Era impossível não pensar em Clarice Lispector estando naquela cidade. Lembrava de cada detalhe dos textos que ela havia escrito sobre suas impressões de Bern, durante o período em que ela morou por lá. Após voltar pro Brasil, e já bem depois de ter separado do seu marido diplomata, ela foi cronista do Jornal do Brasil, com uma coluna semanal. Vez ou outra ela publicava algum texto com essas impressões sobre Bern. Também nas cartas que ela trocou com o Fernando Sabino (e que foram publicadas recentemente). Ela falava das fontes de água gelada a cada canto nas ruas, das ruas vazias, das construções medievais, da impressão que ela tinha de vagar sozinha durante a idade média. Do tédio que ela sentia estando ali, da sua angustia em falar numa mistura de francês e alemão, das suas idas diárias ao cinema... foi também por lá onde ela escreveu um dos seus livros mais odiados: "A cidade sitiada". Bem, devo confessar que me comovi muito desde quando cheguei naquela cidade. E não esperava nada disso. Ao contrário. Talvez porque eu tivesse feito na minha cabeça um retrato tão absurdo de Bern quanto aquele que aprendi da Clarice. Não esperava encontrar naquela cidade nada do que vi.
Ainda no trem, comecei a me apavorar com a quantidade de neve que se acumulava pelo chão e no telhado das casas. Desci do trem e a temperatura era incrivelmente suíça, -4°C. Sete horas da noite e eu tinha apenas um papel na mão onde desenhei o caminho pra chegar no meu hotel. Comprei um mapa na estação e nem me dei conta que as explicações estavam em alemão. Efeitos de Bern. Respirei fundo e sai andando rápido, procurando o caminho do hotel. Talvez essa seja a coisa interessante de uma viagem sem programações: não saber exatamente nada sobre pra onde ir. Uma liberdade que a minha cabeça de virginiano precisa de vez em quando. Chegando na primeira praça da cidade, o mercado de natal estava fechado, ninguém nas ruas pra me informar sobre a direção correta, andei mais um pouco e descobri um vale imenso na escuridão. Na minha cabeça não existia ladeiras em Bern. A cidade era plana. Mas na verdade, ela foi construída na península de um rio, então a cidade fica no alto de uma colina, e todas as ruas vão descendo na direção do rio. Estratégia de guerra. Ruas imensas, retas, paralelas entre si, sem uma única rua que faça um cruzamento entre elas. Apenas pequenas passagens no estilo mais medieval que se pode imaginar, ligam essas ruas paralelas. Apertadas, com o teto baixo e redondo, completamente tortas. Vazias. Tudo vazio. Impossível saber onde encontrar uma passagem dessas apenas olhando no mapa. Elas não estão no mapa. De longe, e de vez em quando, uma voz perdida ecoando longe em suíço-alemão. Outra estranheza daquela cidade. Você é capaz de andar quilômetros pela mesma rua, embaixo de umas galerias, sem nunca precisar ir pro meio da rua, o que nos economiza do frio e do vento terrível do lado de fora. Acho que foram construídas pra isso mesmo.
Na primeira noite, resolvi que deveria ir ao cinema, em homenagem a Clarice. E fui. Um cinema no final da rua que ela morou, a Gerechtigkeitsgasse. Assisti ao filme Gomorra, sobre a crueldade dos mafiosos italianos. E não sei porque escolhi aquele filme: acabei ficando ainda mais assustado naquela cidade. Na frente de cada prédio, quase todos iguais, uma porta meio inclinada no chão te faz imaginar que aquilo é um porão infernal, de onde a qualquer momento algum anti-herói medieval vai sair, te apanhar e te levar lá pra dentro, sem que ninguém nunca mais saiba onde você foi parar. Um medo terrível. No dia seguinte, descobri que a melhor festa de Bern era exatamente num desses buracos no chão. Ah, os suíços! Ao contrário dos franceses, eles são muito mais abertos ao que é novo. A pessoas diferentes deles. Sempre super educados e atenciosos, eles até se arriscam a sorrir pra quem eles não conhecem. As mulheres suíças são super elegantes, e estão sempre fugindo pra não sei onde. Os homens são lindos, com cara de que acabaram de sair de anúncios de perfumes caros. Os suíços são todos elegantes, mesmo quando não se esforçam pra isso. E acho que raramente eles o fazem. Já antes de pegar o trem pra seguir minha viagem, encontrei um homem bêbado na rua, e até ele era super chique. A pobreza é uma coisa que não existe naquele país, e eu fiquei me perguntando se aquele não era um dos poucos mendigos suíços, todo bem vestido, com um relógio (suíço?) cintilando no pulso, etc. Aproveitei pra perguntar a direção da estação de trem, apesar de já saber de có, mas também como forma de testar uma coisa que sempre me intrigou na suíça: até os mendigos falam inglês! Impressionante. E muito melhor do que eu. Mesmo quando ainda não bebi.
