Eu sempre tive medo do oceano Pacifico. Esse nome, apesar
de sugerir outra coisa, me dava muito medo desde a época do colégio. Uma vez,
na quinta série, depois de pintar o meu “Trabalhando com mapas” e levá-lo pra
professora Inara corrigir (aliás, tenho que escrever um dia sobre essa
professora que me ensinou tudo sobre o mundo dentro de um Geoatlas), ela me
falou assustada: mas por que você pintou o oceano de lilás? Eu gaguejei e
respondi: porque não tinha o lápis azul! Sempre fui pouco inteligente pra me
sair das situações mais confusas... não de todas, claro. Mas acho que ela
acreditou. O fato é que o pacifico era o oceano mais extenso, cheio de
historias estranhas, nunca visto, meio “hollywoodianizado” de sessão da tarde
adolescente, e eu sempre tive medo dele.
Ao contrário, adorava o Atlântico. Com esse nome que
envolve tudo ao redor. Eu sempre me banhei nele. Eu lembro da primeira vez que
o vi e que ele me viu. Eu era pequeno, estava com minha segunda mãe na
infância, Tutu, e não parei de chorar um só instante com o barulho que ele
fazia. Eu não esperava isso de um mar. Lembro mesmo da viagem e da preparação toda
para aquela viagem... mera ilusão. Preferia tomar banho na maré do Bugiu! Sério,
Aracajuanos! Meus pais tinham uma casa de COHAB lá, quando o bairro foi
construído. Era chique ir pro Bugiu tomar banho de maré! Eu adorava!
Não lembro bem quanto voltei a gostar do mar. É
engraçado! Eu sempre lembro quando não gosto de uma coisa, e sempre tenho
dificuldades com as lembranças que me alegram. Alma infeliz, essa! Puta que
pariu!
Dia 13 de junho próximo, quando volto pro Brasil,
será a oitava vez que eu atravesso o Atlântico num avião. No início, tudo era
alegria, novidade. Mas janeiro passado, precisei ir pro Brasil fazer o concurso
pra professor na UFS e o Atlântico começou a me meter medo também. Depois de
sair de Paris, uma turbulência daquelas que ninguém fala, porque nunca passou,
pegou o nosso vôo da TAM (logo ela!) e eu fiquei em estado de choque. Ao contrário
do que eu pensava, o silêncio no avião era aterrador. Só as crianças choravam.
E eu quis tanto chorar, mas não pude. Quando cheguei no aeroporto de Aracaju, a
Joyce me esperava com o Vavau e foi tão bom vê-los assim, daquele jeito. Apesar
de eu ter contado aflito dos meus quarenta minutos de angustia, eles nunca
saberiam do que eu estava falando.
Hoje eu cheguei em casa, depois de atravessar parte do
mar Báltico de avião e vejo essa noticia sobre o avião da Air France sobre o
Atlântico. Exatamente na região que eu tenho mais aflição: o meio do oceano,
longe de qualquer grito de “terra à vista!”. Como num descobrimento ao
contrário, que nunca foi consumado.
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