E se alguém te falasse sobre limões da
existência? Você teria coragem de pedir uma caipirinha? E se outra te dissesse
que a vida é oca? Você diria que não? E teria ainda vontade de ir viajar de
bicicleta pelo Chile? E se não existisse Chile e o cachorro da vizinha latisse
alto, em aramaico? Você acreditaria que Jesus era fiel? E escutaria um funk até
o fim num ônibus sobre a linha-vermelha? Você saberia o que é funk? E se ele
dissesse que teria vivido com você pra sempre se soubesse a verdade? Você ainda
pensaria em voltar a pé? E se você não soubesse nadar? E ainda não soubesse o
que significa "tant pis"? Você vomitaria depois de duas horas num
barco sem motor? Você reconheceria aquela nota acidentada daquela suíte de
Bach? Você acordaria as três da manhã vazio e sem nem ter sonhado? E se não
existissem os sonhos? Mais que isso, e se nada pudesse ser refeito sobre o
leito seco daquele rio? O rio-seco-vermelho-das-margens-alteradas? Você se
sentiria perdido no labirinto de vidro do espanhol distante? Ou você se
apaixonaria loucamente por Claude Jade e Jean-Pierre Léaud nos filmes do
Truffaut? Ou ainda, você tentaria se tornar um colaborador no Líbano? Ou você
apenas sentiria a dor de ter perdido? E se não existisse o perdão? E nem a
cura? E nem mesmo a volta clara daquele que sempre te foi irmão? Você saberia
dizer sim? E depois, você poderia tomar banho frio numa noite de vento forte?
Você amaria o vento? Você conseguiria ouvir o sentido escondido de cada palavra
na música "Fake plastic trees"? Você cantaria a ópera Carmem, de
Bizet, fazendo um bolo de chocolate? E se o chocolate fosse tão amargo a ponto
de você perder a noção do que é doce? E começasse a pensar que tudo seria
amargo? Você aceitaria aquele beijo? Você saberia deixar alguém te amar
livremente? Você teria a força de dizer "eu não preciso"? Você
saberia mesmo o que é não precisar? E se a resposta fosse aquela faca aguda? E
se ela fosse pronunciada num francês caipira ainda com gosto de Comté na boca?
E se você tivesse a coragem de ler "Notre-Dame-des-fleurs", do Jean
Genet? Você tocaria mesmo sua mão sobre a carne quente, e dançaria um mambo
durante um jantar imbecil? E se nada fosse consistente? E se mesmo a palavra
tivesse a capacidade de não se deixar ouvir? E se ele não se deixasse ouvir? E
se você chorasse por duas horas seguidas vendo "Le notti di Cabíria"
sob uma tela fria de um quarto frio de uma vida fria? Você perderia cinco
quilos em apenas cinco dias? Você estaria apto a ouvir o som daquela voz? Você
seria você, esse eu que foge dos outros? Você saberia mesmo o que sou eu? E se
eu fosse você?
No comments:
Post a Comment