Mas e
o que fica entre as linhas? E o que a poeira esconde? Desmagnetiza. Tudo
danificado. Eu já fui capaz de passar quase a semana inteira lendo um livro,
sem fazer mais nada, além das necessidades básicas. Esse ultimo fim de semana
foi assim. Comi, li, tomei banho, li, comi, li, dormi, li... tinha perdido o
gosto disso. Eu vou ser um pai bem carrasco: eu não vou deixar meu filho
assistir TV. Sim... deixo ele ver algumas coisas... mentira! Claro que meu
filho vai poder fazer tudo que ele achar bom pra ele. Vou explicar as minhas
razões pras coisas que creio boas e ruins, mas isso não significa que ele não
possa ir por outro lado. Na verdade eu vou chorar de alegria se ele discordar
de mim. É por isso que acho que ainda não posso ser pai. Que espécie de pai
seria esse? Mas, como diz minha mãe: espere nascer e depois comece a falar
besteiras! rsss... ela deve ter razão, teve cinco! Ok, filho meu...
É que
sonhei ontem que tinha um filho. Na verdade, que a minha namorada tinha um
filho. Que namorada? Talvez porque uma amiga passou a tarde interira em Ipanema
falando comigo sobre ter um filho e uma família. Aquilo me assustou tanto: logo
ela! Pois é... socorro! Próxima semana eu vou ter uma linda criança chorando do
lado. O que? Não! Claro que não. Sim. Sei lá. E se ele lesse tudo isso que
escrevi aqui? Claro que meu filho vai ser suficientemente inteligente pra saber
quem era o pai dele, só pela leitura. Ah bom, um maluco qualquer que só não foi
parar numa comunidade hippie radical porque não nasceu na década de sessenta e,
muito menos, tinha coragem suficiente pra abandonar as coisas. Eu nasci mesmo
foi em 1978. E cresci na década de oitenta... éca!!! Alguém poderia ter algum
sentido crescendo naquela década? Eu não tenho. Outro dia fui numa festa onde
eles tocavam musicas daquela época: balão mágico, musicas da Shira (é assim que
escreve?)... bem, no meio da festa parei num canto e fiquei observando
surpreso. Eu era fruto daquilo. Mas não preciso chorar por isso. Também tiveram
algumas vantagens em nascer na década de oitenta. Por exemplo, ter nascido numa
cidade do fim do mundo: Areia Branca. Lá, as coisas ainda eram misturadas.
Lembro dos bailes de carnaval com serpentina e pó de arroz (existia uma linha incrivelmente
reta entre a parte que só soltava serpentina e a parte que soltava pó de arroz
e eu, claro, ficava no meio, pulando de um lado pra outro) no prédio que hoje é
o Banco do Estado, o Banese. Coisas de Areia Branca. E meu irmão mais velho
ganhava dinheiro sendo DJ numa discoteca da moda lá em Areia Branca. Sim, claro
que existia discoteca em Areia Branca! E eu tinha um irmão DJ. Nem existia essa
palavra! Mas ele era! E eu podia entrar em todas as festas sem que ninguém
pedisse minha carteira de identidade: eu devia ter 8 anos. Lindo! Quem disse
que Areia Branca é provinciana? Isso é a arqueologia da minha mente, aquela que
eu queria registrar pra sempre num papel... desculpem-me, num arquivo “.doc” da
Microsoft, mesmo eu que não conheci direito os homens.
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