. Mas, de verdade, eu continuo tão burro, só jesuiiiis. Acho que, no fundo, é por isso que eu continuo...

Thursday, 30 May 2019

Carro do ovo

Eu sei que o mundo dito 'desenvolvido' não leva esse nome à toa. Pro bem e pro mal. E não posso deixar de sentir saudade da espontaneidade e dos prazeres que essa espontaneidade, muitas vezes, nos trás, aos ditos "subdesenvolvidos". Tenho, por exemplo, uma saudade danada de encontrar saroio, malcasado, queijo, tapioca, picolé e ovo na rua. Ter que entrar num prédio pra comprar isso ou ter apenas essa possibilidade em dia de feira na rua, é super chato. Ainda mais porque as feiras de rua daqui são tão organizadas que parecem shoppings. A vivacidade de se ouvir um grito bem alto no pé do ouvido de manhã cedo:
- Dona Maria, a senhora esqueceu a sacola! Ei moço, venha cá, é três por cinco reais!!!!
Nada disso você encontra fácil por aqui.
Outro dia, sonhei que o carro do ovo passava aqui na rua. North State Parkway. Eu, na maior alegria. Mas não deu tempo nem de correr pra pegar a vasilha e o dinheiro: o prédio todo começou a ligar pro 190. Acordei com o barulho da sirene da policia e dos bombeiros riscando na porta do prédio. Não deu nem tempo de matar a saudade da musiquinha. Cercaram o pobre do carro do ovo. Não é fácil não, minha gente. Levantei da cama e fui verificar se era sonho mesmo. Era. Voltei pra cama ainda agoniado com o barulho das sirenes na minha cabeça. (As sirenes nos EUA são mais chatas do que em qualquer outro lugar que já ouvi... parece que você está assistindo a sessão da tarde da Globo). Quando peguei no sono, lá veio o sonho de novo. Mas agora já estava transformado num justiceiro. Do ponto onde parei, as sirenes de novo no pé do ouvido, lá ia eu abrir a janela pra gritar lá de cima pra deixarem o pobre do carro do ovo em paz. Sem saber abrir direito a janela, acordei quando o pedaço da janela veio abaixo e a sindica já estava na minha porta perguntando o que foi. Eita vida...