Eu praticamente aprendi a ler em casa. A gente precisava aprender o hino nacional para cantar no desfile de 7 de setembro da cidade, e eu não me contentava em saber só uma parte. Queria saber aquela segunda parte também. Aquela que as pessoas não cantavam (e não sabiam). O jeito era aprender a ler. Então, posso dizer que o que me fez aprender a ler foi cantar até mesmo a segunda parte do hino nacional. Bem, mas o fato é que quando aprendi a ler, e já um pouco mais tarde, gastava tardes inteiras lendo revistas e livros antigos na casa da Prata (Prata é o nome do sítio dos meus pais; o nome vem de um riacho que desce da Serra Comprida e tem o mesmo nome). Minha mãe, para se livrar de vários livros e revistas velhas que entulhavam a casa da cidade, resolveu levar tudo para o sítio.
No meio da pilha de coisas, eu achava de tudo. Desde livros de romance, até livros acadêmicos e revistas. Eu, obviamente, gostava só dos que tinham imagens, fotografias. Várias revistas "Manchete". Uma delas toda misteriosa e inacessível, com fotos do casamento de Lady Di com o príncipe Charles num palácio na Inglaterra. Bem, estou falando de início dos anos 1980. Eu sei que estou velho! Aliás, sempre fui. Bem, mas de toda essa pilha de coisas, o que eu mais gostava era de ler dois livros de geografia, os quais já deixava na posição de pegar na próxima ida ao sítio. Um chamava-se "O velho mundo" e o outro "O novo mundo". Passava horas vendo as imagens e lendo (precariamente) as coisas que me chamavam a atenção de criança curiosa. Lembro perfeitamente da sensação de pertencimento (identificação) às cidades do Novo Mundo. Prédios altos, modernos, quadrados, vidraças planas, espelhos, tudo aquilo era o que a gente gostava (e chamada) de progresso, o que se via na televisão. Entendia (precariamente) que Nova Iorque era a civilização que queríamos (ou teríamos que) alcançar um dia. De outro lado, via o velho mundo como algo realmente velho e ultrapassado. Algo que deveríamos e tenderíamos cada vez mais a nos afastar. Entendia o novo mundo como a superação do velho mundo. E acho que o próprio título dos livros me levava a acreditar nisso.
Quando pisei pela primeira vez no solo da Europa, quase 20 anos depois desses acontecimentos no sítio Prata, senti algo muito estranho: eu não pertencia nem ao novo nem ao velho mundo. Sentia-me um completo anônimo na fila de saída do avião, esperando pela hora de ser controlado pelos policiais de alfândega. Eu também enxergava o mesmo anonimato na cara dos brasileiros chiques que desembarcavam comigo e que tentavam demonstrar, de qualquer forma, uma enorme familiaridade com essa dita "civilização". Ainda do finger do avião, eu olhava para fora e não conseguia identificar nada de familiar. A tinta que pintava o chão do aeroporto era diferente. O assoalho era feito de um material que jamais tinha visto. A roupa dos operadores de solo era nova, colorida. As cores eram vívidas, não parecia haver desbotamento na Europa. Tudo parecia saído da embalagem original ou era recém-pintado. Com uma certa tristeza, eu entendia perfeitamente que eu não pertencia a nada daquilo e, mais claramente ainda, que eu tinha sido excluído da construção de tudo aquilo.
Eu já possuía uma visão mais ampla do que se chamava de "civilização", mas não encontrava necessariamente uma ligação entre a minha vivência de criança e adolescente em Areia Branca e aquilo que me poderia inserir, de fato, nessa verdadeira “civilização”. Lembro-me que cheguei ao alojamento da Universidade e não conhecia ninguém. A minha orientadora de lá tinha me passado um telefone de uma aluna que eu poderia contatar, caso precisasse de algo – segundo o que me foi informado por ela. Liguei para a tal menina no primeiro dia que cheguei, pois queria conversar com alguém e entender mais do funcionamento das coisas naquele país novo pra mim. Não achei que haveria problema, pois ela me tinha sido recomendada e, além disso, no Brasil, adorávamos receber estrangeiros e lhes dar apoio. Mas não foi o que aconteceu. Ao telefone, a menina me perguntou friamente o que eu queria, de fato, com ela. Respondi que queria conversar com ela, "jogar conversa fora". Ela foi enfática e respondeu sem rodeios que se eu tivesse algo realmente importante para conversar com ela que ligasse novamente, mas que não sendo assim, ela estaria disponível para me encontrar somente na segunda-feira. O seu tom de voz era muito mais protocolar do que propriamente de irritação ou má educação, como raivosamente eu tentava acreditar. Não somente com raiva, mas com muita tristeza também, desliguei o telefone plenamente consciente de que não eram somente os objetos físicos e materiais que se distanciavam do que eu era: o próprio pensamento das pessoas era diferente.
Peguei minha mochila e desci atordoado na direção do centro da cidade. Levei minha máquina fotográfica e tirei a minha primeira foto naquela cidade. Algum tempo depois, um amigo brasileiro de longa data que viu essa foto na internet me enviou uma mensagem perguntando se estava tudo bem comigo. Ele tinha me estranhado: achava que algo estava errado comigo, que eu guardava uma tristeza grande no rosto. Ele estava certo. Mas nunca disse isso pra ele, pois no fundo eu próprio não sabia o que se passava comigo naquele momento.
Depois de quase um ano morando fora do Brasil, comecei a perceber que o nosso modo de ser brasileiro parece, de alguma forma, nos impedir de alcançar o que se chama de “civilização”. Para alcançar a dita “civilização” eu teria que, pouco a pouco, distanciar-me do que eu era como brasileiro. Parecia não haver combinação possível entre o “ser brasileiro” e o “ser civilizado”. Nossa espontaneidade tão natural e apego às pessoas, nosso jeito de resolver as coisas, de brigar, de olhar para alguém, de sorrir, essa alegria sem precedentes, tudo isso parecia não valer nada nesse mundo “civilizado”. Ou, pelo menos, não possuir qualquer significado. O mundo que eu acabava de descobrir era tão protocolar quanto foi a menina que me atendeu ao telefone. A mensagem era clara: eu teria definitivamente que me "civilizar".
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