Ele não chegou a completar todo o movimento, pois tinha
medo. Poderia desencadear uma catástrofe sem tamanho. Imbecil. O mundo seria
outro, dizia. E ele não teria um lugar pra se esconder. Por que alguém se
esconderia do mundo? Como não completar um movimento que, no fundo, era um
movimento? Como estar à 320Km/h sem derramar sua xícara de cafés sobre a blusa?
Como não se sentir à 320Km/h? Pensando agora, isso soa tão débil e tão sábio. O
mundo não é um lugar agradável. Jamais foi. E as pessoas insistem em nascer aos
milhões sem nem saber onde colocar as mãos. Eu sempre invejei quem nunca se
pergunta onde colocar suas mãos. Onde se colocam as mãos? Eu sempre as deixo
descrever um movimento caótico no "mundo vácuo". Um zig-zag
apressado, mas não sem sentido. E é assim que as pessoas me conhecem. Era assim
que eu costumava conhecer as pessoas. Pelas trajetórias de suas mãos. Acabei de
ver um filme chamado Rumba, no Saint-Exupéry. Um filme também sobre mãos. Mãos
que descrevem uma trajetória tão incerta no ar... sem nunca se deixarem tocar.
Eu sempre desconfio de mãos que não se deixam tocar. Não. No fundo, nada disso
funciona. Aprendi hoje que a água não chega a 100°C aqui. Impossibilidades. Mas
isso não impede que as batatas estejam sempre cozidas. Nem que a gente as tenha
sobre as mãos. Pra nossa sorte também sem sentido.
Friday, 17 October 2008
Sunday, 5 October 2008
Fedor
Eu já falei tanto sobre os cheiros da França... mas vou
continuar a falar sobre isso. É que hoje de manhã, um pesquisador à beira da
aposentadoria, deu a maior bronca no rapaz que faz a limpeza, reclamando do
cheiro do produto que ela passava no chão. Ele reclamava que o cheiro do
produto estava super forte, e pediu pra o rapaz abrir o reservatório de
produto, e ir buscar a caixa do produto pra que ele pudesse ler sobre a
composição. Fiquei tão chocado com aquela cena; não pela grosseria do nosso
colega (isso já é muito comum no nosso meio de pesquisa, onde os egos são
enormes), mas pela constatação de que o cheiro que eu sentia devia ser completamente
diferente daquele que o velho sentia. Na verdade eu estava achando super
agradável. Tanto que ele me perguntou sobre o que eu achava do cheiro, certo de
que eu iria compactuar com sua observação "imunda", mas na verdade eu
me fiz de desentendido e falei displicentemente: tem um cheiro de limpeza – se
é que isso existe. Bem, fiquei pensando nos cheiros da França. E como eles
podem ser diferentemente tratados pelos estrangeiros. Outro dia, passei pela
sala desse mesmo senhor e senti um fedor no ar que mais parecia algum sanduíche
de munster abafado por uns três dias, esquecido num canto qualquer. Ele, o
senhor, estava feliz e cantante. Ninguém foi reclamar com ele. Tem algo errado
nos cheiros do mundo, não? Ou sou eu que além de daltônico, sou olfato-deficiente?
Não acredito nisso. Na verdade, quem tem alguma deficiência em algum dos
sentidos acaba super-desenvolvendo os outros. Por falar nos cheiros da França,
os meios de transporte públicos começam a ficar impraticáveis: essa época de
transição verão/inverno deixa os franceses dias sem tomar banho... ou melhor,
sem encostar em água. Ainda por cima tiram os casacos sujos guardados do
inverno passado... meu deus! Ainda mais porque ainda não é tempo de ligar o
aquecimento geral. Até eu já passei uns dois dias sem tomar banho... mas, ao
contrário deles, eu sempre vou saber quando estou fedendo. Não sei até
quando...
Thursday, 2 October 2008
Comprimento de onda
Aqui existe uma expressão usada por todos – entre outras
tantas – que define completamente a nossa diferença cultural perante os
franceses. Se eles encontram alguém interessante e que tem pensamentos e idéias
parecidas, eles dizem: "nous sommes toujours sur la même longuer
d'onde" (estamos sempre no mesmo comprimento de onda). Obviamente que essa
expressão se refere à idéia básica da ressonância em física. Fico pensando que no
Brasil, provavelmente, uma expressão como essa nunca seria moda. Estou errado?
Quantas pessoas no Brasil saberiam o que significa ressonância? É
impressionante como aqui você pode juntar na mesma mesa varredores de rua,
pedreiros, universitários, aposentados, carpinteiros... e todos vão discutir
sem problemas sobre a mesa. Salvo algumas exceções, claro. Ontem, vi por acaso,
no blog de um jornalista sergipano super sério que apresenta o jornal da TV
Aperipê, um vídeo mostrando as chamadas da propaganda eleitoral no Brasil. Meus
amigos, o que a gente pode esperar de um país como o nosso? O que podemos
fazer? Eu não sei.
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