Friday, 5 December 2008

Manifesto II



Eu nunca soube ouvir música. Ainda pequeno, lembro que adorava ir pro sitio, somente pra ficar dentro do caminhão escutando músicas de boiadeiro - e olhe que eu não falo de Leandro e Leonardo etc... Passava horas sozinho dentro do carro escutando. E logo depois, no início da adolescência, eu adorava escutar o que a minha irmã ouvia no quarto dela. Mas em segredo. Sempre que ela me perguntava sobre, eu dizia: coisa mais besta essa de "...lava roupa todo dia, que agonia..." (esse argumento foi copiado, obviamente, da minha prima Gil, que sempre vivia perguntando a minha irmã como alguém poderia gostar de uma música que fala sobre "lavar roupa todo dia"! Depois, não sei porque razão, apaixonei-me pela Marisa Monte. Um nojo. Como pouca gente gostava dela na época, eu estava em vantagem: era o diferente. Eu sempre gostei de ser diferente. Então, não falava de outra coisa. Não escutava mais nada que não tivesse relação com a dita cuja. Se ela espirrasse, eu achava lindo. Não sei como ainda podia ter amigos naquela época. Depois ela começou a ser a rainha de todo mundo, e eu perdi a paixão. Ainda no fogo da Marisa Monte, veio também o Caetano. A Marisa tinha gravado uma música dele no vídeo do seu segundo disco (Mais), e eu fiquei apaixonado quando a vi cantar daquela forma. A música era "Qualquer coisa". Sabia pouco sobre o Caetano e comecei a procurar coisas dele. Achava que aquele era o cara. Falar sobre um "bezerro gritando mamãe" e aquilo parecia a ponte entre a música dos peões de boiadeiro e a própria figura da Marisa. Talvez. Naquela época eu nem pensava sobre isso. O primeiro disco que comprei dele foi o Circuladô de Fulô. E no mesmo pacote veio o "The imaculate collection" da Madona. O que faz todo sentido, obviamente. Hahahahaha! E como a Madona faz show no Rio esses dias, acho relevante citar. Enquanto isso, na varanda, todas as noites, meu pai dedilhava umas canções tristes no violão (digo tristes porque na época o violão era a coisa mais triste do mundo pra mim. E até hoje eu não fico confortável com ele, mesmo quando tentei aprender alguma coisa). Eu ouvia meu pai impacientemente. Sempre fui uma bosta em música! Pra mim, o que começou a me interessar foi o Caetano, e pronto. Lembro que um dia ouvi na Liberdade FM (a Rádio odiada e amada por mim, sem Sergipe) uma música dele, soube ao final da música pelo locutor que a música se chamava "Vaca profana". A música, era a confusão da minha mente naquela época, entrando na Escola Técnica, alcançando a liberdade de sair do Graccho, de poder falar com pessoas como eu, de me apaixonar pela primeira vez (e a segunda vez!), de aprender a dirigir, de começar a pintar borrões imbecis, de achar que eu era o máximo (idiota completo), de sentir que a gente pode tudo. Na verdade, a gente não pode nada. Mas deixe isso pra lá. A adolescência sempre me pareceu ingênua. E era. Eu sempre quis mais. Comecei a ter muitas perguntas e poucas respostas. E invejava quem tinha essas respostas, ou quem não tinha nem mesmo perguntas.  . apesar disso, eu vivia. Bem, depois de alguns anos, comecei a achar o Caetano ingênuo demais. Era como me dizia uma vez uma amiga: a gente já é tão diferente de todo mundo, pra quê querer ser ainda mais? O Caetano é isso. Ele é demais. E eu ainda me emociono muito quando escuto "Cajuína" (cantada pela Elba Ramalho) ou "Ele me deu um beijo na boca" (cantada por ele próprio) ou "Tigresa" (pela Maria Bethânia, claro).
Eu nunca escrevi um texto como eu queria. Tão simples.

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