Thursday, 30 May 2019

Carro do ovo

Eu sei que o mundo dito 'desenvolvido' não leva esse nome à toa. Pro bem e pro mal. E não posso deixar de sentir saudade da espontaneidade e dos prazeres que essa espontaneidade, muitas vezes, nos trás, aos ditos "subdesenvolvidos". Tenho, por exemplo, uma saudade danada de encontrar saroio, malcasado, queijo, tapioca, picolé e ovo na rua. Ter que entrar num prédio pra comprar isso ou ter apenas essa possibilidade em dia de feira na rua, é super chato. Ainda mais porque as feiras de rua daqui são tão organizadas que parecem shoppings. A vivacidade de se ouvir um grito bem alto no pé do ouvido de manhã cedo:
- Dona Maria, a senhora esqueceu a sacola! Ei moço, venha cá, é três por cinco reais!!!!
Nada disso você encontra fácil por aqui.
Outro dia, sonhei que o carro do ovo passava aqui na rua. North State Parkway. Eu, na maior alegria. Mas não deu tempo nem de correr pra pegar a vasilha e o dinheiro: o prédio todo começou a ligar pro 190. Acordei com o barulho da sirene da policia e dos bombeiros riscando na porta do prédio. Não deu nem tempo de matar a saudade da musiquinha. Cercaram o pobre do carro do ovo. Não é fácil não, minha gente. Levantei da cama e fui verificar se era sonho mesmo. Era. Voltei pra cama ainda agoniado com o barulho das sirenes na minha cabeça. (As sirenes nos EUA são mais chatas do que em qualquer outro lugar que já ouvi... parece que você está assistindo a sessão da tarde da Globo). Quando peguei no sono, lá veio o sonho de novo. Mas agora já estava transformado num justiceiro. Do ponto onde parei, as sirenes de novo no pé do ouvido, lá ia eu abrir a janela pra gritar lá de cima pra deixarem o pobre do carro do ovo em paz. Sem saber abrir direito a janela, acordei quando o pedaço da janela veio abaixo e a sindica já estava na minha porta perguntando o que foi. Eita vida...

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