Tenho um amigo que me disse que quando era pequeno,
parava na mesa durante o almoço, olhava pra todos sentados e dizia enfático:
podem falar a verdade, isso tudo aqui não existe, né? Isso tudo aqui é de
mentira, né?. Essa historia do meu amigo nunca me saiu da cabeça por que eu
também já me parei varias vezes antes de dormir tentando refazer a historia do
meu dia como alguém que não conhecesse o que se chama de verdade. O que é a sua
verdade? Com certeza ela não é igual a minha! Talvez pelo fato de desde pequeno
eu ter aprendido duramente que sou daltônico me fez sempre pensar em tudo o que
todos dizem que é “o certo”. Quando levei aquele caderno de exercícios
(Trabalhando com Mapas) pra professora Inara e ela me disse assustada “mas por
que você pintou o oceano de roxo?”, eu nunca mais fui o mesmo. Decididamente, a
minha verdade não é a sua verdade. E hoje, ouvindo uns amigos falarem de
filosofia, e da historia do pensamento humano, me pego cada vez mais abestado.
Dizem que a pior herança que a humanidade teve foi o pensamento moderno. O
pensamento pós-socrático-platônico. Antes de Platão e Sócrates, a vida era uma
mutação constante, um mistério, longe da ciência, onde as coisas nunca eram
explicadas de maneira definitiva. Não existia a verdade. As coisas e pessoas se
transformam. O corpo em si é muito mais importante que o pensamento que define.
Por isso a mitologia grega, cheia de estórias tortuosas pra explicar a vida. O
tempo que nunca teve nem fim nem começo. E a gente no meio disso tudo todo dia
se modificando, e sem qualquer verdade que possa nos guiar. Platão e Sócrates
estabelecem no século V antes de cristo o pensamento moderno, o pensamento de
busca da verdade. A base do pensamento começa a se fundamentar em frases
construídas com sujeito/verbo/predicado. Ou seja, um sujeito que faz uma ação e
causa alguma coisa. E se alguma coisa dá errado, existe hoje sempre um sujeito
que praticou essa ação nefasta! É a ideia do pensamento e do homem como centro
de tudo. A verdade é sempre presente. E, por mais que isso seja imperceptível,
hoje quando dizemos “eu sou um nordestino”, estabelece-se imediatamente a minha
verdade que é compartilhada com quem me escuta. Eu sou nordestino. Essa é a
verdade. O verbo ser como o imperador da verdade ocidental. O que não existe em
várias línguas orientais, como o
mandarim. O verbo ser no mandarim não existe. O que existe de mais próximo é o
verbo da transformação. Em mandarim não se diz “eu sou bom”, se diz “eu me
transformo em bom”. O que é muito mais próximo do pensamento pré-socrático-platônico. E nos que falamos o
português, ainda estamos numa vantagem em comparação a varias outras línguas
ocidentais. O fato de podermos distinguir entre o ‘ser’ e o ‘estar’ ainda te dá a possibilidade de partilhar dessa
estrutura de pensamento original.
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