Monday, 16 December 2019

Quase sonho...

Num quase sonho, eu estava em Aracaju. Fui ao supermercado. Enquanto procurava coisas numa das prateleiras, um garoto de uns 11 anos chegou junto a mim e pediu alguma coisa, de modo que eu não pude (na verdade, não quis) ouvir direito. Imediatamente após ele parar de falar, eu disse:
- Não tenho, não.
O garoto, então, olhou nos meus olhos e disse, já desistindo, e com uma sinceridade impensável:
- É, moço, ninguém acredita quando a gente fala.
Ainda no sonho, a fala dele me diminuiu ao que poderia ser o menor objeto do universo. Eu, esmagado no meu sonho inventado. Porque me dava conta de que, sequer tinha prestado atenção àquilo que "ninguém acreditava" e que, portanto, não saberia repetir. Do fundo do meu sonho, da minha catástrofe, agora completamente acordado, parado, com os olhos nos olhos do garoto, eu entendia que ele entendia que eu precisava ouvir novamente o pedido:
- Moço, é que a minha mãe não pode mais trabalhar e minha irmã está passando fome. O senhor poderia comprar um litro de leite pra eu levar? (ele usou exatamente essas palavras).
Eu não lembro exatamente como tudo andou a partir daí. Lembro que levei pro caixa um pacote inteiro de caixas de leite e que, no meio da minha emoção desastrada no caminho até o caixa, conversei sobre outras coisas com o garoto. Mas não consigo lembrar o quê. Os psicólogos dizem que, nos sonhos, as partes que a gente esquece são as partes em que a gente não se permite vivenciar. Se isso for verdade, eu sei porque: provavelmente, pela vergonha infinita que me tomou naquele momento. Uma caixa de leita era nada. O que quer que eu dissesse, era nada.

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