Ainda no trem, comecei a me apavorar com a quantidade de neve que se acumulava pelo chão e no telhado das casas. Desci do trem e a temperatura era incrivelmente suíça, -4°C. Sete horas da noite e eu tinha apenas um papel na mão onde desenhei o caminho pra chegar no meu hotel. Comprei um mapa na estação e nem me dei conta que as explicações estavam em alemão. Efeitos de Bern. Respirei fundo e sai andando rápido, procurando o caminho do hotel. Talvez essa seja a coisa interessante de uma viagem sem programações: não saber exatamente nada sobre pra onde ir. Uma liberdade que a minha cabeça de virginiano precisa de vez em quando. Chegando na primeira praça da cidade, o mercado de natal estava fechado, ninguém nas ruas pra me informar sobre a direção correta, andei mais um pouco e descobri um vale imenso na escuridão. Na minha cabeça não existia ladeiras em Bern. A cidade era plana. Mas na verdade, ela foi construída na península de um rio, então a cidade fica no alto de uma colina, e todas as ruas vão descendo na direção do rio. Estratégia de guerra. Ruas imensas, retas, paralelas entre si, sem uma única rua que faça um cruzamento entre elas. Apenas pequenas passagens no estilo mais medieval que se pode imaginar, ligam essas ruas paralelas. Apertadas, com o teto baixo e redondo, completamente tortas. Vazias. Tudo vazio. Impossível saber onde encontrar uma passagem dessas apenas olhando no mapa. Elas não estão no mapa. De longe, e de vez em quando, uma voz perdida ecoando longe em suíço-alemão. Outra estranheza daquela cidade. Você é capaz de andar quilômetros pela mesma rua, embaixo de umas galerias, sem nunca precisar ir pro meio da rua, o que nos economiza do frio e do vento terrível do lado de fora. Acho que foram construídas pra isso mesmo.
Na primeira noite, resolvi que deveria ir ao cinema, em homenagem a Clarice. E fui. Um cinema no final da rua que ela morou, a Gerechtigkeitsgasse. Assisti ao filme Gomorra, sobre a crueldade dos mafiosos italianos. E não sei porque escolhi aquele filme: acabei ficando ainda mais assustado naquela cidade. Na frente de cada prédio, quase todos iguais, uma porta meio inclinada no chão te faz imaginar que aquilo é um porão infernal, de onde a qualquer momento algum anti-herói medieval vai sair, te apanhar e te levar lá pra dentro, sem que ninguém nunca mais saiba onde você foi parar. Um medo terrível. No dia seguinte, descobri que a melhor festa de Bern era exatamente num desses buracos no chão. Ah, os suíços! Ao contrário dos franceses, eles são muito mais abertos ao que é novo. A pessoas diferentes deles. Sempre super educados e atenciosos, eles até se arriscam a sorrir pra quem eles não conhecem. As mulheres suíças são super elegantes, e estão sempre fugindo pra não sei onde. Os homens são lindos, com cara de que acabaram de sair de anúncios de perfumes caros. Os suíços são todos elegantes, mesmo quando não se esforçam pra isso. E acho que raramente eles o fazem. Já antes de pegar o trem pra seguir minha viagem, encontrei um homem bêbado na rua, e até ele era super chique. A pobreza é uma coisa que não existe naquele país, e eu fiquei me perguntando se aquele não era um dos poucos mendigos suíços, todo bem vestido, com um relógio (suíço?) cintilando no pulso, etc. Aproveitei pra perguntar a direção da estação de trem, apesar de já saber de có, mas também como forma de testar uma coisa que sempre me intrigou na suíça: até os mendigos falam inglês! Impressionante. E muito melhor do que eu. Mesmo quando ainda não bebi.
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