Ele disse pra se ter cuidado antes de abrir a
porta. Será que ele sabia que eu estava atrás daquela porta? Disse mesmo para
eu procurar outra pessoa do nosso sangue. Não fui. Acho que isso é defeito meu,
mas não sei procurar alguém à toa. Preciso de algum motivo. E ele sempre teve
motivos para sair de casa; os motivos dele. Eu aceitei. Nunca soube direito
ouvir o seu violão pausado e cheio de uma alegria sofrida. E toda vez que uma
palavra mais forte saia da sua boca, eu era feliz. Mas não era só isso. Um dia
eu fiz a viagem mais linda do mundo. Era assim: acordei cedo, arrumei a
mochila, e fomos andando em direção a grande montanha. Eu queria saber se era
possível subir aquilo que só via de muito longe. Sempre fui fascinado pelo
longe... o distante. No meio do caminho teve um amigo. Terminamos a viagem de
carro, no topo do mundo. E eu era a pessoa mais feliz do mundo vendo os carros
de brinquedo andarem frágeis sob os meus pés. Eu abria os braços e respirava
lento. Eu sabia que com um pequeno gesto meu eu esmagaria tudo aquilo que me
dava a vida. Ele me olhava apaixonado. Depois resolvemos descer, e foi a
primeira vez que eu comi aquela fruta. Um araçá. E eu acho definitivamente que
essa fruta pode ser feita de sonhos e segredos. Mas o que eu conto não é
segredo. Pois o amor mais puro não pode ser segredo. E nunca vai poder ficar
atrás da porta. Ele também soube disso. Eu não o perdi. E talvez não fosse uma
coisa qualquer atrás da porta. Nunca. Ele sempre vai estar aqui. E semana
passada eu pude lhe beijar de novo, um beijo doce e rápido. O beijo que é a
confusão da alma. É quando somos um só. Eu nasci dele. Eu sou ele. Eu sou.
Eu... (e já não tinha tempo outra vez: era quinta-feira).
To my father
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