Eu nunca soube ouvir música. Ainda pequeno, lembro que
adorava ir pro sitio, somente pra ficar dentro do caminhão escutando músicas de
boiadeiro - e olhe que eu não falo de Leandro e Leonardo etc... Passava horas
sozinho dentro do carro escutando. E logo depois, no início da adolescência, eu
adorava escutar o que a minha irmã ouvia no quarto dela. Mas em segredo. Sempre
que ela me perguntava sobre, eu dizia: coisa mais besta essa de "...lava
roupa todo dia, que agonia..." (esse argumento foi copiado, obviamente, da
minha prima Gil, que sempre vivia perguntando a minha irmã como alguém poderia
gostar de uma música que fala sobre "lavar roupa todo dia"! Depois,
não sei porque razão, apaixonei-me pela Marisa Monte. Um nojo. Como pouca gente
gostava dela na época, eu estava em vantagem: era o diferente. Eu sempre gostei
de ser diferente. Então, não falava de outra coisa. Não escutava mais nada que
não tivesse relação com a dita cuja. Se ela espirrasse, eu achava lindo. Não
sei como ainda podia ter amigos naquela época. Depois ela começou a ser a
rainha de todo mundo, e eu perdi a paixão. Ainda no fogo da Marisa Monte, veio
também o Caetano. A Marisa tinha gravado uma música dele no vídeo do seu
segundo disco (Mais), e eu fiquei apaixonado quando a vi cantar daquela forma.
A música era "Qualquer coisa". Sabia pouco sobre o Caetano e comecei
a procurar coisas dele. Achava que aquele era o cara. Falar sobre um
"bezerro gritando mamãe" e aquilo parecia a ponte entre a música dos
peões de boiadeiro e a própria figura da Marisa. Talvez. Naquela época eu nem
pensava sobre isso. O primeiro disco que comprei dele foi o Circuladô de Fulô.
E no mesmo pacote veio o "The imaculate collection" da Madona. O que
faz todo sentido, obviamente. Hahahahaha! E como a Madona faz show no Rio esses
dias, acho relevante citar. Enquanto isso, na varanda, todas as noites, meu pai
dedilhava umas canções tristes no violão (digo tristes porque na época o violão
era a coisa mais triste do mundo pra mim. E até hoje eu não fico confortável
com ele, mesmo quando tentei aprender alguma coisa). Eu ouvia meu pai
impacientemente. Sempre fui uma bosta em música! Pra mim, o que começou a me
interessar foi o Caetano, e pronto. Lembro que um dia ouvi na Liberdade FM (a
Rádio odiada e amada por mim, sem Sergipe) uma música dele, soube ao final da
música pelo locutor que a música se chamava "Vaca profana". A música,
era a confusão da minha mente naquela época, entrando na Escola Técnica,
alcançando a liberdade de sair do Graccho, de poder falar com pessoas como eu,
de me apaixonar pela primeira vez (e a segunda vez!), de aprender a dirigir, de
começar a pintar borrões imbecis, de achar que eu era o máximo (idiota
completo), de sentir que a gente pode tudo. Na verdade, a gente não pode nada.
Mas deixe isso pra lá. A adolescência sempre me pareceu ingênua. E era. Eu
sempre quis mais. Comecei a ter muitas perguntas e poucas respostas. E invejava
quem tinha essas respostas, ou quem não tinha nem mesmo perguntas. . apesar disso, eu vivia. Bem, depois de
alguns anos, comecei a achar o Caetano ingênuo demais. Era como me dizia uma
vez uma amiga: a gente já é tão diferente de todo mundo, pra quê querer ser
ainda mais? O Caetano é isso. Ele é demais. E eu ainda me emociono muito quando
escuto "Cajuína" (cantada pela Elba Ramalho) ou "Ele me deu um
beijo na boca" (cantada por ele próprio) ou "Tigresa" (pela
Maria Bethânia, claro).
Eu nunca escrevi um texto como eu queria. Tão
simples.
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