Sim, eu sempre fui só. Sempre tive um disfarce perfeito para fugir das coisas. Uma caminhar suave e silencioso. Um jeito leve de falar e um corpo com exatos 62 kg programados para não ocupar lugar no espaço. Sempre fugi do encontro direto, do confronto dito inevitável. Sempre preferi não jogar, não torcer, não responder. Sempre fugi de encontros, de multidões, de onde mais que dois seres pudessem existir. Como um medo exagerado de sentir, eu sempre gastei toda a minha energia para olhar o mundo por entre as frestas. Sentir sempre me inquietou. No sentir, não se pode prever nem organizar. Sempre fui um coadjuvante: o que ordena as coisas. Para que o grande acontecimento se dê de fato. E sem jamais participar dele. Eu sou o que observa. E enche os olhos de lagrima, numa emoção imensa, depois que a cortina fecha.
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