Friday, 31 October 2014
E ainda assim
Você não canta
(âncora que se arrasta no fundo escuro, e ainda assim)
Você não castiga
(parte que paralisa, fora e dentro do oco do dentro do dentro de mim)
Você não invade
(ainda que seja a minha metade desocupada, parte abandonada, nesse eu sem fim)
Você não come
(daquilo que me consome vermelho, esse quase anjo, querubim)
Você não ouve
(apenas conjuga, costura e se apropria do que não é sim)
Você não se acanha
(vergonha do beijo roubado, no alto, bem alto, trampolim)
Você não me cobra
(tampouco contorna, retorna, ou oscilas, capim)
Você não tem medo
(assume a postura de herói de uma rua, acuada, longe, bem longe de mim)
Você não percebe
(o que se ergue, pro lado, enorme, disforme, e , ainda assim)
Sunday, 12 October 2014
A minha nova politica
Pra legitimar o preto no mundo que sou não posso deixar de escrever sobre política. Ainda que seja de uma forma simplificada. E não porque eu ache que, para me comunicar com vocês, deva baixar o nível. É porque, mesmo eu, ainda não alcancei a profundidade necessária para falar de política. Desde pequeno, achava uma chatice esse negócio de política. A primeira vez que me confrontei com isso foi numa campanha para prefeito de Areia Branca no início dos anos 1980 e onde se ouvia no jingle da campanha de um dos candidatos que você poderia “entrar pelo cano” se não votasse certo. Eu achava aquilo engraçado, mas claro que não alcançava o sentido daquela frase. Bem mais tarde, em 1992, minha mãe foi candidata à prefeita de Areia Branca. Lembro que todos diziam a ela que era uma loucura se meter nesse meio cheio de corrupção, no que ela prontamente respondia: e se a gente, que pode fazer algo diferente, não fizer nada, quem vai fazer? Era o primeiro grito de socorro político que eu ouvi em alguém mais próximo de mim. Eu vejo as campanhas populares hoje e vejo que minha mãe, naquela época, já fazia isso. Enquanto todos faziam os megacomícios com artistas de renome nacional, mamãe ia nos povoados com uma Brasília velha e muitas pessoas com vontade de ajudar e fazia tardes recreativas com as crianças. Fazia panfletos com plano de governo para distribuir nas casas, como se as pessoas fossem mesmo ler. Era a magia de se acreditar que algo pode realmente ser diferente! Mesmo com tudo isso, ainda assim não sentia qualquer atração por política. Minha mãe teve 200 votos na cidade e não seria eleita nem para vereadora. Então, mais e mais, eu dizia não a isso tudo. Mas ela nunca desistiu. Foi ser agente de mudança nos povoados criando associações de moradores com o pessoal do campo pra fazer eles reivindicarem o que eram os seus direitos. Era chamada de subversiva. O engraçado é que ela votou em Collor, mesmo com as discussões profundas que a minha irmã, então estudante de educação física da UFS, trazia pra casa e eu ficava atento. Mais de dez anos depois, quando fui morar na França entre 2005 e 2006, lembro de ter ficado muitas vezes envergonhado de não poder dialogar de igual para igual com aqueles que me parabenizavam por termos eleito um operário para a presidência do Brasil, e que vinha mostrando ter mais respeito pelo povo. Eu mesmo tinha votado em Lula. Um amigo meu, francês, o Laurent, filho de um anarquista, quando eu disse que não gostava de política e que não ia com ele a uma manifestação no centro de Mulhouse, disse com a secura e a distância própria de um europeu: mas vocês no Brasil ainda são muito terceiro mundo para não gostar de política! Essa frase ficou na minha cabeça por muito tempo. Fiquei muito ofendido com ele a ponto de querer me afastar. Eu não soube dar àquela frase o sentido necessário para poder me libertar da ignorância política autoproclamada em que eu vivia. Hoje, com a ajuda de um outro amigo, o Beto, eu consegui realmente dar um sentido maior a tudo que, no fundo, eu sentia dentro de mim, mas não sabia por onde começar. E, realmente, para agradecer a essas pessoas que passaram pela minha vida eu tenho saído cada dia mais do meu silêncio político. Do meu armário político. Foram 500 anos de silêncio. De “cale a boca negada”! E eu, nos meus 36 anos sobre essa terra, não quero mais me calar diante de tudo que vejo de errado no mundo. Não sei onde isso vai parar, mas sei que isso só começou.
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