Eu estou de volta ao Hyde Park hoje apenas porque todos ficaram assustados quando eu disse que isso aqui não me empolgou. E eu continuo achando isso, mesmo se agora eu estou sentado aqui, bem próximo ao laguinho onde algumas criancinhas inglesas se divertem (meu deus, como elas são feias!). Aliás, seria obviamente um exagero dizer que os ingleses são feios; eu diria que eles são apenas diferentes daquilo que eu procuro. Se bem que algumas vezes, me descubro tão comovido com alguns deles dentro do metrô...
Bem, nada do que eu escrevo aqui tem sentido, se eu demoro em dizer pra vocês dois que o Vitor me lembrou ontem, descendo as escadas da estação de trem do St Pancras, que eu esqueci o aniversario de vocês. E que, pra piorar ainda mais a situação, esses dois aniversários caem no mesmo dia - três de maio de todo ano! Estou aqui pensado, há uns dez minutos, o que fiz no dia três de maio desse ano, e só agora acabo de lembrar que estava voltando da Floresta Negra na Alemanha. Estória de aproveitar os últimos dias aqui nesse velho mundo, meus amigos, vocês endentem! vocês sabem que depois o negocio vai ficar difícil. De qualquer modo, eu sei que isso não justifica o esquecimento. Talvez eu pudesse reclamar da minha agenda Microsoft... ou da minha total falta de atenção de ultimamente. Mas eu só esqueci mesmo, do mesmo modo que a gente esquece de comer durante o trabalho, e se diz no final do dia: putz, que merda eu estou fazendo comigo?! Foi isso.
O Vitor me contou várias coisas (o Vitor é quase um tablóide inglês!), mas fui eu quem escrevi desesperado pra ele no primeiro dia de London, da feira que fica embaixo da estação London Bridge dizendo: meu filho, aqui o povo fala comigo e eu fico batendo os olhos, sem entender e sem acreditar no que escuto. Não tenho nem força pra dizer “sorry?”. E foi essa a minha impressão primeira em London. Os carros, as pessoas, tudo andando no lugar errado. E eu assustado com a possibilidade de estar fora do mundo, e de morrer atropelado a cada esquina. Aliás, o magro me salvou de morrer atropelado na frente da casa da rainha, o palácio de Buckinham! E ela nem iria notar o alvoroço, provavelmente.
Como tudo pode parecer tão irreal aqui? Os ônibus vermelhos que nos enganam e nunca param onde a gente deseja, os taxis pretos engraçadinhos que nunca respondem quando você acena com a mão depois de uma noite num pub do Camden, os preços das coisas... e esse esquilo desabusado que não sai do meu lado e deve falar inglês como todos os outros...
Falei ao Vitor (em português) que iria ligar pra vocês assim que chegasse ao Hotel. Mas não o fiz porque fiquei com medo da conta do celular. Também porque assim que cheguei, a Anne e a Hélène estavam procurando um pub legal pra ir. E saímos logo em seguida pro “The Dublin Castle”, no Camden. Lembrei muito da Barbara e do Empório, em Ipanema, última paragem no Rio, domingo madrugada. Tinha música ao vivo e o som era legal. Dançamos até as 2h30 da manhã e voltamos pra casa a pé porque os taxis nos ignoravam. Claro – com esse árabe dando com a mão, ao ponto mesmo de explodir aquela cidade inteira! Aliás, como eu sou vigiado aqui em London, meu deus. Imagine! se eu fosse terrorista, poderia explodir uma bomba na hora mesmo em que eu estivesse embaixo do rio Thames, no metrô. Aquilo seria o suficiente pra inundar quase todas as linhas da cidade. Que horror! E foi por isso que eu nem tive tempo de ligar pra vocês dois (desculpa esfarradapa!). Na estação, esperando o trem que levaria o Vitor pra Cambridge, me aproximei dos trilhos e quando me virei, já vi um policial vindo na minha direção, com a cara de mau. Todo vestido com aquele avental amarelo! De novo, fui salvo pelo Vitor! Que, aliás, virou meu super herói em London!
O John Dalton era “daltônico”, inglês (?), e eles (os ingleses) ainda insistiram em indicar as linhas de metrô daquela cidade com cores. “Eu também sou daltônico!”, tinha vontade de gritar na cova da falecida Diane. Você, que é a rainha dos menos favorecidos! Bravo! Whatever! Mas isso é muito pouco! London tem me feito muito bem! E é exatamente durante as lentas subidas nas escadas do metrô que eu tenho tempo de pensar e procurar nas caras das pessoas do meu lado, aquilo que me falta. London deve ter tudo que falta a um ser humano. E talvez eu fale da solidão. Como os engravatados apressados, enchendo aquelas mochilinhas pretas com as maiores felicidades do mundo e um notebook.
É exatamente esse “ser sozinho” que deve ter me feito adiar absurdamente o aniversario de vocês dois. Eu, que já fui capaz das maiores barbaridades pra dizer a vocês “feliz aniversario”, esqueci completamente desse último. Tivesse eu em Areia Branca, e passaria horas a falar com vocês. Mas estou aqui, ilhando, sozinho, estrangeiro, gelado, decididamente daltônico. Ainda com esse cheiro de não-sei-o-que no ar e essas crianças, que agora correm atrás dos esquilos. O lago esta tão próximo delas que eu tenho vontade de gritar bem algo “be careful, lake on the left!”. No bar ontem a noite, várias pessoas falaram alegres comigo sem me conhecer. Polidamente, mas não sem uma ligação amorosa subjetiva... inglesa? O que pode parecer totalmente idiota. Mas o que eu queria dizer pra vocês, Fabi e Roger, é que vocês são tão mais fortes do que isso tudo que eu vivo e descubro que eu já nem sei mais se devo escrever pra vocês todo ano dizendo “feliz aniversario”. Que sentido isso faria?
