Um dia, na sala de
espera do meu oftalmologista em Aracaju li uma entrevista na revista Veja com a
Carmem Mayrink Veiga. Ela dizia que depois que ficou "pobre",
precisou abrir mão de várias coisas indispensáveis na vida dela. O jornalista
pediu algum exemplo e ela respondeu: agora eu não posso mais ir à Paris uma vez
por mês de Concorde. Então, eu não posso deixar de começar a minha serie de
manifestos sem pensar nisso; eu sempre tive uma inveja meio ordinária daquela
mulher só por causa daquela entrevista. Inveja tal que a pobre coitada nem
merece. E nem sei se caberia na sua agenda cheia de passagens nos Pet shop da
Barra da Tijuca (desculpem-me, esqueci completamente que ela nunca foi
emergente!). Bem, o fato é que amanhã eu vou pra Zurich com um amigo, logo
depois do trabalho, ver uma peça da Needcompany chamada "The porcelain
project". Então, eu, um
nego-preto-sergipano-de-areia-branca-sem-ter-onde-cair-morto, vou pra Suíça
apenas ver uma peça e volto pra França logo depois. Isso deve ser luxo, não?
Sei lá... o que você acha madame Mayrink Veiga? Tudo bem... eu aceito! Não vou
de concorde. Vou no carro do Laurent... todo cheio da sujeira que ele guarda de
recordação do inverno passado. Restos do pinheiro de natal, papéis por todos os
lados, uma cadeira que não abre direito, o chão cheio de areia de praia da
última viagem à Marseille no ano passado, várias latas de Redbull vazias, mesmo
algumas migalhas de pão daquela última vez em que estive aqui na Franca. Ah, e
esqueci de falar que provavelmente a gente deve ir escutando qualquer coisa
meio Swelll. Isso é bom pra cacete madame Mayrink Veiga! Você pode até ver no
myspace!
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