Um domingo, dia 12 de abril de 2009. São
exatamente 17h00 aqui em Paris – esse horário que nos da uma dimensão diferente
do dia, onde tudo parece correr. Estou no Charles de Gaule, terminal 2G,
esperando o avião que vai me levar pra Strasbourg. Mas ele só parte as 20h50. Isso
quer dizer que eu tenho mais de 3h pra nada fazer. Como hoje fazem 15°C,
resolvi esperar aqui fora, no jardim. Estou de camiseta azul, um azul que eu
gosto e que tem misteriosamente escrito “180:61”. Varias outras pessoas estão
também tomando sol. Mas o sol de Paris é sempre esse quase borrão no céu, quase
no horizonte, no meio desse céu cinza-azulado que sempre envolve as minhas
visitas a essa cidade. Já estou acostumado. E na verdade, tenho inveja de quem
diz que tomou sol em Paris.
Hoje venta um vento frio e cheio de odores impensáveis.
É primavera e, apesar das arvores ainda estarem sem muitas folhas, elas crescem
verdes e constantes ao ponto de a gente sentir o movimento da estação. Tudo
aqui é primavera. Mas as pessoas parecem que ainda não se deram conta disso e
vestem os mesmos casacos do inverno passado. Em minha frente, um rapaz de uns
19 anos concentrado nas próprias mãos. Ele lê um livro e de vez em quando olha
atento para as próprias mãos como se elas tivessem sofrido um acidente fatal e
por muita sorte ele não as tivesse perdido de vez. Esta com uma camisa de manga
listrada, de listras alternadas de amarelo-tijolo e verde forte. A entrada do
Terminal 2G tem varias plataformas cobertas em diferentes níveis de altura e me
fazem ficar tonto de olhar. São cinza. E as pessoas ficam embaixo aguardando,
aguardando... deus sabe o que.
Um grupo de jovens de todas as cores e formas
parou na minha direita agora. Vieram buscar a mãe de alguns deles. Ou aquela
mulher seria a mãe de todos eles? Porque todos vieram ao encontro dela? Calças
rasgadas, desbotadas, cabelos azuis, raspados, enormes, cada um com uma forma.
Mesma mãe? Talvez. Parecem saídos de desenhos animados. E eu já tenho até uma voz
pra cada um deles! Decididamente, a mãe é calma demais pra ser mãe deles...
Outra mãe puxa o filho sentado na mala pelo caminho
e aquilo me enche o coração de vitória, como quando acabo uma viagem de avião.
Eu sempre sou vitorioso quando saio de um avião. Inútil vitória, eu sei. Por que
os ônibus parados na frente do terminal são todos de vidro negro? isso me da
uma impressão de ter chegado, não de Aracaju, mas de alguma cidade brasileira no
início do século passado, ou de Cuba, de Mumbai pobre.
O sol se esconde ainda mais, e eu resisto sem
usar o casaco. Como numa revolta adolescente. Um grito inútil e sem sentido
algum. Aliás, acabo de notar um rapaz que usa os mesmos sapatos que eu. Ele
também notou os meus sapatos, e foi só por isso que eu o notei em seguida.
Uma senhora desce do ônibus de vidro e corre na direção do terminal, o
qual se desdobra vertiginoso em plataformas desniveladas. Provavelmente ela
acaba de perder o avião. O mesmo que eu enxergo daqui, decolando alto num céu
cinza-azulado. Quantas vezes teríamos escutado o nome daquela mulher em vão no
saguão do aeroporto? Eu detesto escutar aqueles last calls. Sempre fico agitado
como se fosse eu o atrasado. Mas agora eu estou livre de não ter escutado o
nome daquela senhora. Ela acabou de entrar no aeroporto ainda correndo e, de
certo, ainda guarda a esperança dentro dela. Eu também já guardei um dia.
Sempre temos o próximo avião, senhora X, não se desespere!
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