Bem, nada do que eu escrevo aqui tem sentido, se eu demoro em dizer pra vocês dois que o Vitor me lembrou ontem, descendo as escadas da estação de trem do St Pancras, que eu esqueci o aniversario de vocês. E que, pra piorar ainda mais a situação, esses dois aniversários caem no mesmo dia - três de maio de todo ano! Estou aqui pensado, há uns dez minutos, o que fiz no dia três de maio desse ano, e só agora acabo de lembrar que estava voltando da Floresta Negra na Alemanha. Estória de aproveitar os últimos dias aqui nesse velho mundo, meus amigos, vocês endentem! vocês sabem que depois o negocio vai ficar difícil. De qualquer modo, eu sei que isso não justifica o esquecimento. Talvez eu pudesse reclamar da minha agenda Microsoft... ou da minha total falta de atenção de ultimamente. Mas eu só esqueci mesmo, do mesmo modo que a gente esquece de comer durante o trabalho, e se diz no final do dia: putz, que merda eu estou fazendo comigo?! Foi isso.
O Vitor me contou várias coisas (o Vitor é quase um tablóide inglês!), mas fui eu quem escrevi desesperado pra ele no primeiro dia de London, da feira que fica embaixo da estação London Bridge dizendo: meu filho, aqui o povo fala comigo e eu fico batendo os olhos, sem entender e sem acreditar no que escuto. Não tenho nem força pra dizer “sorry?”. E foi essa a minha impressão primeira em London. Os carros, as pessoas, tudo andando no lugar errado. E eu assustado com a possibilidade de estar fora do mundo, e de morrer atropelado a cada esquina. Aliás, o magro me salvou de morrer atropelado na frente da casa da rainha, o palácio de Buckinham! E ela nem iria notar o alvoroço, provavelmente.
Como tudo pode parecer tão irreal aqui? Os ônibus vermelhos que nos enganam e nunca param onde a gente deseja, os taxis pretos engraçadinhos que nunca respondem quando você acena com a mão depois de uma noite num pub do Camden, os preços das coisas... e esse esquilo desabusado que não sai do meu lado e deve falar inglês como todos os outros...
Falei ao Vitor (em português) que iria ligar pra vocês assim que chegasse ao Hotel. Mas não o fiz porque fiquei com medo da conta do celular. Também porque assim que cheguei, a Anne e a Hélène estavam procurando um pub legal pra ir. E saímos logo em seguida pro “The Dublin Castle”, no Camden. Lembrei muito da Barbara e do Empório, em Ipanema, última paragem no Rio, domingo madrugada. Tinha música ao vivo e o som era legal. Dançamos até as 2h30 da manhã e voltamos pra casa a pé porque os taxis nos ignoravam. Claro – com esse árabe dando com a mão, ao ponto mesmo de explodir aquela cidade inteira! Aliás, como eu sou vigiado aqui em London, meu deus. Imagine! se eu fosse terrorista, poderia explodir uma bomba na hora mesmo em que eu estivesse embaixo do rio Thames, no metrô. Aquilo seria o suficiente pra inundar quase todas as linhas da cidade. Que horror! E foi por isso que eu nem tive tempo de ligar pra vocês dois (desculpa esfarradapa!). Na estação, esperando o trem que levaria o Vitor pra Cambridge, me aproximei dos trilhos e quando me virei, já vi um policial vindo na minha direção, com a cara de mau. Todo vestido com aquele avental amarelo! De novo, fui salvo pelo Vitor! Que, aliás, virou meu super herói em London!
O John Dalton era “daltônico”, inglês (?), e eles (os ingleses) ainda insistiram em indicar as linhas de metrô daquela cidade com cores. “Eu também sou daltônico!”, tinha vontade de gritar na cova da falecida Diane. Você, que é a rainha dos menos favorecidos! Bravo! Whatever! Mas isso é muito pouco! London tem me feito muito bem! E é exatamente durante as lentas subidas nas escadas do metrô que eu tenho tempo de pensar e procurar nas caras das pessoas do meu lado, aquilo que me falta. London deve ter tudo que falta a um ser humano. E talvez eu fale da solidão. Como os engravatados apressados, enchendo aquelas mochilinhas pretas com as maiores felicidades do mundo e um notebook.
É exatamente esse “ser sozinho” que deve ter me feito adiar absurdamente o aniversario de vocês dois. Eu, que já fui capaz das maiores barbaridades pra dizer a vocês “feliz aniversario”, esqueci completamente desse último. Tivesse eu em Areia Branca, e passaria horas a falar com vocês. Mas estou aqui, ilhando, sozinho, estrangeiro, gelado, decididamente daltônico. Ainda com esse cheiro de não-sei-o-que no ar e essas crianças, que agora correm atrás dos esquilos. O lago esta tão próximo delas que eu tenho vontade de gritar bem algo “be careful, lake on the left!”. No bar ontem a noite, várias pessoas falaram alegres comigo sem me conhecer. Polidamente, mas não sem uma ligação amorosa subjetiva... inglesa? O que pode parecer totalmente idiota. Mas o que eu queria dizer pra vocês, Fabi e Roger, é que vocês são tão mais fortes do que isso tudo que eu vivo e descubro que eu já nem sei mais se devo escrever pra vocês todo ano dizendo “feliz aniversario”. Que sentido isso faria?
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